Derivé, do artista visual francês Hugo Livet

Teoria U : a metodologia que busca fazer emergir o novo

Victor Hugo Barreto
Jun 3 · 9 min read

por Victor Hugo Barreto
com contribuições de
Sarah Brito e Rodrigo Turra;
edição e prefácio de
Gustavo Nogueira (Gust)

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Sandglass é parte de nosso programa contínuo de estudos do tempo. A infraestrutura social afetiva na qual a TORUS, semanalmente, convida um especialista a compartilhar conhecimento sobre sua visão do tempo ao redor por aproximadamente uma hora. Enquanto correm os grãos de areia da nossa ampulheta, reforçamos nossa conexão em rede, estreitamos relações e experimentamos, em um espaço seguro de construção e troca.

A convidada dessa semana foi a Georgia Cunha, consultora, facilitadora e gestora de projetos a partir dos ensinamentos da Teoria U. Georgia possui formações com base na antroposofia, consultoria de processos de Schein, eneagrama, mindfulness e design thinking, além de ser Mestre em Gestão da Sustentabilidade e Responsabilidade Social Corporativa pela Bocconi de Milão e MBA em Gestão de Projetos pela FGV-SP

Assim como eu, Georgia navega pelo mundo, mas mantém sua conexão com as raizes da região Amazônica, também de Belém do Pará. Sinto que somos uma rede muito potente que emergiu da floresta e me sinto parte da família dela por lá — assim como ela hoje também conquistou seu lugar como especialista convidada na rede da TORUS. Seus conhecimentos e práticas têm nos inspirado muito a evoluir como movimento. Curioso para o quê, juntos, ainda vamos fazer emergir.

Gustavo Nogueira (Gust)⏳❤️

Sandglass ⧖ Torus : U Theory — Georgia Cunha

Nesse encontro aprendemos as potencialidades que a Teoria U pode trazer para pessoas e organizações interessadas em uma jornada de mudança, assim como a importância de figuras profissionais “interventoras”, como consultores e facilitadores que ajudam nesses processos.

Otto Sharmer

A Teoria U é um marco teórico elaborado pelo pesquisador do MIT Otto Sharmer que uniu diversos conhecimentos das mais diferentes áreas em uma metodologia que propõe processos de mudança e transformação em qualquer sistema, seja ele: organizações, instituições, comunidades, família ou individual.

Seu ponto de partida é de que vivemos em um sistema que nos limita enquanto indivíduos e coletivo e que gera resultados negativos para todos nós.

Fonte: Georgia Cunha

Isso acontece porque só temos a percepção da ponta de um iceberg.

E que para realmente compreendermos a situação precisamos descer até a profundidade e complexidade abaixo dessa ponta que não estamos conseguindo acessar.

E que, no fundo, significam as estruturas, os paradigmas de pensamento e a fonte mais profunda da intenção e do EU.

A Teoria U é uma forma de lidar com todas essas questões complexas a partir de um novo modelo de aprendizagem e inovação. Entendendo que não dá mais para se basear na repetição do passado como fazíamos, mas que precisa ser pensado um modelo baseado em futuros que ainda querem emergir.

A Teoria U é a metodologia que busca fazer emergir esse novo.

Fonte: Georgia Cunha

E qual o processo? A ideia da Teoria U vem da letra U mesmo, se você parar para pensar no desenho que a letra faz (como na ilustração acima). Vem da ideia de que se você vai pensar em uma solução ou precisa resolver algum problema ou criar uma inovação, a tendência é ir de um ponto do presente para um ponto no futuro com modelos mentais, com paradigmas, com o histórico das pessoas envolvidas nessa situação.

A proposta da Teoria U é uma “jornada em U” de mudança em sete etapas. Trata-se de ir para o outro lado que seria o futuro, em que se desce aprofundando esse assunto (daí a conexão com a imagem do iceberg), abrir a percepção para novas informações de uma forma mais sutil, até chegar naquilo que chamam de “base do U” (etapa 4) na qual, de fato, abre-se a vontade para algo novo, deixando ir coisas que estão nos atrapalhando, tanto de entendimento quanto de coisas práticas no processo de criação. Só então, na subida do outro lado do U criar algo novo, que, até então, nenhum dos participantes ou ninguém do time envolvido tinha antes na mente.

Mente aberta, coração aberto, vontade aberta. Fonte: Xaviera Lopes

“Então a base do U é muito ligada com entendimento de mindfulness, de atenção plena, porque é o momento que depois dessa descida do U e de você buscar novas perspectivas do assunto, ele permite que você pare nessa base do U e tenha um momento de reflexão de “O que a gente realmente quer fazer aqui? Qual é realmente o nosso trabalho aqui? O que parece emergir como futuro?”

Um desafio relativo ao trabalho nas organizações é que elas costumam se prender a formas tradicionais do passado, ao que já foi ou está sendo feito e não levam em consideração o espírito do tempo no qual vivemos. Em um mundo de transformação constante já não é mais possível agir baseado somente na repetição daquilo que já se viu no passado ou que deu certo antes (mas não mais agora). A ideia é que você permita o novo, que você se conecte com um futuro que é completamente novo para aquele assunto, tema ou desafio.

“A ‘subida do U’, por exemplo, está conectada ao design thinking pela prototipação. A ideia é que nessa ‘jornada u’, na subida, na chegada do outro lado, você chegue com alguma coisa nova, diferente. Mesmo que para solucionar determinado desafio se precise pegar vários ‘caminhos u’ ou recomeçar novas jornadas que te permitam ir mais profundamente, ou mais conectado com o que você quer ou precise fazer naquele caso. É sobre aonde você está nesse momento e aonde você quer chegar”.

