Artista da Vez #11 — Daniel Gnattali

Hoje trazemos pro nosso super time de artistas entrevistados um dos talentos raros que tivemos a honra de conhecer ao longo de nossa jornada na Touts. O ilustrador carioca é responsável por uma de nossas maioresbest-sellers, e com certeza você já viu algum de seus trabalhos por aí, seja no rótulo da cerveja ou na embalagem de chocolate. Conheça um pouco mais dessa história e algumas etapas da carreira do artista.

Senhoras e senhores, com vocês: Daniel Gnattali

Daniel em seu habitat natural, no Rio de Janeiro.

Como sua assessoria de imprensa te apresenta?

Como ilustrador e artista visual, embora eu acredite que esta é uma formatação da minha identidade artística para um objetivo específico, no caso, as mídias de divulgação da imprensa. Digo isto pois a maior parte do meu trabalho passa pelo visual, mas esse “visual” é apenas uma porta de entrada para outros campos mais subjetivos de reflexão que a arte oferece. No entanto, se uma assessoria me apresenta simplesmente como “artista” fica muito amplo, pois as pessoas querem saber EXATAMENTE o que você faz (rs). Ninguém quer dar espaço de divulgação para algo que não esteja bem formatado. Como artista, estou em constante transição e a assessoria é uma experiência nova pra mim. Focamos em apresentar mais do meu trabalho “comercial”, que já é mais conhecido, como abre-alas. Depois, se for o caso, podemos direcionar para outras pesquisas e projetos pessoais.

E como você se apresenta pros amigos dos amigos?

Eu me apresento como Daniel, mas cada um tem a sua verdade. Para alguns sou “o cara do foda-se foda-se foda-se”, para outros “o cara que faz os rótulos da Hocus Pocus” ou “o cara que imita as árvores”, etc. São muitas personas (rs).

“Domingo 23”, disponível aqui na Touts.

Como a arte começou na sua vida e como foi ganhando cada vez mais proporção até hoje?

Começou me cativando, como faz com qualquer criança. Sempre gostei de desenhar e tive tempo e espaço pra isso. Nunca fiz curso porque tinha preguiça, mas sempre estive inspirado, observando, me apaixonando, copiando, querendo fazer. Em ordem cronológica, teve a fase Looney Tunes, Cavaleiros do Zodíaco, Homem-Aranha, Dragon Ball, Calvin e Haroldo, Liniers… Acabei indo pra faculdade de desenho industrial e daí foi um pulo pra cair na ilustração. Na ilustração, continuei, por 8 anos, rumando para um trabalho cada vez mais autoral até chegar aos limites da profissão. Percebi essas limitações em contato com a arte contemporânea, que é um campo totalmente aberto, em cujo único determinante de qual caminho seguir é algo extremamente pessoal de cada um. Nesse sentido, o trabalho é muito mais interno do que externo e é aí que a arte ganha uma proporção maior do que um simples exercício de profissão. Há uma busca por aprimoramento que tem a arte como suporte de materialização e registro desse processo. Mas de forma alguma isso impede que eu trabalhe como ilustrador, até porque eu gosto de ilustrar, gosto do ofício e acho maravilhoso que haja esta brecha no sistema por onde os seres sensíveis possam praticar um pouco do que tem a oferecer ao mundo.

Em que momento decidiu se dedicar e viver de arte? Como foi esse processo?

Não houve essa decisão. Como falei acima, foi um processo natural. Me formei na faculdade em 2008 e quando as pessoas perguntavam com o que eu trabalhava eu respondia “com design”. Em 2009, fiz um curso com o Renato Alarcão e comecei a ensaiar algum interesse em trabalhar com ilustração. Daí, quando me perguntavam com o que eu trabalhava passei a responder “design e ilustração”. Talvez esse tenha sido o primeiro e minúsculo passo para um direcionamento de consciência em direção a esse “viver de arte”.

