Como é trabalhar com tecnologia como voz política, por Eduardo Cuducos

Mateus Malaquias
Sep 3, 2018 · 12 min read

Esse post é parte de uma série de entrevistas para o Training Center sobre o que um profissional pode dizer a respeito da sua área de atuação visando mostrar para outras pessoas como é trabalhar no que fazem, esclarecendo para algumas pessoas se elas se dariam bem trabalhando na área ou mesmo só para mostrar para outras pessoas como é trabalhar com isso.

O entrevistado desta vez é um geek, sociólogo e Cofundador da Operação Serenata de Amor, Eduardo Cuducos mais conhecido como Cuducos ❤.


Eduardo Cuducos

Eduardo Cuducos…

Eu sou uma pessoa que demorou uns 10 anos para me encontrar como profissional. Programo desde criança, mas não tinha vontade de ser programador.

Na época de colégio já programava uns sites e umas brincadeiras no Flash. Mas decidi me focar mais em produtos e fui estudar design. Vi que aquilo não era para mim.

Foi um momento curioso. No curso de design sempre diziam que design não era publicidade, pois design era focado no usuário (não em espalhar uma mensagem, ou nas vendas, por exemplo).

Só que eu aprendi pouquíssimo sobre como entender o usuário no curso de design. E aí fui estudar coisas de ciências sociais para ver se aprendia a entender sobre pessoas e culturas. Me apaixonei.

Nessa fase eu programava muito, era um péssimo designer e tinha contas para pagar. Então a programação voltou a ser parte importante da minha vida. Foi quando comecei de verdade a ganhar dinheiro com ela fazendo sites com gerenciamento de conteúdo para pagar as contas — mas ainda continuava sem muita expectativa de isso se tornar uma carreira profissional, era um ganha-pão enquanto eu estudava sociologia.

Nesse ponto eu já havia me formado em design e estava num mestrado em sociologia. Terminei esse mestrado, trabalhei com pesquisa de usuário em uma consultoria de inovação e estava curtindo demais ser sociólogo. Resolvi fazer outro mestrado na área, e aí minha vida mudou.

Meu tema de pesquisa nesse segundo mestrado foi ativismo hacker e aos poucos fui me reaproximando de tecnologia. Cada vez mais. E mais um pouco. E mais… até que voltei a programar a maior parte do meu dia.

Nesse processo todo fui pegando um pouco de cada coisa que aprendi no caminho. Como designer gosto de tangibilizar ideias, prototipar, fazer coisas abstratas serem facilmente entendidas por todo mundo. Como sociólogo gosto de usar meu trabalho para entender, provocar e tentar mudar um pouco o lugar onde vivemos. E como programador dou vazão a tudo isso, é minha forma de pôr a mão na massa.

Dessa mistura tirei a frase que uso para me definir hoje: “Eu uso tecnologia como voz política” — é assim que me defino quando alguém me pergunta “e aí? vc trabalha com quê?”

Há dois anos fundei junto com o Irio e o Cabral a Operação Serenata de Amor e hoje torço esse projeto que amo dentro da Open Knowledge Brasil — além de estar terminando meu doutorado em sociologia : )


Você comentou que programava desde de criança, mas como foi isso? De onde veio isso?

Nesse ponto eu fui privilegiado de ter pais que trabalhavam com informática. Eles são sócios em uma microempresa que desenvolve software desde que eu nasci. Então sempre teve computador em casa, desde o início dos anos 90 — e mesmo antes disso, eu vivia no escritório com meus pais, então sempre tive computadores por perto.

Junte a isso minha curiosidade e aí fui fuçando, perguntando, lendo, tentando, errando e aprendendo. Chegou um ponto que meu pai via novidades e botava em casa para eu fuçar e, depois, contar pra ele o que fazia, para que servia, como funcionava — assim ele via se cada novidade tinha valor comercial para a microempresa deles.

Foi assim que conheci kit multimídia (quem souber o que é isso entrega a idade hehe), modem, BBS, internet… Foi nesse pique de brincadeira que fui aprendendo sobre computadores, e fui me interessando por programação. Trocando o Almanacão de Férias da Turma da Mônica por coisas como fazer um disquete de boot com um AUTOEXEC.BAT otimizado para conseguir jogar Stunts, hahaha…


Ai você teve essa ideia de misturar o que você aprendeu com seus pais com a faculdade de design e com o mestrado sozinho? De onde nasceu essa vontade de trabalhar com tecnologia como voz política?

