Artista da Vez #06 — Leandro Assis

Nossa série de entrevistas com artistas continua, e essa é ainda mais especial pra gente. O entrevistado desse mês é um grande amigo e uma das pessoas mais talentosas que já tivemos o prazer de conhecer. Nosso artista do mês faz alguns dos letterings mais irados que você já viu — se bobear você já esbarrou com muitos por aí em seus trabalhos comerciais — e é co-fundador do estúdio mais chocrível do Brasil, a Relâmpago.

Senhora e senhores, com vocês o ursinho carinhoso da Touts: Leandro Assis.


Como seus amigos te apresentam pras outras pessoas?

Tenho muita sorte de ser cercado de pessoas inspiradoras que me motivam com surra de likes em tudo que eu faço. Eles não deixam de me apresentar em qualquer ocasião sem falar do meu trabalho e do que eu amo fazer e isso me deixa MUITO feliz e realizado! É lindo, porque algo que teoricamente é “só” o meu trabalho acaba transmitindo muito mais sobre quem eu sou do que qualquer outra coisa.

E como você se apresenta?

Sou designer, dono de empresa, fissurado em Cinema e TV e muito orgulhoso das minhas curvas bézier.

Quando surgiu esse seu interesse por arte e pelo design gráfico?

Sempre fui louco por revistas, de todos os tipos. Eu tinha uns 15 anos e ficava horas analisando o projeto gráfico das revistas e só hoje eu me dou conta que foi isso que me motivou a fazer o que eu faço. O que mais me chamava atenção era a forma como tudo era construído: a disposição entre foto, título e texto. E isso fez com que eu começasse a minha própria revista, tendo como referência todas as que eu colecionava.

O processo era bem legal, eu selecionava as melhores matérias e fazia capa e diagramação de todo o conteúdo. Durou umas 3 edições, migrando do Paint pro Photoshop (gentilmente ensinado pela minha prima e referência master, Aline Assis ❤, que estava fazendo design na época). Era só algo divertido de ficar fazendo para passar o tempo. Hoje é o que eu faço pra vida, a única diferença é que agora tem dinheiro envolvido. O tesão pelo design continua o mesmo.

Desde pequeno você já sabia o que queria fazer da vida?

Por influência dos meus familiares, meu sonho sempre foi ter a minha própria empresa. Uma época que marcou muito minha infância foi quando vendia sacolé com a minha prima no condomínio pra gente conseguir uma grana pra não depender do dinheiro dos nossos pais. Era tudo levado na brincadeira e descontração, mas hoje eu vejo que isso já tinha um traço de independência que é muito presente na minha personalidade. Precisávamos de grana pra ir num show da Sandy & Junior, mas infelizmente não conseguimos juntar dinheiro suficiente para pagar os ingressos com o nosso dinheiro. A tentativa foi válida e o show foi ótimo.

E como acabou se especializando em letterings e tipografia?

Meu interesse por tipografia vem desde o comecinho. Aquele clichê de gente que gosta de tipografia, tinha letra bonita e fazia umas capas de fichário prazamiga. O que me chama atenção no design é tipografia, sempre foi. Eu fazia download de tudo quanto é fonte na esperança de usar algum dia. Viciei. Quando me dei conta estava com uma coleção abundante de 40 mil fontes. Depois de um tempo, parei de me importar com a fonte (ok, mentira) e comecei a me interessar pelas pessoas que faziam as fontes. Isso me ajudou a conhecer mais sobre esse mundo tipográfico e definir melhor as minhas escolhas no trabalho.

Com lettering foi mais pra frente, quando entrei na Hardcuore, em 2011. Eu nunca tinha feito nada relacionado, até então só brincava com fonte em composições tipográficas. Tínhamos um job pra fazer e selecionando referências vimos um trabalho do Sergey Shapiro que tinha o mood que precisávamos! O meu chefe-ídolo, Rato, me perguntou se eu conseguia fazer algo naquele estilo pra gente testar. Não parei mais.

