Still de Ghost in the Shell

Sci-Fact : ficção científica como aceleradora de realidades desejáveis

Victor Hugo Barreto
May 8 · 7 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Rodrigo Turra e Sarah Brito
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

Click here to read in English

Nossa convidada nesta edição: Lidia Zuin, jornalista e futuróloga, mestre em semiótica e doutoranda em artes visuais pela Unicamp. Ela é head do núcleo de inovação e futurismo da UP Lab e pesquisadora da Envisioning, além de se definir como uma entusiasta do cyberpunk. Publicou contos de ficção científica em coletâneas e escreve sobre futurologia, tecnologia e ficção científica.

Amiga querida e parte de iniciativas da Torus como a 2ª edição de nosso estudo sobre o Zeitgeist da Aprendizagem, Lídia é uma especialista que tenho orgulho de estarmos conectados, no Brasil e no mundo. No tempo presente e no futuro.

Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

Gustavo Nogueira (Gust)⏳❤️

Sandglass ⧖ Torus : Sci-Fact com Lidia Zuin

Nosso papo partiu de perceber o rico diálogo entre ficção científica e inovação tecnológica, ou como a Sci-Fi inspira e (se) transforma Sci-Fact, não como uma contraposição, mas sim uma mútua influência.

Anime “Serial Experiments Lain” analisado por Lidia.

Lídia nos apresentou a sua trajetória na área a partir de um interesse que surgiu em uma pesquisa acadêmica para sua Iniciação Científica em que conectou tecnologia fictícia com tecnologia real. O projeto foi sobre uma animação japonesa que falava da possibilidade das pessoas poderem se conectar à Internet sem o uso de dispositivo, o que hoje já se tornou uma realidade.

Ainda que só mais tarde, com pesquisas acadêmicas posteriores sobre realidade virtual e arte, que Lidia tenha tido mais contato com o conceito de futurismo ou futurologia, já lhe chamava atenção o fato de que obras ficcionais, principalmente do gênero de ficção científica de alguma forma parecessem antecipar que possibilidades de futuro estão à nossa frente.

À esquerda, série “Black Mirror”, que aponta possibilidades de um futuro opressor; à direita, “2001: uma odisséia no espaço” (1968), filme baseado em roteiro do autor de scifi Arthur C. Clarke.

O Futurismo de que estamos falando, também chamado de Foresight, Futures Studies, Futures Research e Futurology é uma área de estudos com desenvolvimento científico de pesquisas que cada vez mais é integrado ao pensamento estratégico aliado à tecnologia e aos negócios. Presente em várias universidades do mundo, e com uma comunidade crescente no cenário brasileiro.

Prospectar; especular; imaginar; planejar; esses são alguns dos verbos de ação de quem estuda o futuro. De fato, os estudos de futuro trabalha com ações voltadas para a construção de um porvir, algo que ainda não aconteceu, que está em vias de transformação. Como define a futurista Jaqueline Weigel:

“Olhar à frente para imaginar o que ainda não existe. Prospectar o futuro para decidir o presente. Antecipar o futuro e se preparar para recebê-lo. Clareza sobre as possibilidades emergentes para a sociedade, para o mercado e escopo do trabalho. Alimentar a criatividade, fomentar a discussão e dar base para estratégias, decisões e ações no presente. Esta é a missão de um futurista. O Futurismo é prático, tangível, inteligente.”

Infrográfico por Aeroli.to

Alguns exemplos de onde a ciência do Futurismo é aplicável:

1. Em estratégias de governo

2. Como base para Inovação nos Negócios

3. Para trazer maturidade às novas gerações

4. Nas discussões globais sobre sustentabilidade e economia

5. Como suporte para Transformação Digital de Negócios

6. Nos debates sociais, trazendo didática, empatia e proximidade ao que pode acontecer no mundo

7. No planejamento da carreira para as novas profissões do mundo

Kidmograph

Como nos conta Lidia, não se trata de “prever” o futuro. Não há nada de esotérico ou místico no futurismo (ainda que o mesmo não desdenhe desses saberes cosmológicos), mas trata-se de um “salto especulativo”. Um salto feito a partir de uma análise e pesquisa sistemática sobre as tendências em constante mudança nos cenários contemporâneos.