Eu nunca tive essa ideia. Aí é que está o ponto principal. Eu fui vivendo, experimentando, e sempre que dava, olhava para trás e tentava entender o que estava acontecendo comigo. Me culpava por ter me formado em design sem a mínima vontade de ser designer. Me culpava por pagar as contas programando sem a mínima perspectiva de continuar programando no médio e longo prazo.

Depois me culpava por, com dois títulos de mestre e um doutorado encaminhado, não estar empolgado com a carreira acadêmica de sociologia. Eu carreguei toda essa indecisão, essa culpa e (principalmente!) incerteza sobre meu futuro profissional por muito tempo. Mas aos poucos, depois de 30 e poucos anos de vida, a gente começa e ter uma bagagem que vai nos dizendo muito sobre nós mesmos.

É preciso ter calma para entender essa bagagem: olhar dezenas de oportunidades que você abriu mão e entender que nelas tinha também um pouco de você. Então esse olhar é que me permitiu que eu me entendesse como alguém que usa tecnologia como voz política — e nunca que eu decidisse, ou tivesse a ideia num momento eureka! de que é isso que faço ou que quero fazer.

E nessa fase de descoberta o contato com ativismo hacker foi essencial. Foram pistas importantes de que dava para juntar elementos diferentes que eu via na minha trajetória :) .


Ativismo Hacker! Pode falar um pouco sobre qual a finalidade e como você foi se envolver com isso?

Foi totalmente por acidente. Eu acompanhava, meio que de longe, o ativismo do Aaron Swartz. Na época eu estava no meio de um mestrado, nada a ver com o assunto.

Acompanhava o Aaron por gostar das coisas com as quais ele estava envolvido, com as coisas que ele tinha criado ou ajudar a criar: RSS, CreativeCommons, Reddit, a disponibilização dos dados do PACER.

Achava legal, mas não acompanhava de perto. Inclusive gostava mais pelos impactos sociais disso do que pela tecnologia em si.

Meu mestrado na época era sobre mobilidade urbana. E o Aaron, com 26 anos, se mata. Ele estava no meio de um processo judicial que, especulam, tinha consumido todas as economias e todas as energias dele.

No dia seguinte vi que no The Wall Street Journal, um jornal tipicamente conservador dos EUA, tinha um editorial que elogiava as conquistas do Aaron e criticava a promotoria que o perseguia naquele processo judicial. Era uma das faceta mais conservadora da mídia americana sentindo o luto de um gênio, por mais que esse gênio, politicamente, acreditasse (e lutasse) por pautas tipicamente alinhadas à esquerda do jornal.

Nesse dia ainda chamei minha orientadora e falei que ia mudar o tema da minha pesquisa de mestrado. Ela disse que eu era louco, não queria deixar. Aí eu contei a história do Aaron muito rápido, resumindo e chamando a atenção para tensões do processo e do suicídio que eram super interessantes sociologicamente falando. Ela se convenceu na hora.

Foi assim, fazendo essa dissertação (linkei ela ali pra cima) que caí de cabeça no ativismo hacker, e conheci outras pesquisas fantásticas sobre o assunto, como as da Gabriella Coleman, do Larry Lessig entre outros.


Você tem um perfil bastante acadêmico, graduado, possui dois mestrados e está na corrida do seu doutorado. Hoje a gente está vivendo um momento onde as pessoas que trabalham com TI estão questionando muito a academia, você poderia opinar sobre isso?

Cara, educação é algo que tem que servir para “dentro” da pessoa, não para “fora”, ou seja, não adianta esperar que a academia vai resolver teus problemas.

O que eu quero dizer com isso é que o que se critica não é necessariamente a qualidade do que se faz na academia, mas o quanto ela realmente empodera a gente para ser o que a gente espera ser. E essa é a questão mais importante, saber onde você quer chegar. Sem isso, é fácil e raso criticar qualquer etapa de aprendizado.

Em um projeto sobre educação alternativa que fiz parte falamos muito da importância de se auto conhecer antes de tentar “adquirir” conhecimento. O aprendizado tem que ser um meio, não um fim.