Quais foram suas principais influências no começo?

Underware, Sudtipos e House Industries, com certeza. Com a Underware eu tenho uma história bem fofa: a primeira coisa que eu comprei com o meu salário foi a Sauna, a fonte mais foda da vida. No entanto, eu nunca consegui usá-la em nada, porque ela é boa demais pra qualquer job. Um dia, quem sabe.

E quais são as de hoje?

Tem duas pessoas que eu pediria uma selfie na vida. O Erik Marinovich seria o primeiro, pela grande influência do Friends Of Type, me mostrando diariamente posts de letterings que não vemos muito por aí, apostando sempre em experimentação e prática diária, adquirindo segurança pra fazer o que gosta e não seguir tendências só por seguir.

Por todo o seu posicionamento no cenário de type atual, o James T. Edmondson é a pessoa mais inspiradora pra mim no momento. O cara vai lá e faz as fontes mais iradas que você verá na vida. Se isso já não bastasse, a Oh No, sua type foundry, tem um posicionamento super ousado, com textos cheios de personalidade & uma infinidade de curvas super chill.

Quais dicas você daria pra si mesmo no passado, quando estava começando?

Pare com esses medinhos de aceitar que você é bom no que faz! Isso é tudo trauma de colégio. Isso só te atrasa e não deixa você evoluir como profissional. Acredite, a confiança é a alma de um bom portfolio. Gaste seu tempo experimentando todas as áreas do design, isso vai ajudar você na hora de escolher o caminho a seguir. Se tiver alguma coisa que não te deixa feliz, se pergunte se vale mesmo a pena dedicar seu tempo a isso. Se a resposta for negativa, parte pra outra.

Pergunte mais do que responda, ouça mais do que fale e ajude quem tiver precisando. É o legado que seu eu-futuro tem muito orgulho de ter criado e você não pode deixar de ouvir alguém que sabe mais do que você. :P

Conta pra gente sobre a Relâmpago, seu estúdio. Quais são os maiores desafios do dia a dia por aí?

A Relâmpago sou eu e o meu sócio, Romulo Pinheiro e conta com duas vertentes: o estúdio, que fornece os serviços de tipografia e ilustração em projetos gráficos para clientes fodas, que a gente acredita. E a outra é a marca, que surgiu a partir de uma necessidade que a gente tem de desenvolver produtos com a nossa direção de arte. Descobrimos que somos melhores juntos do que separados e vimos nas nossas habilidades uma colaboração incrível que nos deixa mega orgulhosos do resultado.

O nosso maior desafio é descobrir um jeito de fazer tudo que a gente quer fazer, conciliando todos os prazos e tentando não matar um ao outro nesse processo. Um desafio bem gostoso, na real. Torço para que continue sempre assim, buscando por novas perspectivas e jeitos de enxergar e administrar o negócio.

Nos dois anos que estamos juntos, o maior aprendizado foi de não se definir como um estúdio de design e nem ser especialista em alguma área. Seja branding, filme ou impresso em geral. Não é uma regra, mas é como funciona dentro do que a gente acredita que é design. Criamos a marca para fazer o que gostamos e é o que fazemos todo dia, usamos tipografia e ilustração como base, sempre contribuindo com pessoas que a gente admira e que são melhores que a gente em alguma coisa. Assim, o papel de todo mundo fica claro, evoluímos e nos mantemos atuais.

O que mais te motiva hoje na Relâmpago?

Temos um projeto lá no estúdio chamado FFFRIDAY. É o dia sagrado da semana que não respondemos email e nem atendemos clientes. Sexta é o dia de focar nos nossos projetos pessoais. Essa ação acabou fazendo com que mais pessoas conhecessem o nosso estúdio e nos procurando pelo que a gente gosta de fazer. Essa é a razão pela qual eu acordo todo dia e vou para o estúdio. Pode parecer clichê, mas realmente acredito que fazendo o tipo de trabalho que você gosta acaba atraindo o tipo de cliente que você quer.

