Corvos e cartolas

Nova série do Netflix abraça o futebol para discutir machismo e corrupção


Trata-se de uma produção mexicana, mas longe dos clichês rocambolescos das novelas importadas pelo Brasil. Trata-se também de uma produção em torno do futebol, entretanto, sem a ambição — muitas vezes frustrada — de reproduzir a realidade do jogo em cenas de TV. Club de Cuervos é a primeira obra original do Netflix filmada em língua espanhola. A série, que estreia na plataforma digital em 7 de agosto, sexta-feira, conta a história de dois irmãos (Chava e Isabel Iglesias), rompidos pela disputa da presidência de um pequeno clube interiorano após a morte do patriarca.

Ator e produtor executivo do seriado, Luis Gerardo Méndez interpreta Chava, um bon vivant que, ao contrário da irmã, não entende sequer a regra do impedimento, mas conquista o cargo na marra. “É um exemplo do machismo que existe no futebol e em toda a sociedade. Isabel é muito mais preparada, porém, como não é habitual uma mulher presidir um clube, seu irmão herda o cargo injustamente.”

Luis Gerardo Méndez como Chava Iglesias, o playboy que cai de paraquedas na presidência de um clube

Além da rivalidade familiar, a série pretende explorar os bastidores da cartolagem e o dia a dia dos vestiários. “Quando o poder cai em mãos equivocadas, há consequências. É o que ocorre no futebol”, diz Méndez. “Muito do que vamos mostrar na série, com crítica e humor, está aí, no escândalo de corrupção da Fifa.” A seguir, um papo com Luis Gerardo Méndez, que no ano passado esteve no Brasil em busca de referências para seu personagem e experimentou doses da paixão futebolística por meio de um craque argentino em pleno Maracanã.


Logo no primeiro episódio, fica evidente a relação conflituosa entre Chava e sua irmã Isabel, amarrada a um forte contexto de machismo, típico do futebol. Club de Cuervos vai discutir essa questão até o fim?

Sem dúvida. O machismo é um dos temas que estará em evidência durante toda a série. O futebol, na verdade, é o pano de fundo para discutirmos vários dilemas comuns na América Latina. A questão de gênero não habita somente o futebol. Existe em todos os cantos, países e profissões. Isso acontece muito na indústria cultural. Quantas diretoras de cinema temos em Hollywood, por exemplo? Há uma diferença absurda entre salários pagos a homens e mulheres nesse meio. O machismo está em toda a sociedade, e o futebol é apenas um dos meios em que o preconceito se manifesta. Em Club de Cuervos, Isabel é muito mais preparada, porém, como não é habitual uma mulher presidir um clube, seu irmão herda o cargo injustamente.

“Crie corvos e eles te arrancarão os olhos” também é um ditado popular no México. Serve para definir o espírito da produção e das relações no ambiente de um clube?

É por aí… Os Cuervos são uma equipe em ebulição. Dois irmãos se dividem entre a memória do pai, personificada no clube, e a rivalidade pela disputa da presidência. Mais que um homem tentando se impor sobre uma mulher, Chava se vê no direito de fazer qualquer coisa, inclusive de trair a confiança da própria irmã que o ajudou a ter a mínima noção sobre como administrar um time.

Além do machismo, a série vai tocar em algum outro tema social atrelado ao futebol?

Trataremos de coisas muito sensíveis da vida cotidiana, como ambição, ganância, vaidade e, sobretudo, as razões que levam um ser humano a se corromper. Quando o poder cai em mãos equivocadas, há consequências. É o que ocorre no futebol.

Como o técnico dos Cuervos, que cobra propina de jogadores mais novos para promovê-los à equipe principal?

Exatamente. Além dessas nuances dos bastidores de um clube, a série vai focar na atuação de dirigentes que exercem poder não só entre jogadores, torcida e conselheiros, como também em sua relação com comunidades e governos. É a velha máxima do “pão e circo”. Enquanto torcedores se deixam levar pelo fanatismo e a paixão por um clube, acabam se esquecendo de coisas importantes e dando respaldo às arbitrariedades de cartolas. Muito do que vamos mostrar na série, com crítica e humor, está aí, no escândalo de corrupção da Fifa.

Uma crítica recorrente às produções que abordam o futebol é a reprodução do jogo, que costuma soar artificial na TV e no cinema. Há uma preocupação para que Club de Cuervos não caia na mesma armadilha?

Não temos a pretensão de reproduzir as emoções que giram em torno de uma partida. Em campo, todo mundo já sabe o que acontece. Queremos revelar o futebol por trás das câmeras. De qualquer forma, simulamos vários jogos para a série, como o confronto entre Cuervos e Pachuca, considerado seu maior rival. O fato de escolher um time de verdade como suposto adversário do nosso time fictício já ajuda a aproximar a história da realidade. E os diretores tomaram muito cuidado para que quem assista às cenas de jogo tenha a sensação de estar em um estádio.


“Estamos mais para um Game of Thrones do futebol do que para Breaking Bad.”

Você veio ao Brasil durante a Copa do Mundo, no ano passado. Já era parte da preparação para viver o personagem de Chava Iglesias?

Sim, àquela altura eu já sabia que teria o papel de um dirigente na série. Como não sou um aficionado do esporte, decidi que eu deveria me empanturrar de futebol para não fazer feio nas gravações. Não havia melhor ocasião que o Mundial, no Brasil. Acompanhei alguns jogos no Maracanã e descobri o que realmente significa o futebol quando vi milhares de torcedores se levantarem para aplaudir Lionel Messi.

Filmes ou livros sobre futebol raramente alcançam status de blockbusters ou best-sellers. Acredita que Club de Cuervos pode quebrar essa sina e se converter em um sucesso semelhante ao de Breaking Bad ou House of Cards no Netflix?

Essa é nossa expectativa. Creio que, por causa da luta fratricida dos irmãos pelo poder do clube, estamos mais para um Game of Thrones do futebol do que para Breaking Bad [risos]. Temos um pouco de House of Cards também, apontando o dedo para as contradições da política e dos relacionamentos por interesse. A vantagem é que trabalhamos com algo extremamente popular como o futebol, que pode se desdobrar em várias outras histórias, e tem apelo em praticamente todos os países do mundo. Nos Estados Unidos, além de uma expressiva parcela da população composta por hispano-americanos, o futebol tem crescido bastante nos últimos anos. Esse pode ter sido um dos fatores que levou o Netflix a apostar na série. Sem contar o Brasil, que segue sendo o país do futebol. Espero que gostem do trabalho e torçam pelos Cuervos.