Bulskampveld, Bélgica. por Thomas Lambert (2017)

Redes Regenerativas, o próximo passo da Sustentabilidade

Victor Hugo Barreto
Sep 4 · 10 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra
edição de
Gustavo Nogueira (Gust)

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Enquanto o atual governo afirma em encontro internacional que o país está sendo vítima de uma psicose ambientalista, torna-se cada vez mais importante a conscientização e articulação entre projetos coletivos que visam produzir redes regenerativas. Só compartilhando e vivenciando ferramentas de sustentabilidade é que demonstraremos nossa ação e responsabilidade com esse mundo e todas as formas de vida que habitam nele.

Para nos falar de sua experiência convidamos Amon Costa para o centro do Sandglass dessa semana. Amon é sócio-fundador da Mancha e da Zebu Mídias Sustentáveis, empresas que objetivam um impacto socioambiental positivo. Vamos entender como eco-design, design de experiência e branding podem ajudar a construir mundos melhores.

Sandglass ⧖ Torus : Design Regenerativo / Amon Costa

Amon fez Design Gráfico na PUC-RJ e foi com a vontade de expandir áreas de conhecimento que buscou agregar em sua formação outros saberes e atuações. Em uma especialização em uma Empresa Junior na mesma instituição foi quando teve contato com a área de empreendedorismo e a necessidade de construir conteúdos relevantes e que não ficassem isolados nas suas áreas de saber específicos. Fazendo um curso sobre Responsabilidade e Impacto Social e Ambiental em Projetos conseguiu encontrar um campo de atuação do qual nasceu a Zebu.

Cards feitos com refugo de madeira e pigmentos ecológicos (tintura de beterraba, canela, azeitona…) usados nos projetos da Zebu. (fonte: Projeto Draft)

Uma empresa de mídias sustentáveis

A Zebu, uma empresa de design e comunicação, foi fundada em 2010 por Amon e sua rede de amigos da faculdade que participaram de sua formação.

“A gente criou a empresa com a provocação e com um incômodo de que o mercado estava falando muito sobre meio ambiente e sustentabilidade, mas pouco atuava ali, na prática, para transformar materiais e projetos que implementasse, de fato, uma mudança nesses aspectos. Tinha ali a ideia de que o debate era só uma tendência, ou pior, algo como greenwashing, e não um debate real e que veio para ficar”

Zebu

O nome Zebu e o símbolo do besouro foram escolhidos por se relacionarem com o elemento das fezes. Aquilo que poderia ser entendido como o “fim da linha”, pode ser ressignificado como o começo, já que as fezes são adubo e o ponto que conecta o ciclo da vida.

A Zebu foi responsável pela execução de mais de 60 projetos com inteligência de ecodesign e design thinking, com um portfólio amplo nas áreas de comunicação visual, estratégia e criação de marcas, naming, planejamento de comunicação, campanhas, cenografia, intervenção urbana, mobiliário urbano, brindes, móveis, embalagens, dentre outros projetos experimentais. É membro do CE100 (Circular Economy 100 Network) e, entre 2014 a 2019, a empresa foi certificada pelo Sistema B.

Design Circular

A ideia de uma economia circular se apresenta enquanto uma alternativa dentro do nosso modelo majoritário de economia linear. Ao invés do “extrair — transformar — descartar” busca-se dissociar a atividade econômica do consumo de recursos finitos, e eliminar resíduos do sistema por princípio, reinserindo os materiais na linha produtiva. Se resume em três princípios bases:

· Eliminar resíduos e poluição por princípio.

· Manter produtos e materiais em ciclos de uso.

· Regenerar sistemas naturais.

“Nesse modelo o produto tem que ser pensado desde o início em todo o seu ciclo de vida para impactar o mínimo o meio ambiente e gerar o máximo possível de valor para a sociedade.”Em 2011, ao serem convidados para cuidar da comunicação da Semana do Meio Ambiente da PUC puderam desenvolver duas ações que até hoje fazem parte do DNA da empresa: o uso de tintas orgânicas nos materiais impressos (como beterraba, urucum e canela) e o Estêncil Limpo (basicamente, a impressão de informação em lugares como calçadas ou paredes limpando a superfície em vez de usar tinta).

