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Tempo: o mais valioso recurso

Gustavo Nogueira (Gust)
May 28 · 9 min read

Entender o tempo ao nosso redor também é sobre perspectiva. Para viajar para o futuro e entender para onde estamos indo, é necessário primeiro dar dois passos para trás e entender a história que nos trouxe até aqui. Não surpreendentemente, um dos mais renomados futuristas hoje, o israelense Yuval Noah Harari, também é professor de história.

O que é o tempo? Segundo o filósofo Aristóteles, o tempo é a medida da mudança. E mudança é a nossa única constante.

Definido pelo físico Carlo Rovelli como o maior mistério remanescente, até hoje não conseguimos entender completamente o tempo, mas é sem dúvida um assunto que afeta nosso cotidiano. O psicólogo Philip Zimbardo diz que a maneira como nos orientamos em relação ao passado, presente e futuro impulsiona nossa felicidade e sucesso. O autor Daniel Pink mostra que o timing é realmente uma ciência e nossas vidas são um fluxo interminável de decisões “quando”. E a moeda do tempo atual não é mais uma moeda, mas sim o próprio tempo. Entre abordagens em filosofia, física, psicologia e economia, entender as interseções entre essas diferentes lentes é necessário para desenvolver uma perspectiva mais holística sobre nossa relação com o tempo.

Eu sou Gustavo Nogueira (Gust)

Eu dediquei meus últimos 5 anos a pesquisar e estudar tempo. Este assunto me acompanha desde a minha juventude quando decidi iniciar a graduação em Física enquanto estudava Comunicação Social. Esse interesse também permaneceu latente quando deixei de me dedicar apenas ao estudo das ciências sociais. Afinal, o zeitgeist é uma manifestação social de nossa percepção coletiva do tempo em que vivemos. E é nessa abordagem que, desde então, invisto meu poder criativo, estratégico e, mais recentemente, empreendedor.

Aster. Chronos. Kairos. Quantum.

Desde o momento em que nossos ancestrais caçadores-coletores se reuniam ao redor da fogueira para contar histórias, conversamos sobre o tempo. Ao observarmos as estrelas, o tempo “aster”, uma dança que percebemos ocorrer em um ritmo diferente do nosso, aqui na terra; ao observarmos a natureza, o tempo “chronos”, dos ciclos e padrões que podem ser controlados, e que nos permitiram o desenvolvimento do cultivo agrícola e com ele as primeiras civilizações para além do nomadismo; e, ao observarmos o que existe dentro de nós, o tempo “kairós”, sutil, subjetivo, no qual as experiências ocorrem e uma hora pode parecer demorar um ano ou um minuto, no que chamamos de estado de fluxo.

(E há ainda o tempo “quantum”, que nos mostra que tempo é ignorância. E nos ensina sobre a nossa humanidade. Isso é o que exploramos em nossa iniciativa chamada Temporal. Mas isso é para outra conversa. Envia uma mensagem em gust@torus.cx se você quiser fazer parte.)

Orientações Temporais em perspectiva

O psicólogo Philip Zimbardo diz que a maneira como nos orientamos em relação ao passado, presente e futuro influencia e impulsiona nossa relação com a realidade ao nosso redor. Nos voltamos para um futuro sem saber direito o que queremos dele e sem levar em real consideração aquilo que já aconteceu. Essa miopia na relação com o tempo traz consequências como a falta de memória e a propensão a cometer os mesmos erros do passado.

Para estudar o tempo, um momento importante na minha jornada foi a percepção de que a história dos nossos diferentes povos até aqui é mais antiga que os dois milênios rememorados hoje. Kurzgesagt: o termo em alemão significa “em resumo” ou “em poucas palavras”. E também é o nome de um projeto criado em 2013 e baseado em Munique focado na produção de vídeos educacionais em animação respondendo questionamentos importantes do nosso tempo. Entre os vídeos, um deles desafia o nosso calendário atual e propõe adicionarmos 10.000 anos na nossa contagem, utilizando como marco uma das primeiras grandes construções da humanidade, marcando o início da história humana.