Viver de arte nunca foi uma questão para mim. Fiz estágio em escritórios de design, mas tanto como designer quanto como ilustrador sempre fui freelancer e não passei por uma mudança brusca de modo de vida.

Pode contar um pouco mais sobre seu trabalho com a Hocus Pocus? Como foram os projetos e o que foi mais marcante?

Tudo começou de forma bem simples, em 2014. Eu já trabalhava com ilustração há 5 anos e estava iniciando uma nova fase de amadurecimento. Vinha de histórias em quadrinhos e tirinhas com um traço bem solto, sem rascunho, para algo mais pausado, pensado e elaborado. O primeiro trabalho com esse traço mais reconhecível e autoral foi o do audio-documentário sobre o Jorge Ben Jor, do Instituto Moreira Salles. Isso foi em 2012. Logo depois veio o “mantra” (foda-se — foda-se — foda-se) e uma série de cartuns, além de outros trabalhos que exploraram as possibilidades desse novo estilo gráfico.

Quadro que inspirou o rótulo “Overdrive”.

O Vinicius e o Pedro, da Hocus Pocus, precisavam de um ilustrador para dar vida à primeira bolacha de chopp ilustrada. Eles tinham uma identidade visual embrionária top — criada pelo Alex Sheeny, da Pyramid –, já com marca e uma paleta básica de cores. Marcamos de conversar e trocamos ideias. Eles já vinham com um direcionamento visual (e sensorial) inspirado na psicodelia dos anos 70, o que encaixou perfeitamente no tipo de traço que eu vinha desenvolvendo há cerca de 1 ano e meio. A referência era a banda Focus e temas que remetessem ao clima experimental e de contracultura das décadas de 60 e 70 como vitrais, temas religiosos, esoterismo, misticismo, etc. Desse encontro nasceu a primeira bolacha de chopp, que depois foi expandida e tornou-se o rótulo da primeira cerveja, a Magic Trap. Foi um encontro muito feliz para todos, bem orgânico e intuitivo — como deveria ser mesmo em se tratando de produções artesanais. Os próximos dois rótulos seguiram essa estética visual e depois partimos para outras experimentações, como o rótulo da Overdrive, cuja ideia de ser uma pintura adveio de um quadro que pintei num momento de transtorno e necessidade de extravasar algo.

Nesses 3 anos de parceria desenvolvi 8 rótulos para a Hocus Pocus, além de outras artes para eventos e mídias. Assim como a cerveja alcançou muitos paladares devido ao rótulo atraente e sedutor que concebemos para a Magic Trap, meu trabalho alcançou muitos olhos por conta do excelente produto e gestão da cervejaria. O mais marcante é que não houve estudo de marketing na época, mas sim um aproveitamento de 100% daquilo que gostaríamos de mostrar.

Rótulo “Magic Trap”, um dos mais famosos da cervejaria.

E o trabalho com a Quetzal?

A Quetzal conheceu meu trabalho na Junta Local justamente por causa da Hocus Pocus. Na época o Emerson Gama (mestre chocolateiro) fazia tudo com a sua família, desde a criação das receitas, produção do chocolate, concepção dos rótulos e confecção das embalagens (absurdo, né?). Ele adorou o rótulo da Magic Trap (que veio seguido pela Hush e depois pela Coffee Hush) e me chamou pra redesenhar os rótulos dos seus chocolates. Por gostar muito do produto fiz um orçamento razoável, mas como ele ainda era uma empresa de um homem só acabou ficando pesado e adiamos a parceria (rs). Pouco depois ele fechou sociedade com o Roberto e a empresa ganhou uma magnitude maior, já com projeto de fábrica e, aí sim, novas embalagens.

Embalagens antigas da Quetzal, feitas pelo Emerson.