“Esse lance de “imprimir” limpando me lembrou a obra Ossário do Alexandre Orion, um artista paulistano que faz intervenções artísticas urbanas usando materiais como a própria fuligem depositada nas paredes laterais de túneis de São Paulo. Além de todo o significado com a poluição.”Andréia Rocha

A Zebu em seu princípio procurou atuar a partir do desenvolvimento lean startup. Ou seja: prototipação rápida, pouquíssimos recursos e aprimoramento contínuo na melhoria das tecnologias proprietárias. Cada cliente ou projeto era uma oportunidade nova de experimentação de ideias, métodos e tecnologias.

“Temos como missão contribuir com a construção de uma nova consciência de consumo e relacionamento para então regenerar comunidades e meio ambiente. Por isso buscamos aplicar os conceitos de economia circular e colaborativa.”

Produtividade da Terra em um ano em um gif. Fonte: Visual Capitalist

Tem três frentes de ação:

1) Desenvolver produtos que respeitam o ciclo biológico do planeta;

2) Criar marcas com significado e impactos socioambientais positivos para o mundo;

3) Realizar projetos e intervenções que melhoram o meio ambiente urbano;

Mancha

Amon apresenta a criação da Mancha Orgânica em 2017 como uma spinoff da Zebu. O foco aqui é na produção de tintas atóxicas e 100% orgânicas a partir de produtos da biodiversidade brasileira como açafrão, urucum, cacau e erva-mate.

“Ela surgiu de forma muito improvisada, na cozinha das nossas casas, de forma corajosa, arriscada e muito informal. Transformamos a panela em nosso reator, experimentando os alimentos e seus pigmentos. Importante nesse processo também foi nossa aproximação com a COPPE da UFRJ, um Instituto de Engenharia do qual alguns pesquisadores nos ajudaram nessa jornada empreendedora.”

As tintas orgânicas, um dos principais projetos da Zebu e que deu origem à Mancha, apareceram inicialmente em sua atuação no setor gráfico na produção de cartazes e chega atualmente a seu potencial educativo.

“A gente começou a olhar para o público infantil como o principal canal de transformação de consciência ambiental e social. Começamos a perceber que trabalhar com as crianças seria muito mais interessante, porque estaria levando para elas um material totalmente sem riscos e como meio para contar histórias e de estimular o desenvolvimento delas”

Amon explica que a ideia da Mancha é fazer um produto ao alcance das crianças, para inverter a lógica do mercado, na qual é preciso manter tudo longe delas, para evitar perigos. A missão é desenvolver um produto que explore o potencial de cada ser humano e que levasse a sério a lógica da economia circular e os princípios da regeneração.

Fonte: Bloom Network

Redes Regenerativas

A lógica produtiva da regeneração é um passo possível dentro da meta da sustentabilidade.

“Sustentabilidade é algo que não se alcança, está ali no futuro como uma meta a ser sempre alcançada. Por isso que sustentabilidade é uma contínua melhoria de processos. Ela pode estar inserida no método produtivo, na origem do material, na lógica das relações que você constrói com seus fornecedores e parceiros até a entrega do produto final seja na forma de consumo e uso e/ou na história que ele conta

Dessa forma, para Amon, abordar o tema de regeneração é entender que regenerar não é a capacidade de um organismo se tornar o que ele era antes após determinada influência. A visão mais caricata sobre esse processo é a da capacidade de membros que crescem novamente de certas espécies do mundo animal ou mesmo na ficção de super-heróis nas quais os ferimentos se curam sozinhos rapidamente.

Aqui estamos falando da capacidade regenerativa de ecossistemas que envolve uma complexidade maior do que, por exemplo, a reutilização de materiais recicláveis. A busca é por um mindset que tenha como base o pensamento sistêmico, já que a regeneração só acontece quando o ecossistema está interagindo com todas as partes.