Nesse pensamento, a ficção científica toma um papel relevante. Já que são narrativas estimuladoras de criatividade que contribuem diretamente como inspiração para a concepção não só de tecnologias, design e artefatos, como também para os futuros possíveis. Lidia desenvolveu estudos maiores justamente na relação entre Sci-fi e os Sci-facts.

“A sacada disso é: como a ficção científica pode ser esse pano de fundo de inspiração para a inovação tecnológica. Exemplo: se você for trabalhar na Oculus recebe um exemplar do livro ‘Ready Player One’ que foi a base de inspiração do fundador da empresa para criar a tecnologia de realidade virtual que eles têm hoje. Ele diz: ‘A gente quer alcançar o que a gente viu na ficção científica.’”

À esquerda, adaptação de Spielberg para a obra “Ready Player One”; à direita, materialização da tecnologia fictícia pela Oculus.

Lidia, ao ter contato com essa teoria, percebeu que já vinha desenvolvendo essas ideias em sua produção acadêmica e que começou a pensar formas de poder atuar no mercado a partir desse lugar de alguém que, até então, dialogava apenas no ambiente acadêmico. Além das dificuldades de começar a atuar em um campo relativamente novo, sendo jovem e mulher, o que causou algumas reações de descrédito.

Se encontrou na área de design fiction, que desenvolve uma metodologia singular na qual busca unir design thinking com ficção científica.

“A ficção servindo para visionar esses cenários, visualizar esse universo, expandir a nossa mente e pensar no quê que a gente pode transformar esse futuro. Basta a gente escolher qual o futuro que a gente quer.”

Lidia nos alerta que a relação do design fiction com as empresas no país também é algo ainda novo, principalmente quando se pensa em termos de entregas e produtos. O estranhamento causado pelo contato do projeto desenvolvido pelos futuristas faz parte do trabalho, já que desenvolver um cenário de futuro envolve um certo impacto com aquilo que é novo e desconhecido.

O destaque aqui é que, como a ficção científica faz parte de uma memória afetiva da maioria das pessoas que são integrantes dessa estrutura corporativa, o diálogo pode ser iniciado por essa via, de forma mais livre e empática. Até porque, por sua experiência, é justamente a mudança de mentalidade que a maioria das empresas desejam, que se deixe de pensar em “caixinhas” para que elas se expandem em um mindset de futuro. Um processo, dessa forma, aberto à experimentações tanto de metodologia quanto de métricas de sucesso. A proposta é se abrir e propor mudanças, até mesmo de novas formas de se fazer negócio.

Up Lab

O desafio é como encontrar um caminho do meio, junto a aliados e também interessados nas transformações, em que seja possível dialogar com as oportunidades do presente e de um modo tradicional de se pensar e fazer negócios, sem abrir mão do propósito de acelerar e inspirar mudanças nesses modelos.

Nesse sentido, percebemos o quanto esses aprendizados não necessariamente estão pautados em entregas ou produtos finais, mas sim focados em criar espaços seguros de troca e aprendizagem, para que a partir desses processos as pessoas cheguem nos resultados desejáveis em uma criação livre.

“Como a ficção faz para que possamos imaginar esses cenários? Como diz o escritor Arthur C. Clarke, ela nos ajuda a criar universos, abrir a nossa mente e a pensar cenários do futuro. Isso é muito importante num momento de grandes mudanças.”

“Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic. Magic’s just science that we don’t understand yet. When a distinguished but elderly scientist states that something is possible, he is almost certainly right. When he states that something is impossible, he is very probably wrong.” — Arthur C. Clarke

Victor Hugo Barreto


Participantes (da esquerda para a direita, do alto para baixo): Lidia Zuin, Gustavo Nogueira, Sarah Brito, Victor Hugo Barreto e Morena Mariah.

Veja outros registros do Sandglass aqui:

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade