Artista da Vez #25 — Rodrigo Ferreira

O Artista da Vez de número 25 é mineiro e entrou de mansinho no site. Enviou sua primeira arte ainda em 2015 pra conhecer e ver o que poderia sair dali. Na época não sabíamos, mas aquele cadastro de Belo Horizonte não era de um artista qualquer. Aquele era um veterano no submundo das camisetas e mais reconhecido fora do Brasil do que em seu próprio país. Mas os tempos estão mudando e logo logo seu talento vai dominar terras tupiniquins. Temos o prazer de incluir mais um nome de peso ao nosso time de estrelas…

Senhoras e senhores, com vocês: Rodrigo Ferreira

Rodrigo Ferreira em seu habitat natural, rodeado por suas ilustrações (part. especial: Gael)

Como você se apresenta nas entrevistas e bios que preenche nos sites gringos?

Geralmente é o básicão “Oi! Meu nome é Rodrigo Ferreira, nascido e criado em Belo Horizonte, formado em Publicidade & Propaganda trabalhando com design gráfico e ilustração. Eu amo fazer as pessoas sorrirem com as minhas ilustrações bobinhas” :)

E como você se apresentaria em um tweet que só os Brasileiros entenderiam?

Você é publicitário por formação, né? Como surgiu sua relação com a arte? Foi por pura vocação ou teve algum momento específico anterior, na faculdade ou algo assim?

Sim! Eu sou formado em Publicidade & Propaganda. A minha relação com a arte começou cedo, eu desenho desde moleque e vivia desenhando os personagens dos meus desenhos animados favoritos. As pessoas sempre me diziam que eu levava jeito pra coisa mas desenhar era mais um hobby pra mim. Eu também lia muito a revista MAD e gostava de replicar a caricaturas que apareciam na revista, acho que daí que veio o gosto pelo humor. Mas eu nunca fiz curso de desenho e não saco nada das técnicas, acho que a relação surgiu por vocação mesmo.

Designer de dia e artista a noite. Como que você faz essa pra balancear essa jornada dupla e manter a sanidade mental? Como um trabalho interfere ou influencia o outro?

Eu gosto de fazer as duas coisas. Claro que eu gosto MUITO MAIS de ilustrar e com certeza é o que mantém minha sanidade mental. O trabalho de designer é mais pra pagar as contas. Eu acho que um trabalho ajuda o outro, eu sempre aplico no design gráfico alguma coisa que eu aprendo ou descubro ilustrando e vice e versa. A interferência é quase sempre positiva, só é ruim quando o trabalho de designer não deixa tempo e energia para desenhar. Por isso que o meu sonho é poder me dedicar 100% à ilustração e viver disso.

Artista VS Designer

Conta pra gente um pouco do seu processo criativo no seu dia a dia? Onde você busca suas principais influências e referências?

As minhas ideias surgem do nada, no banho, momentos antes de dormir, no caminho até o trabalho, vendo um filme… e elas vem, na maioria das vezes, por associação. Eu não sei bem explicar o processo, na minha cabeça é tudo muito rápido, vem um tema, as associações possíveis ao tema e de repente, bum, a ideia. E geralmente a ideia vai se desenvolvendo e vão surgindo outras que são tão boas quanto ou até melhores e aí eu tenho que anotar rápido a primeira ideia porque senão eu a perco xD. E eu tenho uma mania de complicar demais uma ideia, preciso sempre me policiar, pedir opinião da Malu (minha esposa) e focar. As ideias também se desenvolvem no processo do desenho, às vezes eu sento para ilustrar alguma coisa que não está 100% definida mas que eu acho que tem potencial. Foi o que aconteceu com uma das minhas estampas que mais fizeram sucesso, a “S.T.”. No início, era só uma paródia do poster do E.T. com os personagens de Stranger Things. Eu sabia que era clichê e que precisava de algo que a tornasse diferente de todas as outras 628 mil ilustrações que fazem paródia deste poster. Aí, quando a arte estava quase pronta, me veio a ideia de substituir a lua pelo waffle e fez toda a diferença. Eu sempre busco isso, alguma coisa que é óbvia mas que ninguém pensou ou fez ainda.

Estampa “S.T.”. Você encontra aqui, na Touts.

O que você mais gosta de fazer no seu tempo livre?

Eu gosto de ficar com a minha esposa e com o meu cachorro Gael assistindo filmes e séries. Eu gosto MUITO de ficar em casa. Eu já disse que eu gosto de ficar em casa? Eu gosto de ficar em casa. Também curto ir ao cinema, viajar, de ir à shows e de comer. Comer é bom demais.

Que papel plataformas como a Touts tiveram na sua carreira como artista?

As plataformas POD tiveram um impacto gigantesco na minha vida, artisticamente e financeiramente. A frase que eu mais ouvi na vida é “Bicho, você devia abrir uma lojinha e vender suas camisas”. Parece uma boa ideia, mas, na maioria das vezes, é frustrante. Não é todo mundo que tem o perfil empreendedor e fica muito difícil tocar um negócio e continuar produzindo arte. Pra mim, ou é uma coisa ou outra. Com as plataformas POD eu posso me focar em produzir e melhorar meu trabalho e deixar a parte chata com vocês :P

Como foi começar a fazer sucesso nos sites lá de fora e depois ter que se adaptar ou até se reinventar para vender aqui no Brasil?