Perspectiva global de uso da Teoria U

O que foi uma metodologia para desenvolvimento de organizações, hoje é entendido como ferramenta básica de transformação de sistema: pessoal, organizacional e mesmo planetária.

O propósito da Teoria U envolve uma proposta de mudança global, de uma outra consciência coletiva planetária. Para isso, o próprio Otto Sharmer se propõe a oferecer cursos disponíveis gratuitamente e online.

As 3 quebras de Otto Scharmer, compartilhadas por Lourenço Bustani no curso Fractal, sobre os novos protagonistas da comunicação

Lu Couto, empreendedora e filósofa, complementou a fala da Georgia:

“A Teoria U pode parecer tanto complexa quanto muito subjetiva, e filosófica ao mesmo tempo. Atentar para a importância de trazer essa dimensão para dentro do trabalho é um grande exercício. E quanto mais a gente está se desenhando fora dos modelos tradicionais, mais faz sentido a gente não saber como faz para se encaixar. Otto Sharmer fala de três desconexões muito atuais: da gente com a gente mesmo, da gente com as outras pessoas e da nossa desconexão com o mundo. Ele vai trabalhar essa sensibilização dos times a partir dessas três desconexões e como vamos nos reconectando e nos ressensibilizando para chegar em algum lugar. O esforço de descida e aprofundamento tem muito do que a TORUS propõe nesses estudos: tentar ler as questões sutis que estão por trás de cada tema. O mergulho é muito bonito, enriquecedor e cheio de ferramentas.”

A cuidadoria tem um estudo aberto sobre o livro Reinventando organizações.

Essa nova forma de pensar o trabalho envolve um esforço coletivo de reinventar as próprias organizações, como diz o título do livro do pesquisador Frederic Laloux. Ser agente no surgimento de um novo paradigma de gestão, uma forma radicalmente mais integral com a sensibilidade e o mundo ao redor, com propósito e, portanto, muito mais potente para (re)estruturar e administrar empresas e organizações.

Ferramentas e conhecimentos que propõe um trabalho sobre uma perspectiva de integralidade. Um caminho para passar de um egossistema (focado no EU) para um ecossistema (focado no todo), para justamente se entender no todo: um ser humano como parte de um sistema mais geral, ele também um elemento da natureza.

Uma das dicas de Georgia foi o Integral Life, que oferece cursos com essa visão mais integral de mente, coração e habilidades de trabalho.

Sarah Brito e Morena Mariah nos lembram o quanto dessa ideia de perspectiva mais integral e de ecossistema também está presente em sistemas culturais que não costumam ser reconhecidos:

Sarah: “E como nesse processo é importante termos contato com outras formas, outros pontos de vista, outros lugares de fala, porque você consegue ver em outras práticas, outras dinâmicas culturais ou identitárias que já tem uma perspectiva de ecossistema e que muitas vezes essas dinâmicas não tem espaço nesse mundo corporativo ou mainstream. Como podemos usar essas ferramentas para aproximar outros saberes e fazeres? O que as corporações poderiam aprender com comunidades tradicionais, por exemplo, outras dinâmicas de gestão e autogestão?”.

Morena: “Um antropólogo africano chamado Cheik Anta Diop, que fala sobre o berço cultural africano, conta como a mentalidade de abundância é uma mentalidade já tradicional na cultura africana. De fato: como podemos extrair desse berço cultural tradicional essas tecnologias, esses saberes e aprendizados que já estão lá e não estão sendo observados? Há todo um potencial diverso que pode ser aproveitado como ferramenta de mudança nas organizações. O conhecimento dentro das favelas, por exemplo, pode transformar a vida das pessoas”.

Nosso encontro, voltado para essas ferramentas e pensamentos de transformação, também procurou refletir sobre a figura do profissional responsável pelo método e pela provocação da mudança. Ou seja, da importância da figura do consultor, facilitador (ou outro nome que possa ser dado para esse agente externo), que precisa ser entendido, de qualquer forma, como um parceiro. É importante que uma relação de parceria e confiança se estabeleça, que vai ser dada pela ajuda e pelo interesse na mudança.

Victoria Haidamus: “Essa ideia de parceria se baseia muito mais na questão: ‘Qual o problema que você pode ajudar aquela pessoa resolver?’ Muito mais importante do que o que você é, é o que você pode fazer pela pessoa”

Se pudéssemos concluir esse encontro com um ponto, seria o de que qualquer jornada de mudança nas organizações também trata de uma jornada pessoal, na medida em que nos coloca como parte de um todo. Trata-se de uma evolução de consciência tanto dos organismos individuais quanto das marcas e empresas.

Participantes do encontro (da esquerda para a direita, de cima para baixo): Felipe Meres, Gustavo Nogueira, Lu Couto, Leticia Pozza, Georgia Cunha, Victor Hugo Barreto, Morena Mariah, Victoria Haidamus e Sarah Brito.

Veja outros registros do Sandglass aqui

Nós somos a TORUS, movimento com atuação global e bases em São Paulo e Amsterdam, que promove mudanças em culturas organizacionais, somadas a um despertar cultural na sociedade.

Desenvolvemos metodologias experimentais e proprietárias baseadas em traduzir e compartilhar conhecimento relevante sobre as transformações necessárias ao nosso tempo.

Junto a uma rede de parceiros e especialistas ao redor do mundo, investimos em estudos originais e na construção de espaços seguros de aprendizado e troca como infraestruturas sociais necessárias ao mundo de hoje.

Torus

Estudos do Tempo (Time Studies)

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