Os rótulos do Emerson já faziam o maior sucesso, as pessoas guardavam as embalagens para colecionar, então foi um certo desafio estar encarregado de redesenhá-los. Nesse ponto, vale observar que a formação como designer gráfico dá um embasamento essencial na criação dos meus rótulos, pois já penso a ilustração integrada à diagramação na composição final, configurando uma unidade interessante na imagem. Fiz uma rápida análise sensorial do que me atraía no rótulo e percebi que eram as cores. Procurei manter uma paleta aproximada nas minhas versões e o projeto gráfico funcionou muito bem, agradando a clientes antigos e novos.

Embalagens atuais, assinadas pelo Daniel.

Pra mim é uma honra trabalhar com a Quetzal, pois é um produto de excelência, vegano e orgânico, com muitos compromissos para com a qualidade, boa fé e transparência em todas as etapas da produção. Além disso, o Emerson é aficcionado por culturas diversas e histórias, o que logicamente transparece nas artes e também funciona muito bem com este traço de geometrias, padrões e sinuosidades.

Tem algum outro projeto bacana em especial que gostaria de compartilhar?

Tem, sim. Gostaria de convidá-los para conhecer alguns dos meus projetos paralelos. “As árvores somos nós” nasceu em 2011, na Argentina, e já passou por 12 países, contando com mais de 100 fotos. Sempre foi um retrato do meu olhar sobre as árvores, mas hoje ele começa a ganhar um discurso um pouco mais elaborado devido às diversas sinapses e sincronias que comecei a investigar na arte contemporânea.

Daniel e a árvore, a árvore e Daniel

Toco violão e canto no trio Simpáticos, cujo cerne motivacional é explorar a obra Jorge Ben Jor, dando um caráter de resgate tanto às canções quanto às suas execuções originais. Nossas mídias são simpaticos23 no instagram e no facebook.

Assino a coluna Passarinho, no RIOetc, há 2 anos. Grande parte da minha produção de cartuns foi direcionada pra lá nesse tempo.

Sua arte “Mantra” foi uma das best-sellers nas nossas lojas físicas. Conta pra gente como ela surgiu! Você imaginava que iria bombar tanto?

Pois é, agradeço ao empenho de todos (rs). Ela surgiu em 2012, num momento de relacionamento conturbado. Eu vinha explorando esse jeito novo de desenhar, traçando a lápis com calma, escolhendo bem os detalhes, passando o nanquim com pequenas variações na espessura dos traços e pintando no photoshop — essa viria a ser a nova linguagem dos meus trabalhos. Num dia de desapego, literalmente pensei “foda-se” para aquelas questões que estavam me deixando ansioso e a ideia veio bem pronta na cabeça. Até fiquei pensando se alguém já teria feito, pois realmente é algo que muita gente pensa (rs). Postei no meu perfil do facebook numa sexta-feira e saí de viagem, pro sítio de um amigo. Em uma parada na estrada um outro amigo me mandou uma mensagem falando que tinha chegado a 600 compartilhamentos. Quando voltei já estava viralizado com mais de 15.000 compartilhamentos no facebook. A partir daí achei uma boa ideia registrar a imagem e até demorei uns meses pra fazer isso, mas não imaginava que mesmo 5 anos depois ela ainda estaria tão atrativa. Faz sentido, já que trata de temas universais como a busca por uma melhor qualidade de vida através de um exercício meditativo de desapego e o humor.

A best-seller “Mantra”, disponível aqui na Touts.

Qual papel que plataformas como a Touts tiveram na sua carreira como artista?

A Touts veio para dar uso a uma parte do meu trabalho que até então ficava só na internet. Muitas pessoas me diziam que eu tinha que fazer camisas, etc, etc, mas eu já produzi camisas e sei que dá o maior trabalho, então sempre deixei pra lá (rs). Quando conheci a Touts vi uma oportunidade de reexibir vários trabalhos que estavam perdidos em publicações anteriores do facebook e em blogs, além de poder transformá-los em produtos bacanas e até ganhar um pingado no fim do mês. E tudo o que eu precisava fazer era fazer o upload das imagens — achei um ótimo custo benefício (rs).

Time lapse de “A gravata florida”, ao som de Jorge Ben Jor, obviamente.