“Por que eu acho que a cultura da regeneração é o próximo passo no debate sobre as sustentabilidades? Porque ela significa moldar as nossas organizações para elas, de fato, começarem a operar como o ecossistema natural opera, de uma forma mais adequada e não da forma tradicional que é feita. Nossas ações nos últimos anos tem levado o planeta a seu limite”

O que Amon está colocando em questão é o próprio modus operandi de gestão de negócios. Dificilmente as empresas levam em consideração a correlação das organizações em diferentes camadas sociais, naturais, econômicas e ambientais, ou seja, o ecossistema como um todo.

Quando as empresas se organizam em um modelo de gestão baseado na competitividade, de força e fraqueza, de oportunidade e ameaça essa lógica é potencializada em toda a sua negatividade. Justamente por não ser uma lógica natural, já que na natureza não é o mais forte que consegue perpetuar, e sim o mais adequado, o mais funcional, o que melhor consegue se relacionar com os outros elementos do sistema.

É nesse cenário que Amon destaca a biomimética aplicada à gestão de negócios e como isso é fundamental para a regeneração, servindo para as empresas mudarem a forma como atuam no ecossistema. Seguir, por exemplo, os ensinamentos do antropólogo Bruno Latour e analisar a confluência de todos os elementos dentro de um sistema. Se o sentimento de perda do mundo é coletivo, precisamos nos reconectar com ele. Aprender com ele.

Inspirado na obra “A Teia da Vida” do Fritjof Capra, Amon destaca os três critérios fundamentais de um ecossistema para determinar se ele um organismo é vivo ou não:

  1. Se ele interage bem com o restante do ecossistema;
  2. Se ele tem um padrão de organização;
  3. Se ele aprende e se desenvolve;
Symbiosis, por Roberta Carvalho

O exemplo das culturas tradicionais

Um passo importante no objetivo de mundos melhores é destacado por Amon ao se levar em conta as aprendizagens possíveis com os saberes tradicionais. Estigmatizados como primitivos, são culturas muito mais em contato e harmonia com a natureza do que o sistema econômico hegemônico que desenvolvemos. Culturas que foram dizimadas ao longo do tempo e que demonstram um saber muito mais inteligente que o nosso no uso dos recursos.

“Precisamos realmente de um despertar nesse sentido. Enquanto ele não acontece, continua sendo importante ir tensionando cada vez mais as fendas, trazendo para o diálogo a diversidade e não apenas criticar como virou moda esses temas. Para isso é importante aprender e construir cada vez mais argumentos com dados, com estudos…” — Sarah Brito

Para resumir:

5 pontos que são interessantes para serem discutidos sobre a ótica da cultura regenerativa:

  1. O alinhamento em camadas: o entendimento de que as culturas (organizacional ou de cultivo) podem e precisam ser analisadas em seus diferentes aspectos: econômico, ambiental, social, humano e manufaturado
  2. A complexidade adaptativa dos sistemas: entender que regenerar não é voltar ao que se era, regeneração é processar materiais e resíduos e com isso gerar matéria-prima para a criação de novos produtos; na natureza não existe lixo, isso é invenção nossa;
  3. A interação entre as partes: entender que a energia está aí para ser trocada e reciclada o tempo inteiro sob todos os aspectos;
  4. A heterogeneidade da diversidade: a diferença se dá em diversos âmbitos e matizes, e é importante ser o mais inclusivo possível, aprender com a diferença;
  5. A importância da descentralização: evitar a redundância, somos organismos partes de um sistema, é preciso atentar para esse fato para que possa mudar a forma como habitamos o mundo e nos relacionamos com o restante do todo;

As empresas e organizações, portanto, devem se perceber enquanto organismos vivos dentro e fazendo parte de um ecossistema maior. Procurar desenvolver projetos que gerem impactos positivos para todos e não entrar em dissintonia com as outras formas de vida. Biomimética, pensamento sistêmico, Sistemas B, redes regenerativas, dentre outras, são passos possíveis nessa meta.

Explore outros encontros que complementam este:


Veja mais registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)