Estaríamos, então, no ano de 12.019 HE, a contagem do calendário da Era Humana.

Mesmo a chegada da humanidade até o momento presente não ocorreu em uma linha reta. Ao estudarmos a natureza, compreendemos que a nossa evolução aconteceu e acontece por uma sucessão complexa de tentativas e erros. Ramificações de uma árvore genealógica com diferentes espécies, nas quais somos apenas um dos frutos entre os múltiplos galhos. Quando conheci Neil Harbisson — fundador da cyborg foundation e entusiasta da biomimética — em uma MESA, o método de sprint reinventando o trabalho da FLAGCX, fui influenciado a transbordar a visão do transhumanismo (H+) que se dedica a ampliar o amanhã de nós, humanos, para pensar em futuros que vão além do pós-orgânico, são mesmo trans-espécies, já que somos só uma das muitas espécies em evolução. Não estamos sozinhos no mundo.

Por que isso é importante para uma conversa sobre tempo? Como escreveu o educador americano Stephen Covey, “nós vemos o mundo não como ele é, mas como nós somos — ou como nós fomos condicionados a vê-lo”. Compreender o tempo ao nosso redor também é sobre perspectiva. Para viajar ao futuro e entendermos para onde vamos, é necessário antes nos voltarmos duas vezes mais tempo atrás e compreender a história que nos trouxe até aqui. Não por acaso, um dos futuristas de maior renome atualmente, o israelense Yuval Noah Harari, é também um professor de história.

Ressaca do Futurismo

Após uma breve história do tempo, o foco aqui se volta para o contexto cultural. Eu vivi uma imersão na minha relação com tempo por meio de uma experiência guiada pela Inesplorato, empresa de curadoria de conhecimento, que me preparou uma caixa especial sobre o tema. Nela, um artigo plantou em mim uma provocação como semente: por que previmos a invenção dos smartphones mas não a entrada das mulheres no mercado de trabalho?. “O futurismo vive uma uma cegueira cultural”, me disse o jornalista Tom Vanderbilt em artigo assinado na Nautilus em 2015.

Nós previmos os telefones celulares, mas não a entrada das mulheres no mercado de trabalho.

“A única coisa imutável no homem é sua vocação para a mudança, por isso a revolução será permanente, contraditória, imprevisível, ou não será.” disse o escritor belgo-argentino Julio Cortázar. “As revoluções-coágulo, as revoluções pré-fabricadas, contêm em si sua própria negação, a estrutura futura”. A tecnologia é base do pensamento exponencial, essencial a essa área de estudos, e de grande importância também para muitas das inovações atuais. Mas logo entendemos que a tecnologia é ferramenta. Ambígua e análoga aos seus potenciais usos. Pensar o futuro somente por meio da tecnologia é somente retroalimentar o sistema vigente. Um processo que se inicia com um fim já definido. Disrupção controlada. Máscaras do Tecno-Capitalismo.

Há também uma mudança de ideologias e arquétipos de mundo em curso. Existem outras realidades possíveis que merecem nossa atenção e energia. Acreditarmos na utopia como horizonte do deslocamento, como disse Eduardo Galeano. “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Observar o futuro é abraçar o imprevisível. É um convite a uma busca, dentro e fora, por balanço na nossa jornada. A repensamos, como indivíduos e como sociedade, a nossa relação com o tempo.

Corrigindo nossa miopia sobre tempo

Daniel Pink em seu livro “When” nos mostra que para além dos manuais de “como” fazer, nossas vidas são um fluxo interminável de decisões “quando”. A moeda do tempo atual não é mais uma moeda, mas o próprio tempo. Nossos próximos passos como humanidade vão depender também de balanço: Entre as diferentes perspectivas temporais; Entre as diferentes áreas do conhecimento que se relacionam; E entre as diversas vozes que precisam de lugar de fala nesse diálogo. São necessárias também as lentes da sociologia e da cultura. De especialistas que representam diferentes povos, origens, etnias.

