Mercado de TI em Portugal (minha experiência pessoal)

Muitas pessoas já me pediram para escrever um artigo sobre como é o mercado de TI em Portugal e contar um pouco da minha experiência, então nesse artigo de hoje vou compartilhar um pouco sobre esses pontos com vocês com base na minha experiência pessoal.

Processo seletivo

Eu fiz todo o processo seletivo enquanto estava no Brasil. Um amigo me marcou em uma publicação no Facebook de uma vaga aberta aqui em Lisboa (vaga para Dev Sênior), eu entrei em contato, enviei meu currículo e comecei o processo seletivo.

A empresa que vim é uma consultora, uma empresa que fornece serviços de consultoria para outras empresas, então meu processo seletivo foi feito por duas empresas: a consultora que é a empresa que ia me contratar e pelo cliente da consultora que era a empresa a qual eu iria prestar serviços. O processo seletivo como um todo foi separado em algumas etapas:

  • Conversa com o RH da consultora
  • Conversa técnica com a consultora
  • Conversa com o RH do cliente
  • Teste prático com o cliente
  • Conversa técnica com o cliente

Visto

Depois de estar tudo ok e eu ter sido aprovado para a vaga, a empresa enviou a documentação necessária por correio e eu fui até à embaixada portuguesa (que também é onde fica o consulado em Brasília) e peguei a lista de documentos que tinha de arrumar. Depois de arrumar tudo, voltei à embaixada e dei entrada no visto de residência e para minha sorte em 22 dias o visto estava liberado e no começo de Agosto de 2016 me mudei com minha esposa para Lisboa.

Primeiras semanas

As primeiras semanas foram complicadas, apesar do idioma ser “o mesmo”, no início para mim era mais fácil conversar em inglês do que em português pois eu não entendia quase nada por causa do sotaque e da velocidade que os portugueses conversavam. Isso foi o mais difícil de se acostumar porque se acostumar com a liberdade que temos de andar na rua de madrugada, com celular na mão sem ter medo de ser assaltado, isso conseguimos acostumar muito rápido.

Salário e qualidade de vida

Muitas pessoas me perguntam porque eu vim para Portugal sendo que os salários são os mais baixos da Europa. Eu sempre respondo a mesma coisa:

Portugal nunca tinha sido um local que eu e minha esposa pensávamos em morar, nosso objetivo era o Canadá, mas foi a primeira oportunidade de trabalho fora do Brasil que deu certo. Na semana do nosso vôo para Lisboa fui chamado para uma vaga no Canadá, mas como já tínhamos vendido tudo, estava com passagens na mão, contrato assinado, etc, nós não podíamos mais recusar e voltar atrás e não nos arrependemos disso.

Dito isso, não saímos do Brasil para ficar rico e todo mundo que me pergunta eu respondo: PORTUGAL NÃO É UM LUGAR PARA SE FICAR RICO TRABALHANDO COMO DESENVOLVEDOR. Viemos para cá pela qualidade de vida e isso não tem comparação. Eu vim para ganhar quase o mesmo que ganhava no Brasil, a diferença é que o PODER DE COMPRA AQUI É BEM MAIOR.

Pelo que tenho visto os salários de desenvolvedores aqui tem um range entre 800 e 2.5k euros líquido (não sei salários de arquitetos, designers, etc). Muitas pessoas vão pensar: NOSSA É MUITO BAIXO. Sim, eu concordo, mas o custo de vida aqui também é baixo. Tudo depende do estilo de vida das pessoas, mas um casal sem filhos aqui gasta aproximadamente 1.2k para VIVER MUITO BEM, quando eu digo isso é realmente isso. Ir no mercado e comprar o que quiser comer, algumas saídas para comer fora, contas, etc. Mas como disse, tudo depende do estilo de vida.

Dia-a-dia

Não sei qual o motivo, mas muitas pessoas me perguntam como é o dia-a-dia no trabalho aqui. Não é muito diferente de como é trabalhar como Dev aí no Brasil, mas posso listar algumas diferenças. Veja que isso é muito relativo, pois cada empresa (seja onde for) tem suas metodologias e particularidades, então o que eu listar aqui pode ser muito bem algo comum para você aí, mas que não foi para mim enquanto trabalhava aí ou vice-versa.

