Imagine tornar dados como esse imersivos e mais profundos (Fonte: Boston Rare Maps)

Operando um projeto de compilação do patrimônio cultural em grandes proporções

Open Data, confluência de interesses, formação de comunidade, interconexão, contextualização e humanização de dados são alguns esforços necessários para se colocar em prática o Time Machine Organisation

Torus Time Lab
Oct 3, 2019 · 11 min read

Open Data

Dados abertos são dados que foram disponibilizadas ao público e que podem ser utilizados, reutilizados, analisados e compartilhados com os outros. O open data faz parte de um movimento que inclui software open-source, hardware livre, trabalho criativo de conteúdo aberto, acesso aberto a publicações científicas e a ciência livre — todos comprometidos com a noção de que os conteúdos devem ser compartilhados livremente.

Pode não parecer, mas a ideia de dados, conteúdos e informações com amplo acesso é revolucionária. O costume majoritário ainda é o de privatização das informações, ou mesmo de venda de dados para favorecimento de poucos. Open data é uma forma de justamente não beneficiar só alguns, mas sim a maior quantidade possível de pessoas. Tem a potência de criar comunidades e alianças entre atores públicos, educadores, cientistas, desenvolvedores, organizações e governos.

E se estivéssemos falando de um projeto que procurasse fazer o mesmo com a História? Que tivesse a iniciativa de digitalizar todo o patrimônio cultural histórico de um continente, construir um gigantesco Big Data do Passado e torná-lo acessível a todos? Essa é a missão que a Time Machine Project tomou para si ao se organizar como uma grande rede com centenas de instituições voltadas em diferentes países e continentes voltados para esse objetivo.

Time Machine Project e seus pilares

Recapitulando o conteúdo do texto anterior: o Time Machine Project possui algumas áreas-chave de ação, o que eles chamam de “pilares de pesquisa e inovação” que, no caso, são 4:

  1. Enfrentar os desafios científicos e tecnológicos da IA, Robótica e TIC para interação social, desenvolver o big data do passado e avançar ainda mais essas tecnologias essenciais (Pilar 1).
  2. Implementar as partes constituintes da infraestrutura da Time Machine e os princípios e processos de gerenciamento para comunidades sustentáveis ​​da Time Machine na Europa e em outras partes do mundo (Pilar 2).
  3. Criar plataformas de inovação em áreas de aplicação promissoras, reunindo desenvolvedores e usuários para a exploração de conquistas científicas e tecnológicas e, portanto, alavancar o impacto cultural, social e econômico do Time Machine (Pilar 3).
  4. Desenvolver condições favoráveis ​​para o alcance de todos os grupos-alvo e orientar e facilitar a aceitação dos resultados da pesquisa produzidos no decorrer da iniciativa (Pilar 4).

Ao longo dos últimos encontros procuramos nos aproximar e apresentar com mais detalhes esses pilares. Tratamos primeiramente do Pilar 1, voltado para Ciência e Tecnologia. No texto anterior nos detivemos sobre o Pilar 4, ou seja, sobre a área de ação dedicada à Inovação e Divulgação. E agora nos debruçamos sobre o Pilar 2, de Operações.

Afinal, como funciona a Time Machine Organisation?

No quarto encontro de uma série em parceria entre TORUS e Time Machine Europe, Gustavo Nogueira (Gust) recebeu para uma conversa Daniel Jeller. (Registre-se aqui para o próximo encontro de warm-up).

Daniel Jeller é um historiador austríaco, especialista em tecnologia da informação e Chefe de Digitalização e TI do ICARUS, Centro Internacional de Pesquisa de Arquivo em Viena. Atualmente, seu trabalho, além de gerenciar a digitalização e o equipamento técnico da ICARUS, concentra-se nas tecnologias de digitalização e nos efeitos da chamada Era Digital, no aumento do uso das tecnologias de computação em todos os aspectos da vida, no estudo da história e das ciências auxiliares da história.

Ele começou a abordar esse tópico enquanto trabalhava como técnico de digitalização no ICARUS, onde trabalhou durante seus estudos na Universidade de Viena. Além disso, ele também trabalha em vários projetos de software da área de Humanidades Digitais.

Infraestrutura

O Time Machine Project possui, basicamente, dois diferentes níveis de infraestrutura:

  1. O primeiro é a coligação de diferentes instituições e organizações unidas por objetivos em comum.
  2. O segundo é, de fato, a base tecnológica em constante desenvolvimento que possibilita esses diferentes atores a alcançar esses objetivos.