É, eu não sabia na época, mas eu fiz fazendo o caminho inverso. A minha história com estampas começou com a Threadless. Uma amiga me apresentou o site em 2007 e eu fiquei obcecado com a criatividade dos artistas de lá. Antigamente, lá tinha uma pegada de humor, sátira e paródias que apertava todos os meus botões de tarado com cultura pop. Mas pra mim eles eram de outro nível, não era para o meu bico. Até que uma outra amiga me falou que o namorado dela tinha uma estampa lá: o incrível Ninhol. Ela me disse que eu deveria tentar participar também porque eu não tinha nada a perder (valeu Carol!). E foi o que eu fiz. Minhas primeiras estampas eram sofríveis, eu demorei um pouco para conseguir fazer humor em uma língua que eu não dominava e acertar o tom. Depois de um 1 ano tentando, eu consegui o primeiro print e comecei a ser notado. Lá é uma vitrine enorme, abre portas para muitas oportunidades. Daí começaram a aparecer convites de curadores de outros sites semelhantes e de gente do mundo todo querendo comprar os direitos de explorar os meus desenhos de alguma forma. Rolou de tudo, tive estampa que virou cueca, copo descartável de cafeteria norueguesa, camisa exposta em Museu de Arte em São Francisco e teve até um cara que usou um desenho meu como base para o negócio dele. Ele usou o a minha estampa “Show me yours and I will show your mine” no nome, na logo e na decoração da coffeeshop dele — sem a minha autorização! Paralelamente, eu também tentava emplacar no mercado brasileiro. Eu lembro que aqui no Brasil tinha um site com a mesma proposta da Threadless, mas eu nunca me senti bem-vindo lá. Aí acabou que eu foquei nos sites lá de fora não consegui desenvolver um estilo que agradasse os brasileiros. Quando eu descobri a Touts, eu senti vontade de tentar de novo. Ia ser legal demais andar na minha cidade e, de repente, ver alguém vestindo uma estampa feita por mim. Eu estou tentando fazer isso acontecer agora, eu percebi que algumas coisas que eu fiz em inglês também funcionam em português, como por exemplo a minha série “Medical appointment”. Eu traduzi as piadinhas de médico para português e subi na minha página da Touts. Essas estampas não estão disponíveis em lugar nenhum, só aqui :) O mais legal disso tudo é que, depois de tanto escutar aquela frase lá do início, eu finalmente ”abri minha lojinha” na Touts e posso vender minhas coisas pros brasileiros :)

Série “Medical Appointment”, que você encontra completa aqui, na página do Rodrigo na Touts

Qual acha que é a principal diferença nos públicos, seus gostos ou na maneira como consomem?

Os gringos consomem bem mais e o ano inteiro. Aqui, eu tenho a sensação que é mais sazonal. Os dois consomem mais por impulso, por isso que estampas com temáticas atuais, de comportamento ou de cultura pop vende mais. Quanto aos gostos, são diferentes e ao mesmo tempo parecidos. Eu acredito que o brasileiro curte mais memes, frases divertidas que dão algum recado. Lá fora eles consomem mais desenhos abstratos, caveira, zumbi, astronauta, gatos e muita cultura pop, como Doctor Who e Rick and Morty. Aqui no Brasil você pode fazer uma estampa SÓ COM TEXTO. Lá fora, principalmente nos EUA, eles não curtem muito isso. Na Threadless era bem comum você fazer uma estampa e pedir opinião para a comunidade e o retorno quase sempre era “get rid of the text” [livre-se do texto]. Eles são mais visuais. Eles querem bater o olho no desenho e entender tudo, sem ter que ler. É um desafio imenso. Isso mudou um pouco hoje em dia, mas eu penso que eles não curtem alguém encarando a camisa deles tentando ler o que está escrito.

Quais as principais vantagens que você enxerga em disponibilizar sua arte em sites como o nosso?

São muitas as vantagens. Eu dou destaque para duas:

1. O trabalho é todo de vocês.

2. A vantagem de poder dar a oportunidade de alguém que mora no Brasil e curte o meu trabalho de comprar sem se preocupar com a cotação do dólar, se a alfândega vai taxar a compra, se a encomenda vai “se perder” no caminho e também de não ter que esperar 2 meses para a camiseta chegar aqui, né? O frete da Touts é rapidão!

Coleção pessoal de camisetas do mundo inteiro com artes do Rodrigo.

Quais dicas você daria pra si mesmo no passado, quando estava apenas começando?

Não encarar o desenho como hobby e sim como profissão. Não perca tempo com o Corel Draw. Coloque um bloquinho de papel e uma caneta ao lado da cama para anotar as ideias antes que você esqueça. Não insista com o Corel Draw. Organize os arquivos direitinho e faça a arte final de todos eles. Faça backup. Não use o Corel Draw.

Quais são os próximos passos e o que vem pela frente?

Eu estou trabalhando para crescer minha base nas redes sociais, alcançar mais gente com o meu trabalho e não precisar mais de trabalhar como designer para pagar as contas. É possível viver disso, eu sei que tenho que me dedicar bastante e a parte boa é que eu amo fazer isso :)


Pra fechar, um bate-bola jogo rápido:

Uma pessoa incrível — A minha mãe!
Uma banda — WilcoBuilttoSpillTheStoneRoses
Um filme — Magnólia ❤
Uma qualidade — Lealdade
Uma cidade — Berlin é muito foda.
Um cheiro — O da Malu e da bochecha do meu cachorro.
Um artista da Touts — Pippi!
Rodrigo por Rodrigo em uma frase — Vim, vi e empatei (mas até que joguei bem). (Opa! isso dá uma estampa?)

Essa foi nossa conversa com o incrível Rodrigo Ferreira, um dos mais de 3.000 criadores da comunidade da Touts. Para conhecer mais sobre suas artes e outros produtos com as estampas dele, não deixe de visitar a página do Rodrigo na Touts.

Para ler entrevistas com outros artistas incríveis de nossa comunidade, dá uma conferida no nosso blog que tá recheado de histórias incríveis.

Abraço de urso,