Vou listar apenas dois pontos em que difere muito das experiências que tive no Brasil:

  • Tranquilidade: todas experiências que tive no Brasil, os prazos eram para ontem. Tudo tinha de ser feito de forma muito corrida, não tinha tempo de planejar muito bem, etc. Aqui até o momento o trabalho tem um ritmo mais tranquilo. Tem sim períodos de tensão e que temos que correr e suar para fazer uma entrega, mas no geral o ritmo é bem mais tranquilo e sem tanta pressão como em certas experiências que já tive.
  • Contato com outros idiomas: aqui é muito comum se trabalhar em projetos em que outras equipes sejam de outro país, ou que algum cliente seja de outro país, etc. Normalmente quando isso acontece a comunicação passa a ser feita com a língua inglesa. Nos projetos que trabalhei até agora eu tenho contato diariamente com a língua inglesa, seja escrever, ler, ouvir ou falar, estamos diariamente treinando e aperfeiçoando o uso da língua inglesa.

Mercado de trabalho

O mercado de trabalho de TI está MUITO AQUECIDO não só em Portugal, mas em toda Europa. Não por ter milhões de vagas em aberto em todas empresas que existem, mas sim por não encontrarem profissionais qualificados para preencher essas vagas.

Desde que vim para cá eu recebo convites para participar de processos seletivos diariamente. Geralmente recebo entre 8 e 15 convites desses por semana e de vários países da Europa. Com isso vocês podem ver que o mercado está muito bom. A maioria das vagas que fazem o sponsor do visto são para Devs Sênior, mas também há empresas que fazem sponsor do visto para Devs Pleno e Júnior, talvez seja um pouco mais difícil de encontrar, mas existem.

Mas como se preparar para essas vagas? Vou dar algumas dicas que aprendi durante minha trajetória profissional:

  • Inglês é essencial: antes de sair por aí aprendendo 5 linguagens de programação diferente, a linguagem mais importante será o inglês.
  • LinkedIn como porta de oportunidades: como disse anteriormente, recebo muitas propostas de emprego pelo LinkedIn, então manter ele atualizado e ter uma versão do seu perfil em inglês é algo que vai ajudar muito a chamar atenção para novas oportunidades.
  • Soft skills: eu já disse isso em um Tweet meu: https://twitter.com/wendell_adriel/status/946087505312518144, uma das coisas que difere um Dev Pleno e um Dev Sênior não é apenas o conhecimento técnico, pessoalmente acho que é o menor fator entre ambos. O que realmente faz a diferença são as Soft Skills.
  • Marketing pessoal: cuidado com esse ponto, não é sair por aí dizendo que você sabe muito, etc. Mentir é totalmente prejudicial para usa imagem. O que quero dizer aqui é você criar um site pessoal para mostrar seus projetos e suas experiências, participar de eventos, contribuir para projetos, palestrar em algum evento, etc. Tudo isso pode te ajudar, MAS NÃO FAÇA ISSO PARA “GANHAR PONTOS” EM ENTREVISTAS, etc. Contribua para projetos, participe e fale em eventos para ajudar as pessoas e o “mérito” vai vir como um “brinde”.

Updates

Depois de publicar no Twitter o artigo, recebi um comentário que acho importante compartilhar com vocês:

Conclusão

Espero que tenham gostado e que esse artigo tenha ajudado a esclarecer algumas dúvidas que tinham. Como ele foi escrito com base na minha experiência, outras pessoas podem ter pontos de vista totalmente diferentes do meu, apenas usei minhas experiências como base.

Se vocês quiserem ver um pouco mais sobre esse assunto, em 2016 dei uma talk na Laraconf Brasil sobre esse tema. Vocês podem ver no vídeo abaixo:

Querem falar sobre tecnologia, desenvolvimento, metodologias de desenvolvimento ou carreira? Cola lá no Twitter: https://twitter.com/wendell_adriel