“Eu acredito que o principal objetivo da Time Machine é usar o potencial das mais diferentes tecnologias para criar uma infraestrutura que possibilite a construção desse Big Data do Passado. Nossa função é fazer com que isso seja possível.”

Daniel está se referindo aqui à grande rede que compõe a Time Machine. Um dos atores nessa rede é a instituição da qual faz parte, a ICARUS, cujas atividades foram foco de nosso primeiro encontro.

Além da ICARUS, lembramos da Europeana e do European Data Portal. Trata-se de um conjunto de projetos e iniciativas interessadas naquilo que Daniel chama de “Data Providers”, ou seja, tornar os dados das mais diferentes fontes acessíveis e produzir informações e conhecimentos a partir deles. Projetos científicos que produzem insights sobre os dados históricos compilados e oferecem soluções de pesquisa na continuidade de análise e produção desses dados.

“No campo das Digital Humanities nós dizemos que em qualquer pesquisa é necessário saber o que você procura e entender para o que você está olhando. Para isso é preciso ter o mais amplo acesso às mais diferentes fontes de dados e informações. É nisso que trabalhamos na Time Machine.”

Diferentes Conteúdos

Juntar e organizar dados das mais diferentes fontes relacionadas ao nosso patrimônio cultural do passado requer o agenciamento dos mais diversos especialistas. Isso quer dizer que um passo seguinte à compilação dos dados é procurar formas de mergulhar neles a partir dessas outras lentes de conhecimento que buscam ser agregadas à comunidade de especialistas e pesquisadores e na formação de comunidades com acesso a essa memória social complexa e diversa. Os projetos desenvolvidos por essa grande rede buscam uma conexão entre essas instituições e a entrada de um novo elemento: o público, ao tornar esses registros disponíveis para todos que quiserem os acessar e, com isso, novas comunidades.

“Nesse sentido me parece que podemos dizer que a própria comunidade em si mesma faz parte da infraestrutura da Time Machine. O esforço conjunto de análise desses dados e tradução desses diferentes conhecimentos vindos do passado para o nosso futuro está na base do projeto” — Gustavo Nogueira (Gust)

Para Daniel, gerenciar a interface entre essas diferentes comunidades é um trabalho em progresso contínuo, o de encontrar e aperfeiçoar as melhores estratégias e práticas. Cada uma dessas comunidades possui as suas especificidades, formas de comunicação e áreas de interesse.

“Esse lado de saber como lidar nas relações interpessoais para além das relações interorganizacionais faz parte do desafio de se levar adiante um projeto dessas grandes proporções. Afinal, estamos lidando com vidas em si e não só queremos prover informações como também encontrar formas de ajudar e melhorar essas vidas.”

É dessa forma que podemos entender que a Time Machine não é só uma estrutura tecnológica, mas também que tem como uma de suas bases as relações entre instituições e comunidades. Essas relações, inclusive, são a plataforma para a qual se está organizando todo o conjunto de aprendizagens e conhecimento.

Dados Humanizados

Daniel nos explica que a organização da Time Machine se baseia em multiníveis piramidais, por assim dizer. De instituições que proveem a infraestrutura técnica até especialistas que se voluntariam para ajudar a digerir todo o conjunto de dados produzidos.

“É como se tivéssemos dois tipos de data graph. Light e Dark graph, se podemos assim dizer. O dark graph é aquele produzido e curado por inteligência artificial. O light graph é aquele produzido basicamente pelas comunidades e curado por pessoas e especialistas. E precisamos dessas duas fontes para tornar esses dados acessíveis”

“O que Daniel está nos apontando é uma iniciativa que busca não apenas a ação de algoritmos, mas de humanos também. Buscando uma forma de conectar essas perspectivas” — Gustavo Nogueira

Ainda que esteja envolvida com as mais recentes inovações tecnológicas, a Time Machine busca uma interface maior justamente com as pessoas. Daí a importância nas formas como esses dados compilados são interpretados. Para Daniel, as pessoas estão no centro dessa comunicação.

Atentar para esse fato é se dar conta de como as relações entre humanos e máquinas estão se readequando para os tempos que virão.