As plataformas colaborativas são excelentes opções para democratizar as produções. É claro que é maravilhoso ter a oportunidade de licenciar suas imagens para alguma empresa grande de roupas ou outros produtos, mas infelizmente tem pouca empresa pra muito artista. Assim, o papel da Touts é muito mais do que vender coisas fofas e legais; é dar um suporte online para que artistas possam arriscar a investir em si mesmos com risco zero e custo zero. No entanto, assim como em qualquer outro trabalho, tem que haver dedicação, divulgar sua loja, etc.

Comecei na Touts em 2015 e de lá pra cá certamente essa parte do meu trabalho exposta na loja ganhou novo fôlego, principalmente após a inauguração dos quiosques. É uma relação de parceria muito bem vinda, pois denota abertura, democratização e confiança, contrapostos a tempos de crise que revelam um retorno ao confinamento, centralização e controle pela força.

Que dica hoje você daria a você mesmo no passado?

Aceite o tempo natural das coisas. Não tente pular etapas, faça o que tiver que fazer e tenha fé em si, nas suas escolhas e nas oportunidades que elas trarão.

E pra galera que tá começando hoje?

Aceite o tempo natural das coisas. Não tente pular etapas, faça o que tiver que fazer e tenha fé em si, nas suas escolhas e nas oportunidades que elas trarão (rs).

Arte original do rótulo “Magic Trap”

Quais são os próximos passos e o que vem pela frente?

Estou pensando em fazer um mestrado na Europa, pois tem vários países onde as faculdades são gratuitas e dependendo da cidade o custo pode ser até menor do que no Rio de Janeiro, onde moro. Ainda não sei em que área, mas provavelmente em Belas Artes ou Arte Contemporânea. De qualquer forma, os últimos meses tem sido intercalados entre o meu trabalho como ilustrador e um aprofundamento maior em questões pessoais que vão além do dia a dia profissional. É como uma constante sessão de análise onde você se auto observa, questiona, conclui, elabora, reelabora… Essa é uma busca pessoal sobre qual é o meu discurso, independentemente de qualquer trabalho. Se alguém me pedir para desenhar uma árvore eu vou saber. E se eu quiser representar uma árvore para mim mesmo, como seria? Ou melhor, o que, efetivamente, uma árvore representa para mim e como eu traduziria isso em matéria? Seria em desenho? Pintura? Foto? Performance? Escultura? Um galho, apenas? Um poema? Uma palavra? E por que?

“Desidentidades”, trabalho recente que marcou o processo de expansão da ilustração para a arte contemporânea.

É aí que estou no momento (rs). Dá pra ver que os próximos passos serão, ainda, apenas o início de uma longa caminhada e o que vem pela frente é bastante incerto e muito interessante. Mas sigo exercendo minha profissão com muito amor e simpatia e articulando exposições dos meus trabalhos “comerciais”, justamente para levantar este tema de como a arte de ilustrar condensa em si tanto a arte da expressão artística pessoal de cada um quanto a arte da comunicação ao traduzir o mundo em imagens.

Pra fechar, um bate-bola jogo rápido:

Uma pessoa incrível — Jorge Ben Jor

Um defeito — Prazos

Uma nota musical — 

Um sonho — Voar

Um jogo de videogame — Super Smash Bros 64

Um hobby — Ir pro mato

Daniel por Daniel em uma frase — Em busca de humildação.


Já deu pra perceber que somos fãs do Daniel e do seu trabalho, né? Se você também curtiu, não perde tempo e vai lá conferir a página dele na Touts ou o perfil dele no Instagram.

Além de vários produtos incríveis, fizemos um cupom de desconto especial pra quem leu essa entrevista até o fim. É só mandar ver com o código DANIELGNATTALI lá no site pra garantir 15% de desconto na sua compra ;)

Para ler entrevistas com outros artistas incríveis de nossa comunidade, dá uma conferida no nosso blog que tá recheado de histórias incríveis.

Abraço de urso,

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.