Resumo do 1º dia do Congresso da ABRATES

Ilustração por Bruno Debize

Marielle presente. Hoje e sempre!

Assim encerrou Petê Rissatti a primeira palestra da noite e assim iniciou Rane Souza a seguinte. Não haveria como começar essa publicação de outra maneira.

O 9º Congresso Internacional da Abrates no Rio Othon Palace foi aberto pelo presidente William Cassemiro com agredecimentos aos patrocinadores do evento e àqueles que colaboraram para todas as realizações da Associação durante seu mandato, um período com muitos desafios que agora passam para o novo presidente Ricardo Souza. Um desses desafios, a diversidade, foi o tema da noite.

Tenho certeza que muitos já conheciam Petê Rissatti como nome importante para a tradução e seu ensino no Brasil, mas nem tantos como aquele cara negro, gay e candomblecista que emocionou a si e a todos os presentes com esse assunto tão necessário.

Keynotes Petê Rissatti e Rane Souza, foto da ABRATES (Instagram/Facebook)

Rissatti nos contou algumas de experiências, como a de ter encontrado naquele dia um senhor branco engravatado no hotel do evento que disse que é importante que cada pessoa fique no seu lugar. Não, não é possível que se continue a emudecer o outro. Assim, o tradutor lembrou de uma maneira muito bem humorada a importância do lugar de fala. Será que não basta de homens “ensinando” as mulheres sobre o feminismo? Rane Souza também nos fez refletir: quantas obras de autores negros foram traduzidas por tradutores negros? Provavelmente poucas.

Quando a palestrante (sim.) solicitou que levantassem as mãos todos aqueles que se consideravam negros, pude notar apenas dez pessoas aproximadamente em um salão lotado de tradutores e intérpretes. Em seguida, ela propôs no palco o “Jogo do Privilégio”, que adaptado para o evento contou com a participação de dez tradutores, sendo três negros, que deveriam responder a 20 perguntas e andar para frente ou para trás, dependendo de cada uma de suas respostas. Ainda que todos aqueles profissionais tenham se dito privilegiados em diversas questões, os nossos colegas negros ficaram um tanto atrás dos demais.

Imagine quando problemas na saúde, educação, violência e desemprego atuam sobre o indivíduo, com limitações de oportunidades devido a fatores socioeconômicos e acesso limitado à aprendizagem de línguas estrangeiras. Rane Souza deu uma verdadeira aula sobre a construção do racismo institucional por toda a história do país com referências bibliográficas precisas (as quais anotei todas).

E finalmente pudemos imaginar com a tradutora e intérprete uma “ABRATES AFRO”. Diversas ações que poderiam ser tomadas não só pela instituição, mas também por nós profissionais, que poderíamos apoiar a entrada e o estabelecimento de profissionais negros no mercado da tradução e interpretação e quem sabe com isso nos desenbranquecer.

Rissatti nos lembrou dos grupos de tradutores de redes sociais, um espaço onde poderia haver trocas de experiências fundamentais, mas vez ou outra acabam sendo um lugar onde profissionais mais experientes reagem de maneira impaciente e agressiva com os novatos. Precisamos de empatia, a verdadeira. Segundo Rissatti, aquela em que digo estarei aqui se você precisar, e se precisar que eu não esteja, não estarei. Já é hora de não estar roubando o lugar de fala do outro. E também de não criar barreiras e virar as costas para apoiar aqueles que pedem ajuda.