Livros de 2017 — Leituras de janeiro

Woody Allen, Gay Talese e Valter Hugo Mãe

Post de introdução do projeto Três Livros Por Vez

A ideia aqui é registrar mês após mês os livros que li e a experiência que tive com cada um deles, já que todo livro — e a história que este carrega — é único, proporcionando ao leitor uma experiência diferente.

E é dessa experiência que quero falar: o que me fez escolher aquele livro, o que senti com cada página virada e a cada capítulo finalizado, o que achei da leitura e da escrita do autor. Afinal, se tem algo melhor do ler, é conversar sobre o que lemos. Bem mais próximo de uma troca de figurinhas do que de uma resenha sem aquele toque pessoal.

Sem Plumas, Woody Allen

Depois de ter encontrado esse livro pequeno e amarelo em um sebo no final do ano passado, finalmente peguei ler, criando mais expectativas do que deveria. Em Sem Plumas dá para encontrar uma mistura de ensaios, textos teatrais e outras passagens escritas por Woody Allen e que têm tanto a cara do autor que é quase possível ouvir sua voz ao ler cada parágrafo.

Os capítulos têm o humor bem característico do Woody, sua ironia e algumas ideias que acabam tendo um pézinho no absurdo e que têm muito de tom satírico. São textos bem curtos que variam de temas como religião, filosofia, relacionamentos, fenômenos psíquicos.

As peças foram as partes que eu mais gostei e que acabaram salvando a leitura, já que praticamente nenhum dos outros capítulos prendeu a minha atenção de forma prazerosa. Apesar da vontade de abandonar a leitura, insisti para conhecer o lado do cineasta como escritor.

Acho que o que me fez não gostar tanto assim de Sem Plumas foi o formato dos textos, isto é, não são textos só para serem lidos, mas para serem interpretados ou declamados. Por mais que você consiga imaginar cada cena e acontecimentos, não tem tanto impacto em uma leitura silenciosa quanto teria numa interpretação feita por mais pessoas. Apesar de tudo, não tem como não reconhecer a criatividade de Woody Allen em cada pequeno capítulo.

Vida de Escritor, Gay Talese

Vida de Escritor foi o primeiro livro de Gay Talese que eu li. Como estudante de jornalismo, o nome desse grande jornalista já tinha sido citado em muitas aulas por professores que eu admiro e que levo as recomendações em consideração. Um dia estava procurando livros na parte de Comunicação na Livraria Cultura, como sempre que vou lá gosto de fazer, até que esse livro roxo com um título que chamou a minha atenção se destacou dos demais e, quando vi que era algo como uma autobiografia de Talese, não pensei duas vezes para levar comigo. Aquela (nem tão boa assim) mania de comprar mais livros do que consegue ler, fez com que a leitura de Vida de Escritor acabasse ficando para a lista de livros para ler em 2017.

Começa que não é uma autobiografia como qualquer outra. Talese fala sobre o ofício da escrita através da narrativa de importantes momentos de sua vida como jornalista e autor, e todas as aventuras e contratempos de cada um de tais acontecimentos. Dos tempos como estudante na Universidade do Alabama e seus dez anos na redação do New York Times, o jornalista conta ao seu leitor o que já fez em nome da profissão, e isso para mim foi um dos melhores detalhes de Vida de Escritor. Foi algo que me fez ter a certeza de que para trabalhar com jornalismo é preciso ter paixão.

Aquilo me recordava meus dias de jovem jornalista diário, escrevendo sob pressão, fazendo o melhor que podia, mas ao mesmo tempo sabendo que poderia fazer melhor se tivesse mais tempo. (página 354)

São muitas as pessoas das mais variadas personalidades que aparecem durante as narrações de Talese, e suas histórias vão se entrelaçando umas com as outras de uma maneira tão natural que por algumas páginas até parece ser uma ficção e não uma autobiografia. A vida pessoal do autor é contada junto com cada fase de sua vida profissional: da infância tendo pais italianos em Nova York até a relação com seu editor.

Ter lido Vida de Escritor antes dos demais livros de Talese vai me fazer entender o autor por detrás de suas outras histórias. Gostei muito da leitura, apesar de, no começo, pensar que teriam mais casos pequenos além dos citados na capa.

O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe

Não tem como começar a falar desse livro sem ser falando como é uma leitura sensível. Fazia um tempo que estava com vontade de ler algo de Valter Hugo Mãe, mas não sabia por qual começar. Eis que um amigo do meu pai emprestou O Filho de Mil Homens e não encontrei motivos para não ser essa a primeira obra do autor.

Fiquei encantada assim que abri o livro e comecei a ler o comentário de Silvano Santiago, no qual se compara essa história com as ondas do mar: “A onda do capítulo se avoluma e quando começa a baixar, o narrador retoma-a a partir de onde ela se forma novamente ”. Em O Filho de Mil Homens conhecemos a vida de várias personagens — a anã, Isaura e sua mãe, Antonino, Matilde, Rosinha, Gemúndio —, mas é Crisóstomo que faz todas se ligarem, se costurarem. Tudo começa com ele e sua vontade de ter um filho. E assim, a cada capítulo, uma personagem vai dando abertura para as demais até formarem uma grande rede de personalidades, todas simples e autênticas, com seus defeitos e qualidades. Mostra que todos carregam suas dores do passado, mas que com amor e amizade as coisas podem ser melhores.

E amar uma pessoa é o destino do mundo. (página 122)

A escrita de Valter Hugo Mãe tem uma fluidez que deixa o livro ainda melhor, fazendo com que a história vá acontecendo sem nem que percebamos seu andamento. É como se estivéssemos ao lado dele tendo uma conversa do cotidiano. Ele constrói frases cheias de significados que viram poesias, mostrando que a vida tem seus momentos poéticos em coisas simples. E são vários os temas tratados em O Filho de Mil Homens: preconceito, solidão, relacionamentos, família… É uma história que mostra ao seu leitor o amor na forma mais pura, indo contra os padrões da sociedade. Vemos a transformação do preconceito até se tornar afeto.

No começo parece ser uma história tão simples e curta, mas acaba que vai se tornando profunda, sincera e inspiradora.


Gosto de aproveitar as semanas de férias para ler um pouco mais do que o normal. Em janeiro, isso aconteceu. Deu para ler deitada no sofá da varanda sentindo o vento do interior no rosto, e também deu para ler sem ter que se preocupar com outros compromissos e horários. Posso falar que as leituras foram bem aproveitadas, sim.

Leu algum dos livros comentados? Não deixe de comentar o que achou e vamos trocar experiências!

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