Então não adianta criticar a academia se ela não tem em mente o mesmo fim que você. Quem está na academia está preocupado com certas coisas que podem ou não fazer sentido pro resto do mundo. E isso é normal.

Dependendo do que cada um escolhe para a própria vida, a academia vai ou não ajudar. Títulos acadêmicos não significam nada se você não sabe o que vai fazer com o aprendizado que te deu esse diploma — e acho que essa é a maior frustração das pessoas que criticam abertamente a academia, eles acharam que a academia ia botar eles em algum lugar, como que em um passe de mágica.

Mas não é assim que funciona. Cada um tem que tomar as rédeas e decidir para onde quer ir. E, o mais importante: se você não decidir, os outros decidem por você.

Isso se manifesta nesse exemplo de academia, com gente que não tem interesse em carreira acadêmica, que se esforça em escrever artigo, ir para congresso e ficar criticando tudo isso como: “que pesquisa acadêmica não condiz com a realidade”, “que universidade não te prepara para o mercado”, etc.

Meu caminho acadêmico com dois mestrados e logo mais um doutorado não me preparou para o mercado, mas tudo bem. Não é o objetivo de um mestrado ou de um doutorado. Como eu não quero ser acadêmico, é um dever meu adaptar o que aprendi nessas experiências para o mercado. Não é uma falha da academia.

Resumindo: eu adoro pesquisa em ciências sociais. Por isso estou na academia há tanto tempo. Não espero que isso me prepare para nada além de continuar escrevendo dissertações, teses e artigos — coisas que não me dão tesão algum, por ser um mundo meio hermético, parece que eu fico falando só dentro de uma bolha, numa linguagem que só outros acadêmicos topam — Prefiro desafio de resumir minha tese em um tuíte do que mais um artigo publicado em congresso.

De qualquer forma, “o efeito colateral” de ter essa imersão em pesquisa acadêmica eu aproveito para outros fins é: um repertório sensacional que me ajuda a entender, provocar e tentar mudar um pouco do meu entorno.

Não opino sobre educação formal em tecnologia e exatas pois é um mundo que desconheço totalmente, mas algum paralelo entre o que eu acabei de dizer e esse mundo deve ser possível ; )

A academia tá lá fazendo as coisas dela. Basicamente, se tu não quer fazer as coisas dela, deixa ela lá. Ou passa, pega o que te interessa e siga a vida ; )


Como foi o seu primeiro trampo?

Bom, na área de tecnologia cívica, o meu primeiro emprego eu tive que criar. Ela é uma área bem pequena ainda, mas pra dizer a verdade eu não tinha a clareza de que esse era um setor que existia e que daria pra se preparar para ele.

Então quando nasceu a Operação Serenata de Amor, basicamente juntamos um time de 8 pessoas e colocamos uma proposta de financiamento coletivo no Catarse. A ideia inicial era trabalharmos focados durante 2 meses e depois disso não tínhamos mais certeza nenhuma.

Na verdade foi tudo uma grande aposta, pois se o financiamento coletivo não desse certo não daria pra continuar o projeto e eu iria me dedicar as minhas outras coisas. No fim, tudo acabou dando super certo. A gente arrecadou um valor que dava pra manter o time durante 3 meses e durante esses meses conseguimos abrir outras portas.


O que é o Serenata de Amor? Qual a função do projeto?

O Serenata de Amor é um projeto que fundei junto com o Irio e o Cabral, o Irio é o idealizador do projeto. A premissa básica do projeto é usar ciência de dados com dados para ajudar a gente a entender o que está acontecendo na esfera pública, ou seja, com o governo e com as pessoas que nós elegemos.

Então basicamente são tecnologias semelhantes com o que o mercado utiliza para, por exemplo, tentar vender mais produtos, porém a gente usa isso pra tentar navegar no mundo da gestão pública.

A gente começou a mostrar que essa ideia era possível explorando como os deputados gastam um recurso chamado de verba indenizatória, que gera um volume de dados muito grande, porque estes gastos, geralmente, são bem pequenos como, por exemplo, gastos com alimentação, viagem, material de escritório, consultorias externas.

Temos cerca de 513 deputados gerando pequenos gastos. O que nos gera um volume bastante grande e que acaba sendo difícil de ser auditado por seres humanos. É muito difícil um ser humano auditar tantas notas fiscais com valores pequenos.

Então assim a gente cria tecnologia para tentar entender o que ta acontecendo na gestão pública.

