Dilma, Ciro, Janaína e as falsas simetrias


As falsas simetrias do binarismo sem limites
Nesses últimos dias, culminando em um discurso inflamado e performático da autora do pedido de Impeachment de Dilma Rousseff, Janaína Paschoal, muitos comentários tentaram traçar paralelos entre a capa da Isto É (alegando que Dilma estaria histérica e descontrolada), Ciro Gomes (xingando e atacando manifestante em frente à casa de seu irmão) e a fala da jurista (em manifestação de ex-alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco — USP). Mas como evitar tanto os binarismos tendenciosos quanto as falsas simetrias nesses episódios? O que eles tem em comum? Podem ser comparados ou tratam de fenômenos distintos?
Com o peso da nossa história em alegar histeria ou loucura em mulheres que não se submetiam ao poder do homem, o machismo se fortaleceu e tirou qualquer prerrogativa das mulheres simplesmente serem vistas como iguais ao demonstrar qualquer tipo de emoção. Ao próprio homem foi retirado isso na medida em que a civilização matou seus instintos para o florescimento de uma razão de meios, fria, calculista e instrumental. A forma com que foi construído o estereótipo do homem fez com que fosse também construído um estereótipo feminino para permitir ser subjugado, controlado e dominado com mais rapidez e eficiência.
Ciro Gomes, com muito menos ênfase, foi mais julgado como um “cabra macho” do que por adjetivos deletérios, embora também tenha sido chamado de destemperado e ‘esquentadinho’, chegando um dos movimentos pró-impeachment (Endireita Brasil) a oferecer mil reais de ‘recompensa’ a quem o provocasse em um restaurante nessa semana (prêmio que seu filho provavelmente ganhará ao ter tido a brilhante ideia de provocar o pai na mesa e filmar o episódio). Em geral, como aconteceu, em casos assim surge algum valentão (mais valentão que o próprio) querendo tirar satisfação, mas nunca o desprezo ou aquele menear de cabeça em desaprovação como que dizendo “não tem jeito mesmo”.
Dilma, por sua vez, foi retratada pela Isto É como uma mulher fora de controle, histérica, fora da realidade, em franco desequilíbrio emocional diante do pedido de impeachment e do consequente processo em andamento da Câmara dos Deputados. A diferença é que não há vídeo algum. Apenas a montagem mal feita de uma foto que, segundo foi apurado, foi tirada durante as comemorações da Copa do Mundo. No mais, aquelas evasivas de sempre: “um assessor de alto escalão ‘teria’ dito…”. Particularmente não penso que, diante da tensão que esteja vivendo, Dilma esteja tranquila cheirando o perfume das flores ao redor do Palácio da Alvorada, mas daí insinuar que ela não teria condições emocionais de cumprir seu mandato por desequilíbrio é algo que, se verdade, sequer deveria ser tratado como foi. Está claro o machismo da revista querendo resgatar a impugnabilidade da capacidade feminina de ser eficaz naquilo que se dedica a fazer.
No dia 05/04/2016, o discurso daquela que é responsável pelo pedido de impeachment de Dilma Roussef junto com um dos fundadores do PT, Hélio Bicudo (e sob seus aplausos), poderia ter inaugurado um quadro interessante nesse cenário como um todo, inclusive dando respaldo a certa análise feita pelo filósofo Paulo Ghiraldelli, que escreveu um artigo em seu site dizendo que sente medo de pessoas equilibradas, tal como Temer: fleumático e sempre calmo. Concordo com ele nesse aspecto. Em seu artigo ele ainda lembra o caso em que uma foto antiga da Letícia Sabatela foi usada para dizer que ela não passa de uma drogada e bêbada por isso apoia o governo Dilma, sendo que ela é apenas contra o impeachment, não a favor do governo, como também o ator Wagner Moura.
De qualquer forma, embora seja possível realmente temer muito mais pessoas equilibradas que as que se permitem surtos periódicos, penso que esses casos todos tem claros limites para serem comparados. Uma coisa é você ser vítima de montagens fotográficas e de difamações sexistas. Outra é você reagir a um ataque com destempero e ir tirar satisfação com os responsáveis. Mas outra ainda, é revestir-se de messias, incorporar o gestual pentecostal, falar a uma multidão incitando o ódio de forma inflamada e claramente alterada, criando um binarismo baseado em ameaças que coloca sempre “eles” contra “nós”.
Ghiraldelli afirma que Janaína estava possuída sim, de indignação. Mas não era só isso. Ela precisava transferir essa indignação a todos. Não concordo com nenhuma crítica que reduza o vídeo em que Janaína professa seu discurso de que se trata de uma mulher louca. Ela não é uma mulher histérica, de forma alguma. Assim como Dilma não é. Ela é uma professora de direito, uma jurista famosa, alguém de credibilidade. Sobretudo uma mulher, e mulheres não são simplesmente loucas, tanto quanto homens não são. Ela sabia o que estava fazendo e o fez porque era a melhor estratégia naquele momento. Por mais bizarros que sejam seus gestos ou despropositado que pareça sua postura neopentecostal, ela está mais do que alinhada à estratégia da direita em inflamar a indignação seletiva das pessoas, recrudescer o protofascismo e utilizar o que estiver disponível para favorecer o projeto de poder que ela representa ou tenha internalizado em seu ideário. Assim, assistimos da mesma forma, bloguers fazendo index de artistas que não deveríamos dar atenção (Rodrigo Constantino), vloguers chamando desafetos políticos para briga ou fazendo acusações pessoais (Nando Moura e Olavo de Carvalho) e toda uma mídia corporativa construindo inimigos e separando o país para que a diferença existente já não seja mais de formas de pensar ou sequer existencial, mas substancial, onde o outro, o desajustado, o destoante, o diabo, cobra ou outros epítetos excludentes, seja proscrito ou, melhor ainda, eliminado.
Então, por favor, não diga que Janaína está surtando, que seja louca, histérica ou que incorporou a pomba-gira, nada disso. Ela está cumprindo um plano muito bem articulado e capilar de destruição sistemática de uma forma de pensar que vai muito além de depor a agonizante Dilma ou o cambaleante e nauseabundo PT. E assim como os programas da madrugada na TV aberta ou as pregações inflamadas no púlpito das ‘pequenas igrejas, mas grandes negócios’, Janaína inflama o ódio com base na fabricação do binarismo, inflama a indignação das pessoas de forma seletiva e direcionada, se colocando como uma delas e separando o mundo entre “nós” e “eles”. Isso mina a esperança e, automaticamente, livra o país de se conscientizar do verdadeiro cancro que a Lava a Jato descobriu, mas também tenta esconder.
Gilberto Miranda Junior é licenciado em filosofia pelo Centro Universitário Claretiano, estudou ciências econômicas na Universidade Guarulhos (UnG) e é membro pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia (CEFIL), ligado à Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).