“Estamos falando de ciência e tecnologia e é importante perceber que o futuro não é apenas sobre máquinas, mas de humanos no centro do treinamento das máquinas.” — Gustavo Nogueira

Perspectivas Locais

Daniel nos explica que ainda que a Time Machine funcione como essa grande rede de dados que procura criar um fluxo de trabalho: da digitalização para metadados, dos metadados para informações disponíveis para acesso; ela também se dá conta de que os dados tem um pertencimento. Tratam-se de informações relativas a locais, pessoas e contextos específicos em um tempo-espaço. Das origens familiares e das redes de parentesco, até mapas, desenvolvimento urbano e produção artística local.

Daí a importância das Local Time Machine: iniciativas pontuais desenvolvidas independentemente por participantes da grande rede voltadas para locais específicos. Os dados produzidos são agrupados posteriormente na interface maior, obviamente, mas o esforço local é primeiro e se torna um exemplo da potência em ações focais.

Ainda que estejamos falando de uma rede distribuída é importante entender os diferentes nódulos dessa rede. São essas Local Time Machines que juntas formam a Time Machine em si.

“Um dos maiores desafios para os historiadores e a História em si atualmente é que as pessoas pesquisam qualquer coisa no Google e tendem a perder o contexto daquela informação. Dados acabam sendo reduzidos a informações soltas. Um dos objetivos da Time Machine é justamente trazer esses contextos locais para os dados, fazer com que as pessoas acessem o contexto juntamente com o dado.”

A grande rede formada pela Time Machine éstá em contínua expansão. Não só pelos novos parceiros e comunidades, como também pela configuração de novas Local Time Machine que possuem as suas especificidades.

“Isso é outra coisa que acho interessante na Time Machine: não se está tentando construir uma única história sobre o nosso passado, mas sim a de diferentes perspectivas a partir dessas Local Time Machine em diversas cidades. Como a foto mostra, em diferentes cidades estamos cobrindo diferentes momentos da história a partir dos dados disponíveis e como eles se cruzam também. Começamos na Europa e num próximo passo, pode se estender para outros locais do globo” — Gustavo Nogueira

Veja ao final do texto os sites das Local Time Machine.

Interconectando

Como Daniel apontou um dos grandes desafios do presente é o do excesso de dados e informações que nos chegam, principalmente via Internet, e do qual pouco conseguimos ter a noção completa. Isso nos dificulta uma melhor visão sobre as questões do presente, nosso conhecimento sobre o passado e, ao mesmo tempo, a construção do futuro.

Mais informações não quer dizer necessariamente maior conhecimento. Tampouco significa que estamos aprendendo mais pela quantidade de informações que nos chegam. Nossa dificuldade aqui é na interconexão. De como conseguimos conectar esses dados com o acesso a outros e conseguir contextualizá-los.

O papel que a Time Machine se propõe também é o de oferecer ferramentas para que esses dados se tornem conhecidos. Não apenas digitalizados e preservados, mas que também passe por padrões de tratamento, acesso e tradução em conhecimentos.

Nesse encontro entendemos melhor dos esforços necessários para se colocar em prática um projeto de compilação do patrimônio cultural em grandes proporções. Confluência de interesses, compartilhamento de informações e tecnologia, formação de comunidades, interconexão, foco em perspectivas locais e a importância da humanização dos dados foram alguns dos elementos levantados aqui e essenciais para se levar tal grande rede adiante. É levar em conta que infraestrutura se constrói não só baseada nas últimas inovações tecnológicas, mas também considerando os recursos humanos e tendo-os como objetivo maior.

Conheça mais sobre as Local Time Machines:

Venice:

Amsterdam:

Antwerp:

Budapest:

Vienna:

Utrecht:

Naples:

Ghent/Bruges:

Broumov:

Como parte de uma parceria entre a TORUS e a Time Machine Organisation, e buscando ampliar o acesso às aprendizagens da Time Machine Conference 2019, ao longo do mês de Setembro e primeira semana de Outubro, toda quinta-feira, fizemos um encontro online ao vivo com os palestrantes que fazem parte da programação da conferência. Os encontros são em inglês e você pode ter acesso a eles se registrando aqui:

Registre-se aqui, de graça, para última sessão online de warm-up da Conferência. A próxima sessão é no dia 03 de Outubro.

por Victor Hugo Barreto
com contribuições por
Rodrigo Turra
edição por
Gustavo Nogueira (Gust)

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Led by @gustnogm, Torus questions how people understand the time and connect with it, individually and collectively.

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