Operação Serenata de Amor — Catarse

Quais são as skills de quem trabalha nesta área?

É uma mistura. Claramente para tecnologia cívica a gente está falando de tecnologia: ciência de dados, desenvolvimento web, desenvolvimento de aplicativos para celular, coisas assim muitas vezes ajudam.

Mas não é só isso. Normalmente tem que ter um conhecimento bom de leis, de regulamentos, de gestão pública. Não precisa ser expert em nada disso, mas não pode ter medo de estudar essas coisas.

E, por fim, acho importante saber fazer perguntas e contar histórias, então aqui entram um pouco de comunicação social também.

Mas não acho que uma única pessoa deva saber ou fazer tudo. A gente trabalha em equipe, se complementando.


Quais são os principais desafios da área?

Um dos principais desafios é perceber a linha tênue entre promover uma caça às bruxas e engajar as pessoas civilizada e politicamente. O que eu quero dizer é que em tecnologia cívica o foco não pode ser só na crítica, na “eliminação” do outro.

O foco acho que é maior do que isso. Temos que promover ferramentas para que a população sempre tenha condições de acompanhar o que se faz na esfera pública, independente de quem, ou qual partido, esteja no poder.

Digo isso pois escuto muita gente falar que a Serenata é contra a corrupção. Eu entendo. Até nós mesmos começamos falando isso, mas, depois de um tempo, vimos que não se tratava disso, O que fazíamos era engajar pessoas no controle social dos gastos públicos.

Isso leva a uma forma de pensar que é mais perene, que continua mesmo com mudanças de pessoas, cargos e governos. Isso, além do mais, cria uma cultura democrática que nos permite ser políticos e que a nossa voz não seja só ouvida naqueles poucos segundos em frente as urnas a cada dois anos.

Citação totalmente fora de contexto, mas que amo. Dessa palestra “Code is the Easy Part” by Evan Czaplicki, que amo também.


Quais são as principais recompensas da área?

No geral acho que é uma área como qualquer outra. Se a pessoa tem essa ideia de causar impacto social, vai se realizar. Mas se o objetivo da pessoa é outro, então só vai se chatear. Claro, eu acho super importante a pauta de transparência ativa, de engajamento social e político, mas sei que nem todo mundo tem isso como meta de vida, então entendo que essa área é para quem está alinhado com isso.

Tem gente que está alinhado com outras coisas, com fazer o primeiro milhão, ou com pautas mais específicas como preservar o meio ambiente. Cada um tem seu espaço, e respeito muito isso. O que posso dizer é que eu me realizo com essas pautas, então para mim é ótimo.

Organizações sem fins lucrativos tem uma tradição tóxica de não oferecer salários tão competitivos, mas isso não quer dizer que ganho mal. E muitas instituições nessa área de tecnologia cívica tem fins lucrativos e isso não costuma ser problema. Mas uma coisa sensacional é o apelo que alguns projetos dessa área tem, engajando muitos colaboradores (voluntários), seja na área técnica ou não. Nessa área dificilmente se trabalha sozinho!


Puxando esse viés de ser voluntário, sei que o serenata de amor é open source, para aquela galera que ainda tá procurando uma primeira experiência na área, você recomendaria essa pessoas a partir de projetos com essa pegada civil?

Apesar do coração querer gritar “Sim!” acho prudente falar um “depende”. Acredito que a melhor forma de contribuir com projetos de código aberto é contribuir para as ferramentas que você usa.

Isso tem enormes vantagens, se você usa algum pacote de código aberto você sabe um mínimo sobre o que ele faz e como funciona, sabe do contexto onde ele faz sentido e entrega valor e isso ajuda muito na hora de contribuir.

Acho super legal quando aparecem novos colaboradores na Serenata, mas no fundo quando a gente fala de primeira experiência, se a pessoa não conhece as ferramentas que usamos, a curva de aprendizagem pode ser maior que o fôlego, e isso acaba decepcionando.


Você pensa em mudar de área?

Acho que não. Nunca me senti tão completo quando me sinto nos últimos anos : )


Finalizando…

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Thanks to Eduardo Cuducos and Lucas Santos

Mateus Malaquias

Written by

Baiano | Software Development Engineer | I’m a back-end developer who like to work and collaborate with teams and also have good interpersonal skills.

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