Pode falar sobre algum trabalho que deu muita dor de cabeça e como fizeram pra resolver?

Nossa, já deu muita merda. Nos primeiros meses, a gente aceitava tudo que vinha pela frente e não tínhamos muito definido o que queríamos ser. Os trabalhos que dão mais dor de cabeça são aqueles que você pega por algum outro motivo que não seja pra colocar no portfolio e aprender alguma coisa com ele.

Foi bom ter esses exemplos pois aprendemos que dizer não é importante. E a hora de dizer não, o que é mais importante ainda. Mas eu sou daqueles que encorajam o sim. Você não sabe com quem você pode querer trabalhar, até que você trabalhe de fato. Todo trabalho que a gente faz lá na Relâmpago precisa ensinar alguma coisa pra gente. Seja sobre processo gráfico, a criação de uma família tipográfica de um estilo pouco explorado ou um tipo de animação que não fizemos ainda. É importante se empenhar e tentar coisas novas para se manter relevante.

Hoje como ocupa maior parte do seu tempo e o que faz pra estimular seu processo criativo?

Divido a maior parte do meu tempo entre o estúdio, os planos futuros da Relâmpago e os meus projetos pessoais. Tudo que faço fora do trabalho, vira um trabalho. Seja uma frase de uma série que vira poster, assistir um filme que vire uma série de letterings pro instagram ou até mesmo uma conversa de bar com amigos que possa me inspirar em um projeto futuro. Notei recentemente que quanto mais personalidade você coloca no seu trabalho, mais pessoas respondem a isso. Ainda existe muita gente que não sabe meu nome, empresas que ainda não fechei contratos e coisas que ainda não fiz!

De onde surgiu o Letterad e qual sua relação hoje com o projeto?

Tudo começou quando resolvi me mexer e praticar letterings todo dia. Fazia os letterings e mostrava pra amigos e ficava nisso. Todos os letterings eram em inglês e com palavras manjadas. Fazer letterings em português pra mim sempre foi um desafio. Conversando com alguns amigos sobre essa dificuldade, me veio a ideia de fazer uma série de posts semanais no meu instagram (@lebassis, segue lá!) com um tema em comum. Desde o começo tentei lutar contra essa dificuldade, brincando com os temas na língua portuguesa e com elementos dos meus gostos pessoais. Sejam girias gays ou até indiretinhas que eu vejo rolando no twitter.

O que vejo muito é que quem pratica lettering aqui no Brasil sempre acaba indo pra um caminho em inglês por ser mais fácil de harmonizar dentro da construção dos desenhos das letras, e isso sempre me incomodou um pouco porque acaba não trazendo nada de novo. Todo mundo faz. O que era minha dificuldade acabou virando meu diferencial.

Quais são os próximos passos e o que vem pela frente?

Meu objetivo com o projeto é colocar todos os experimentos em um livro. Tenho uma meta, de chegar a 30 temas e mandar imprimir pra vender. Gosto muito da mídia impressa e gostaria muito de eternizar o que venho fazendo através do livro. Vai rolar!

Além do livro, meu sonho é montar um workshop com a mesma premissa pra fazer com que mais pessoas comecem a praticar lettering em português e pra provar que nossa lingua é muito bonita e deve ser espalhada por aí sempre que possível.

Pra fechar, um bate-bola jogo rápido:

Uma pessoa incrível — Minha irmã, Cris.

Uma comida — Frango. Frango. Frango.

Uma viagem — Pode ser uma futura? Nova Iorque!

Um dia da semana — Segunda, pela polêmica.

Um desenho animado — Três Espiãs Demais, sem dúvidas.

Felicidade é — Fazer algo pela primeira vez.

Quem é mais forte, Godzilla ou King Kong? Godzilla, né? Ele lança fogo pela boca.

Leandro por Leandro em uma frase — Brilha mais que tá pouco!

Essa foi a entrevista com o incrível Leandro Assis. Você pode conferir mais do trabalho dele na página dele na Touts.

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Abraço de urso,

Lucas

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