

Desconstruindo a competição
Certa vez, na escola em que estudei quando mais jovem, o coordenador entrara na sala de aula caminhando com pressa em direção ao mural. Pregou o papel que carregava consigo e em menos de um minuto fez-se entender nos seguintes dizeres:
- Pessoal, fixei no mural de vocês para consulta o ranking da sala, do melhor ao pior aluno, segundo suas notas. Isto servirá de estímulo para vocês melhorarem o rendimento e o desempenho individual ao longo do ano.
Assim, estava aberta a temporada de bullying aos alunos que, como eu, fracassavam no colégio. É claro que a ideia do cara foi um fiasco!
Esta situação, mesmo não podendo ser representativa, ilustra o quanto somos induzidos desde o nascimento até a fase adulta ao comportamento de competição.
No núcleo familiar, têm-se pais que protegem seus filhos do compartilhamento de seus pertences com outras crianças. Na infância, surgem inúmeras comparações e elogios que determinam expectativas e reforçam as diferenças.
Na escola, por sua vez, os jovens já são introduzidos em módulos diretos de competição com a atribuição de notas, da homenagem, da diferenciação, muitas vezes estabelecida pela preferência ao aluno mais aplicado do que ao não-aplicado. Este programa vai se intensificando e ganhando corpo com a aproximação dos vestibulares.
Com a entrada na universidade, já se fala propriamente do sucesso profissional e é recomendada a competência para se “destacar” dos demais, pessoas comuns, como se fossem seres de pouca vontade e que não são bons o suficiente.
Na via profissional, a realidade de muitos é que irão trabalhar em empresas em que 70% de suas vidas serão vendidas para se viver os 30% restantes, parcela ainda prejudicada pelo desgaste dos 70% realizados. Até que efetivamente, para estes, a vida começa a tornar-se o próprio trabalho, mais adequado à possível origem da palavra: tripalium = instrumento de tortura.
Caso se torne um empresário, o padrão acaba sendo reproduzido ainda na maioria dos casos, na constante sensação de ameaça do outro capturar suas oportunidades de conquistas.
Toda essa indução competitiva, proveniente da programação de nós mesmos pela cultura, atrapalham que uma explosão de iniciativas aflorem e que uma nova configuração econômica predomine.
Experimente juntar-se com outras pessoas inesperadas e desconhecidas em algum local público ou HUB para partilhar suas melhores ideias. O resultado é a multiplicação em inúmeras outras ideias, que se combinam e se transformam, revelando ser a cocriação (criação conjunta) uma proposta que irá te proporcionar uma ideação em cadeia.
Como a independência e a interação entre as pessoas está transformando o modo de vida e o sistema de trabalho.medium.com
É preciso quebrar o código cultural que determina em nosso modo de ser que o conhecimento precisa ser resguardado, a autoria protegida, o direito de exploração delimitado, o concorrente eliminado, os ganhos acumulados e disso tudo, que só o resultado do sucesso tenha valor.
Também é preciso aproveitar o fracasso:
Ei, já parou pra pensar no seu case de fracasso? Já se perguntou alguma vez: e se tudo, hoje, desse errado, o que…medium.com
Seja na vida ou no mundo empresarial, é momento de incorporar o espírito cracker (no sentido positivo, tomando o conceito atribuído: “aquele que quebra”) para quebrar nossas condicionadas programações.
Ao passar dos dias, as pessoas cada vez mais vem se empoderando frente às instituições estruturadas sobre a configuração Capitalista. A coesão institucional que atribui poder à organização vem perdendo força e consistência ante o potencial interativo de pessoas conectadas, em tempo real, à bagagem de conhecimento e experiências de inúmeros amigos que respondem instantaneamente. Nesta realidade, o excitante quadro é que pessoas estão se tornando as empresas do futuro.
Importante que em semelhante contexto a individualidade seja repensada. Esta individualidade enclausurada na fortificação do Eu, defendida e isolada pela personalidade com a dança das máscaras, pode ser uma ilusão. A oportunidade e a ocasião em que novos “mundos humanos” (pessoas) se encontram e se conectam precisam ser criadas no espaço-tempo. Espaços de estímulos à convivência e à cocriação a partir da iniciativa da interação não dependem de muito mais do que boa vontade.
Cada pessoa empreende um mundo em si mesma e o encontro entre dois mundos pode desvelar novas visões e possibilidades. É o elemento fundamental para encontrar saídas não usuais para o desenvolvimento sustentável. Quanto mais “mundos” (pessoas) cooperando nestes encontros, mais favorável o ambiente à inovação.
Cooperar é operar junto. Mas será que compreendemos bem de que forma deve se dar esta cooperação?
A dinâmica dos formigueiros
Uma sugestão interessante é observar a dinâmica dos formigueiros. Formigas assumem quatro ou cinco tipos de funções diferentes e a função de cada uma pode mudar conforme a necessidade. Assim, se uma formiga coletora teve algum problema no caminho, espontaneamente outra assume a função desta, para que não haja desvio do propósito principal: a regulação de todo o sistema natural.
