Empreendedorismo Líquido e as empresas do futuro

Como a independência e a interação entre as pessoas está transformando o modo de vida e o sistema de trabalho.


Pessoas já são as empresas do futuro. Isso não significa dizer que deixará de existir o modelo de empresa tradicional. Significa que ambos irão coexistir no mundo.

Com o desenvolvimento da internet e a origem das mídias sociais, um fenômeno chamado mundo pequeno aconteceu. A conexão entre pessoas separadas por distâncias globais tornou-se instantânea e isso reduziu os graus de separação entre você e qualquer outra pessoa do planeta. Se antes eram considerados seis graus, agora, possivelmente, está a menos de três.

Assim, cada vez mais pessoas interagem. E quanto mais interação, mais insights, maior o fluxo de ideias e novos negócios. Basta lembrar do processo de brainstorm. Algo deste processo é valioso, apesar de que ele tem suas limitações à criatividade. O fluxo de insights é mais pleno quando há a livre interação. Reagente + Reagente = Interação + criação + aprendizado.

A tecnologia se desenvolve neste processo. A exemplo da multiplicação das mídias sociais, que tem proporcionado cada vez novas formas de interação - esquema no qual encaixa-se o caso do próprio Medium, mídia pela qual posto originalmente este texto.

E aonde tudo isso está a levar?

É aqui que retomo o que foi falado no início. As pessoas já são as empresas do futuro. Estamos descobrindo a possibilidade de gerar valor para o outro através da atuação pelas mídias sociais, pelas criações na web. Se por ora ainda não encontramos o modo ideal de monetizar nossos esforços, já estão, por outro lado, surgindo novos arranjos de monetização de negócios e produtos, como o financiamento coletivo (crowdfunding) e outras diversas alternativas de precificação.

De tal modo, em tempo breve, outras configurações de remuneração aparecerão. As pessoas já produzem valor. Ganham com isso repercussão e ampliam sua rede de interação, sua rede social.

Será preciso, entretanto, vislumbrar o trabalho de um ponto de vista atemporal. Ou seja, é preciso conceber o fracasso como parte no caminho e desapegar-se da nossa necessidade imediata por resultados. Eles serão construídos a longo prazo e fitando uma vida inteira, já que, se as pessoas são as empresas do futuro é adequado que suas vidas representem o modelo de negócios, como forma de comparação. Isso porque na trajetória de qualquer pessoa é natural que ela cometa erros. E, estes, ainda tem grande impacto na visão das pessoas em relação às outras, sendo necessário mais tempo para dissolver-se a impressão.

Por fim, isso traz à mente a concepção de um empreendedorismo líquido. Se as pessoas se tornarem as unidades de geração de valor, então inverte-se o processo atual. As empresas/instituições são unidades de geração de valor que empregam pessoas para executar aquele, e somente aquele, específico trabalho para ofertar ao consumo de outras pessoas. Agora, cada vez mais, pessoas independentes ofertam sua geração de valor para o consumo das empresas/instituições que, há certo tempo, detinham o monopólio da geração de valor.

O empolgante e fascinante disso tudo é que vários cenários futuros podem ser contemplados, o que nos dá esperança no mundo e um incentivo essencialmente vibrante.

Primeiro, a origem de mais alternativas de nulo ou baixo custo é uma tendência. Produziremos valor e as empresas remanescentes talvez tornar-se-ão estações da escalabilidade do valor. Ou seja, proporcionarão a fonte de recursos que munirá parte da população para distribuí-lo — o que nos permite a conclusão de que o futuro do emprego é a possibilidade de escolher o modo como você quer trabalhar, seu objetivo no trabalho (se quero ser ou quero ter).

E também o futuro da política e do sistema como um todo talvez aí esteja. Essas estações do valor, como denominei acima, podem englobar as atividades que competem ao governo. Com a produção de valor migrando para soluções práticas, compactas, mobiles e de baixo custo — lembro de exemplos como os da impressora 3D, o avanço da robótica, soluções coletivas, energias alternativas, etc. -, talvez após algumas boas voltas em torno do sol, tais estações absorvam as funções do governo entregando sua oferta segundo os ditames de seu único e maior cliente, as próprias pessoas.

Assim, a democracia seria exercida mais pura e diretamente.

Quanto tempo todo este processo vai levar para eclodir?

Sabe aquelas vezes em que você se surpreendeu com o avanço tecnológico em um curto espaço de tempo e se perguntou: Se é assim agora, imagina como será daqui a 100 anos. Então alguns séculos depois dá pra se surpreender com isso? Quem sabe em menos tempo. A verdade é que algumas coisas já são realidade praticamente consolidada agora. E aqui vem a parte do incentivo:

Interaja o máximo que puder. Busque pessoas, roube amigos. Conviva! Invista na convivência com o — para utilizar a expressão que li pela primeira vez em um texto do autor Augusto de Franco — outro-imprevisível, aquele que você não conhece, que não faz parte ainda do seu círculo de amigos. O desconhecido. Esqueça agora o que disseram pra você quando criança, sobre não conversar com estranhos. Na infância se justifica, mas agora já é hora de superar isso.

Portanto, se você ainda não utiliza as mídias sociais, entre nas principais e em todas que puder e que lhe interessar! Conecte-se com as pessoas que tiverem quaisquer ligações com você. Aproveite inicialmente o recurso virtual para gerar empatia, posteriormente vá para interações presenciais. Aproveite as praças da sua cidade. Junte pessoas e vá para os espaços públicos cocriar alguma coisa, realizar troca de livros, troca de ideias, conversas fortuitas sobre qualquer coisa, leitura compartilhada. Monte uma horta comunitária, faça intervenções artísticas surpreendentes, ou quaisquer campanhas para chamar atenção a causas de valor pra sociedade. Crie novos negócios. E espalhe, pregue, proclame e levante a bandeira da interação e da convivência.

Essa é a nova modalidade do empreendedorismo. Pode chamá-lo de empreendedorismo líquido, empreendedorismo coletivo ou do que quiser. Mas esta função de construtor de fluxos tem um nome: Netweaving.