A (quase) sempre azeda relação entre Nintendo e Electronic Arts
A EA se transformou em uma máquina de notícias ruins para o Wii U. No lançamento, o suporte da third-party foi “morno”. Depois, uma série de anúncios confirmou os rumores de que a sua relação com a Nintendo havia azedado, como comentamos aqui. A Crytek revelou que Crysis 3 e sua engine estavam tinindo na plataforma, mas que o projeto foi abortado pela Electronic Arts.
Em seguida, Battlefield 4 foi anunciado para todos os concorrentes, menos o videogame da Nintendo. Em 2012, tudo indicava que a DICE trabalhava não só no quarto episódio, mas também em um port do terceiro, lançado em 2011 e usado para demonstrar o console na E3 daquele ano. Madden e FIFA, coqueluches dos esportes, estão no limbo. E, agora, a DICE afirma que a Frostbite 3.0 e, por consequência, os novos jogos da franquia Star Wars não rodarão no Wii U. Vamos olhar os 20 anos de relacionamento entre as empresas e ver também o que aconteceu em 2013!
O racha entre Nintendo e Electronic Arts foi um dos temas quentes do primeiro semestre de 2013. Poucas informações são conhecidas e nisso a excelente mídia especializada norte-americana tem grande responsabilidade. De qualquer forma, o artigo aqui não é sobre a incapacidade da imprensa norte-americana de games fazer mais do que PR para as empresas do ramo. Bem no início do ano, insiders da indústria postaram em diversos fóruns que, após o anúncio central de John Riccitiello na conferência da Big N na E3 2011 sobre uma “parceria sem precedentes” para o lançamento do Wii U, as duas companhias trabalharam juntas na rede online do novo produto, até que a Nintendo decidiu recusar a proposta de utilizar o cliente Origin, da EA, como base de sua estratégia online.

Na prática, o passo relegaria à empresa de Redmond todo o controle sobre uma importante função do sucessor do Wii e deixaria a Nintendo de mãos atadas. Com a recusa, a EA abandonou a criadora de Mario e Zelda e diminuiu sensivelmente o seu suporte de software. A perda é relevante, pois, mesmo sendo a pior empresa dos EUA e ter mandado mal com os hardcore gamers recentemente, suas franquias tem um enorme peso no mercado, mesmo sendo majoritariamente multiplataforma. Madden, FIFA e Battlefield, especialmente, são nomes básicos, que apelam para um amplo número de jogadores e suas ausências empurram o Wii U para um mercado de nicho.
A história pode nos ensinar muitas coisas e, sobretudo, a colocar em perspectiva essa relação conturbada. O blog Not Enough Shaders fez um extenso histórico da dobradinha EA-Nintendo — o qual eu recomendo a leitura em inglês mesmo. No entanto, faço um breve resumo dos pontos mais importantes.
Na era 8-Bit/16-Bit, com o quase monopólio da Nintendo, a empresa se dava ao luxo de possuir um sistema de licenciamento hostil, em que as terceirizadas pagavam preços abusivos pelos dev kits (kits de produção dos jogos). Elas, então, desenvolviam seus projetos, viajavam para o Japão e, mesmo assim, não sabiam se e quando a Big N iria aprovar o título e produzir os cartuchos para colocar no mercado.

Na primeira metade da década de 90, esse jogo duro motivou a Electronic Arts a se aliar à Sega, o que transformou o Mega Drive/Genesis na powerhouse dos jogos de esporte. A casa de Sonic permitiu um modelo de negócio descentralizado, pelo qual a EA produziria seus próprios cartuchos e pagaria royalties mais baixos.
No Nintendo 64, logo de cara, a Electronic Arts apontou os altos custos de desenvolvimento e a mídia em cartuchos para justificar que não iria produzir muitos jogos para o console. O então presidente da Nintendo of America, Howard Lincoln, percebendo o crescimento do Playstation e a falta de jogos de esporte no N64, aproximou-se da EA e conseguiu seis títulos do gênero para o ano de 1998.
No final de 1999, porém, a third-party experimentou a sua maior queda nas ações da história e especialistas culparam em parte sua linha de jogos para o Nintendo 64. A partir daí, o suporte tornou a reduzir-se às iterações de FIFA, até a chegada do GameCube. A plataforma cúbica levantou os ânimos por lá: “Nós acreditamos fortemente que a Sony será a líder, mas também achamos que ambas as plataformas (GameCube, Xbox) são muito boas, proporcionarão oportunidades e vamos dar suporte”, disse a EA no balanço fiscal de maio de 2001.
Contudo, em 2003, as vendas abaixo do esperado fizeram a Electronic Arts diminuir a expectativa de crescimento do GC de 20-25% para 15-20%. O PS2 e o Xbox mantiveram suas projeções, respectivamente, de 25-30% e 20-25%. Os projetos para o cubo roxo diminuíram e o VP senior dos estúdios globais da EA, Bruce McMillian, chegou a admitir que sua relação com a Nintendo não era boa. Nem mesmo o uso de personagens da Big N no portfólio de esportes e a ajuda de Miyamoto na produção alavancaram as vendas e os lucros.
Na geração Wii-PS3-X360, a impressão generalizada era a de que consoles Nintendo só vendiam jogos first-party. Assim, qual não foi a surpresa da Electronic Arts, quando uma boa parte de seus jogos fez sucesso estrondoso no Wii. Tiger Woods, Boom Blox, EA Sports Active e tantos outros são exemplos de empreitadas que chegaram a liderar os rankings de venda pelo mundo. Em virtude do êxito, o DS e o Wii chegaram a receber o suporte majoritário da empresa com mais de 50 projetos em desenvolvimento.

O negócio desandou quando o foco em games casuais e nas tecnologias defasadas das plataformas nintendistas começou a afastar produtores interessados em produtos hardcore. Para piorar, as iniciativas mais tradicionais, como The Godfather e, especialmente, Dead Space foram um fracasso comercial retumbante. Em 2010, o Wii já deixava de ser prioridade para a Electronic Arts. Em 2011, às voltas com a chegada do 3DS e do PSVita, a EA chegou a comentar que o portátil da Sony teria muito mais chances de sucesso.
Por isso, a presença de John Riccitiello, CEO da Electronic Arts, ao final da conferência da E3 2011 da Nintendo, revelando uma parceria especial, provavelmente voltada para a rede online, deixou muitos curiosos. Um ano depois, na E3 2012, a união já parecia ter deixado de existir. Peter Moore, da EA, afirmou que o Wii U teve uma repercussão ruim na feira daquele ano, enquanto o presidente da empresa afirmava que da “geração 4″ só participavam X720 e PS4.
O que se tira desse apanhado histórico é a evidente diferença entre as filosofias da Nintendo e da Electronic Arts. Ocidente e Oriente. Orientação pelo lucro e descentralização contra orientação pela qualidade e centralização. Licenças e esportes vs IPs próprias e inovação. A EA pode não ser mais o que foi, mas ainda tem enorme peso no mercado. Vamos acompanhar os próximos capítulos dessa história — sem FIFA e Madden, se você tem o Wii U.