O que ocorre com as formigas precisa ser inspiração para meditar.
O trabalho delas é em função de todas, de cada uma e de todas, simultaneamente. Não há diferenças, tão pouco, umas se destacam das outras — no sentido hierárquico (superioridade-inferioridade).
E, não, a rainha não é soberana. É apenas a primeira formiga do formigueiro que exerce a função contínua, por todo o ciclo de vida do formigueiro, da reprodução. Ofereço a palestra dessa importante pesquisadora, Déborah Gordon, que pesquisou por mais de 20 anos a vida das formigas.
Tal como ocorre na dinâmica do formigueiro, pessoas tem o potencial para tornar o sistema autorregulado. Um primeiro passo é mudar nossas orientações do foco interno — ser o melhor dentre todos — para um foco externo, comum e global — ser o melhor para todos.
Não estamos muito acostumados com a ideia de que a cooperação é mais produtiva do que a competição. Há, entre, talvez, a maioria das pessoas, a ideia de que competir é inevitável. Aquele que abre um comércio ao lado de outro idêntico se sentirá disputando ganhos e a ameaça ao negócio. Daí provém uma motivação para todo aquele posicionamento da arte da guerra, ensinada pelas inúmeras escolas da administração que formaram ao longo do tempo a adaptação das estratégias de combate para o mercado.
Sinergia
Mas o incrível vídeo que se segue, demonstra, pelo exemplo do esporte, que a competição pode ser descontruída como arte da guerra, e resignificada. O vídeo foi uma curiosa partida olímpica na modalidade Ping pong (tênis de mesa) disputada entre Jean-Michel Saive, representante da Bélgica e Chuang Chih-Yuan, representante de Taiwan, em que eles decidiram relaxar e simplesmente, juntos, criar um bom espetáculo.
Levando para o lado atual do mercado, a realidade é que não é a existência de outro estabelecimento que determina a fragilidade de um negócio, mas inúmeros fatores como o falho dimensionamento do mercado, muitas vezes consequência da falta ou deficiência na realização de um estudo prévio à implantação do negócio. Ou, a falta de abertura para receber do outro e ajudar, de deixar-se acessar e promover esse intercambio que é a simples ocasião da conversa. Ou, justamente pela falta de articulação e convivência entre as pessoas, que podem resolver conjuntamente todos os problemas. (Deixo como recomendação o caso do Banco Palmas, desenvolvido em um bairro miserável pelos moradores que decidiram reunir-se para encontrar uma solução para o desenvolvimento local).
Nesse sentido, a visão do “pior inimigo” como concorrente direto, pode ser revertida em “amigo melhor” quando duas empresas do mesmo segmento decidem atuar juntas. O termo para isso é representado pela operação 2+2=5, foi cunhado como “Sinergia” por Igor Ansoff e diz que qualquer coisa que se reúna em rede gera um retorno superior à soma de suas partes.
Propósito: Bem comum
Tudo é questão de utilizarmos a essência que nos diferencia dos animais: a inteligência e o emocionar.
Humanos são a única espécie capaz de ponderar sobre seus códigos, sua programação inserida (cultura), e desconstruí-las. Atitudes disruptivas, motivadas pela impulsão de um sentimento, muitas vezes são marcos na história. Aquele jogo de ping pong talvez não tenha sido um marco na história, mas não deixou de ser palco de uma atitude disruptiva e que muito nos serve para questionar o programa da competição que introjetamos como parte de uma “naturalidade” humana.
Não há naturalidade em se combater. Na verdade, se pensar bem, competição é apenas uma questão de ponto de vista. Um predador que caça sua preza a persegue não porque a sobrevida dela representa uma ameaça para ele, mas simplesmente porque tem o instinto de alimentar-se.
E ainda que assim fosse, exercer a grandiosidade humana está justamente aí, em reinventar seu próprio modo de viver. Por esta razão que o passado é tão diferente do presente.
Somos modificadores, mas há transformações que atingem uma profundidade especial, e que só são inspiradas quando sob nossas inteligências reflui um sentimento, aquele que te levanta para uma súbita ação, inesperada e imperceptível para você mesmo, tal como o que marca o registro histórico destas imagens que se seguem. O estudante chinês encarando uma coluna de tanques em Pequim provavelmente não fazia a menor ideia de que ele chegaria a tal ponto. Mas se existia uma motivação, ela desencadeou o sentimento. Tal motivação era a paz e tinha relação com todas as outras pessoas que partilhavam da esperança de um futuro melhor. Assim, é certo dizer que ele tinha um propósito e que este era o bem comum.
Este vídeo subsequente é uma matéria que trata sobre o paradeiro desse estudante.
https://www.youtube.com/watch?v=SB0EvJYgHKg
Pense nisto com grande dedicação.