O pensador americano, George Santayana, disse “O progresso, longe de consistir em mudança, depende da retenção. Quando a mudança é absoluta, não resta um ser para melhorar e nenhuma direção é definida para uma possível melhora: e quando a experiência não é mantida, como entre os selvagens, a infância é perpétua. Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Estudar o tempo e suas implicações é considerar raízes e potencialidades aplicadas. Passados e futuros, juntos, convergindo em presentes possíveis.

Em um mundo de transformações constantes e cada vez mais rápidas precisamos compreender as linhas que se cruzam e definem o espírito do tempo ao nosso redor, para que não percamos o rumo nem o norte de ação. Por isso há quase dois anos, de forma independente, fundei a TORUS.

Para entender o mundo, a TORUS estuda o tempo. De acordo com o filósofo Aristóteles, tempo é a medida da humanidade para mudança. Mudança é a nossa única constante. Para estar em conexão com o que existe de mais vivo entre desafios e oportunidades no mundo, nós estudamos o que está em transição, em processo, em transformação. É necessário sentir o mundo para além do que existe e estar aberto, agora, ao que o mundo se torna.

TORUS foi concebida para ser um movimento de uma era ainda por vir. Um guia entre questões sociopolíticas, perguntas filosóficas e respostas que emergem de expressões artísticas, culturais e também tecnológicas. Por isso nós entendemos o mundo a partir do que ele se torna, não do que ele é. E traduzimos o mundo à medida que ele acontece.

Hoje somos uma rede de pessoas em diferentes lugares do mundo. Nós acreditamos que é possível mudar o mundo, mudando a forma como nos relacionamos com o tempo. E promovemos espaços nos quais essa relação possa ser repensada e ressignificada. Um dos projetos que temos investido bastante dedicação, por exemplo, é uma experiência de aprendizagem chamada Zeitgeist Navigators, em que orientações sobre os desafios e oportunidades para viajantes do século XXI são compartilhadas. Outro projeto é nosso grupo contínuo de estudos do tempo, em que semanalmente recebemos especialistas das mais diversas áreas para um espaço seguro de troca que nos alimenta. E ainda estudos e consultorias estratégicas sobre como dialogar com o espírito do tempo e potencializar as relações que estamos todos construindo com a realidade ao nosso redor.

As fotos ao longo deste artigo são da Salamandrine, parte do coletivo criativo I HATE FLASH, para a FLAGCX.

Na noite de 14 de Março de 012019, a TORUS em conjunto com a FLAGCX promoveram um encontro no CASTLE, em São Paulo, para uma breve conversa sobre tempo. Uma conversa sobre como podemos buscar uma relação mais balanceada com o tempo. No encontro, partindo das mais diferentes perspectivas e construções sobre o tempo, tanto para entender aquilo que nos fez chegar até o atual momento, quanto para compreender o poder da percepção e do balanceamento temporal; buscou-se traduzir algumas transformações que estão conformando o cenário futuro e que nos possibilitam a construção de mundos melhores.

FLAGCX é uma plataforma que apoia a TORUS — como movimento independente que somos — e também outras iniciativas conectadas a ideia de mudar nossa relação com o tempo. Nas palavras do filósofo italiano Giorgio Agamben, “aqueles que são verdadeiramente contemporâneos não coincidem perfeitamente com o seu tempo e não se adaptam às suas exigências. São aqueles que se relacionam com o tempo e aderem a ele por desconexão”.

No entanto, entre o começo e o fim, também é importante reconhecer que estamos no meio de um longo processo. E além de te contar a minha e a perspectiva do Torus, eu vou adorar ouvir:

Como está a sua relação com o tempo?

Torus

We are TORUS, a global movement based in São Paulo and Amsterdam that promotes changes in how people and companies connect with time. We want to transform the way the world connects with time: helping social initiatives, brands and people to use it as a resource in their favor.

Gustavo Nogueira (Gust)

Written by

founder, creative director and temporality hacker at @toruscx

Torus

Torus

We are TORUS, a global movement based in São Paulo and Amsterdam that promotes changes in how people and companies connect with time. We want to transform the way the world connects with time: helping social initiatives, brands and people to use it as a resource in their favor.

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