Mais Ótica Social, Menos Ótica Política
E o que você está a ver nesta imagem?


Pode-se ver esta imagem de duas maneiras diferentes. Octavio Ocampo é conhecido por pintar obras que sempre remetem a duas ou mais perspectivas. Seguem mais duas delas abaixo…




Esta outra interessante obra de autor que não consegui descobrir quem é, é peculiar.


É bem provável que você esteja enxergando um casal. Mas se experimentar perguntar a uma criança bem pequena, certamente ela vai enxergar vários golfinhos.
São imagens que vou utilizar para propor uma reflexão importante. Repare que não há, aqui, perspectiva certa ou errada, não há imagem principal e subjacente. Há uma escolha que cada um faz quanto a qual perspectiva ver. Esta escolha pode mudar, e ela muda muitas vezes. Pode mesmo misturar-se numa coincidência consequente da compreensão da existência das perspectivas que estão ali, mas é, e sempre será, uma escolha própria a si mesmo pelas razões que o decurso da sua vida justificam.
Se assim são com estas obras, por que seria diferente em questões que nos tocam como seres sociais que somos, isto é, que convivem e interagem continuamente entre si?
Há domínios de acontecimentos em que “caçar” uma ótica certa ou errada não se aplica. E nada resolve, mas ao contrário, os conflitos se agravam quando a possibilidade de opção é transformada no problema. Assim, muitos brasileiros tem feito o jogo da “política institucional” — forma como vou designar esta nossa política representativa. De tal modo, acabam por “ignorar” o papel político em si, ao qual ninguém pode se desobrigar, embora possa se omitir, consciente ou inconscientemente. O papel político se dissocia e distingue do voto — e tem pouco haver com este — , das estratégias, das manipulações. O papel político acontece no seu dia a dia e se faz na convivência que se dá no seu “mover-se” no mundo, em quaisquer lugares pelos quais você passe no decorrer de seu simples cotidiano. Mas a força de empuxo do câncer “político institucional”, social, cultural, e portanto (ou consequentemente) estrutural tem nos arrastado para uma polarização ao qual é difícil, mas preciso, resistir.
As disputas e discussões acaloradas em torno dos eventos nos fazem jogar um jogo político que no fim das contas favorece as manipulações mesmas que há tanto tempo degradam e separam a sociedade, que direta ou indiretamente nos atingem.
Isto não quer dizer que tratar dos eventos que decorrem no congresso nacional ou nas três esferas de poder não tenham relevância e influência em nossas vidas. Quer dizer que dentre tudo aquilo que impacta nossas vidas, não são a solução as discussões sobre a cadeia de acontecimentos particulares ao grupo de representantes nas esferas de poder; são sim, parte do problema! São os motivos das perguntas, mas não expressam as respostas, e isto é fato. Por isto, é preciso nos ocuparmos principalmente no sentido de criar saídas que sejam mais instrutivas, construtivas, ou recursivas para desconstruir os problemas ou desvencilhar-se de seus agentes de maneira permanente, mesmo sendo num raio de longo prazo.
Nós, ao contrário deles, somos parte da resposta e solução. Pois a política se tece do social. Precisamos assim, ser menos como “políticos institucionais”, como os que vão aos plenários declamar sua “reprovação quanto as ações que ferem a soberania nacional” num discurso quase sempre vazio ou enviesado por interesses materiais (e pessoais), ou que votam em favor da manutenção de uma relação estabelecida em reuniões a portas fechadas, ou que, como lobistas, negociam a opinião de um e de outro, comprada como num mercado em que há (porque precisa haver) algum tipo de moeda de troca.
Ser menos como “políticos institucionais” e mais sociais. A democracia ao surgir em Atenas, na Grécia antiga, tinha nas Ágoras a formação de uma esfera pública na ação de convivência dos cidadãos (os que eram considerados cidadãos), na interação que conversava a vida e os problemas cotidianos da polis (da cidade) e que tentava a partir da ação e do discurso construir as soluções. Uma das soluções que se culminou foi a da inscrição de um édito que dispensasse os serviços do tirano, governador em questão, por parte dos cidadãos que lhe assinavam. Embora a restrição à cidadania que existia naquele contexto cultural, a lição serve pra nós na medida em que nos vemos vivendo um contexto ao qual as antigas Ágoras ressurgem, agora em moldes virtuais pelo formato tecnológico. A internet remonta as Ágoras em que os cidadãos livremente interagiam. Contudo, ainda são simples espaços, pelos quais as pessoas se dão a trocar “mercadorias” — como foi no começo das Ágoras — e só recentemente começaram a conversar sobre os problemas cotidianos.
O Brasil é um país relativamente novo e também vivenciava em seu passado uma infância democrática. Por esta analogia, podemos dizer que assistimos talvez as agitações da puberdade democrática, em que distúrbios e tensões se expressam nos muitos falares e dizeres, ora desmedidos, ora repreendidos, mas que apresentam para nós uma realidade diferente das experimentadas noutros tempos brasileiros no sentido de como, ou por quantos, por quem e porquês se manifestam.
Está tudo dentro do expurgo natural de um grande problema complexo. O mal que pode decorrer deste processo e que motiva o texto é individual e de ordem espiritual — pra ser tão amplo quanto possível.
É preciso vislumbrar que todos estamos diante um problema complexo com inúmeras e inimagináveis variáveis. O reducionismo de ignorar o fator social e o fator humano em função de generalizações ou padrões aparentes já garante o equívoco e mais atrapalha do que ajuda. É preciso aqui explicar, ao menos superficialmente, o social e o humano.
O ser humano é um ser social, isto é, o humano surge na convivência com outros humanos. Nenhum ser humano completamente isolado se “pessoaliza”. Um ser humano isolado não diferirá do animal — a não ser biologicamente — como casos descobertos no mundo de crianças privadas da convivência humana ao nascerem, que não desenvolveram características fundamentais humanas, como a expressividade emocional. Pra quem não considere a emoção humana fundamental, o neurobiólogo Humberto Maturana vai defender que a emoção é o fundamento da razão. Já o social é produto das relações humanas, ou, talvez mais certo dizer, são estas próprias relações. A dinâmica social produz o cultural, ou, expressa por si própria a cultura. Cada ente humano é fruto do social, da convivência humana continuamente, ao passo que o social também é produto do humano, num dinâmico e simultâneo vice-versa.
Quando generalizamos ou reduzimos um comportamento que é humano e é social a um traço de sua vestimenta, aparência, condição financeira, ou opção, desconsidera-se totalmente a complexidade e contextos humanos e sociais que levaram cada pessoa a tomar sua própria decisão. Isto é ignorar o que há de mais importante para a esfera política. Numa atitude reducionista (no sentido ao qual proponho), acontece não raras vezes de ignorar-se, por exemplo, a minoria existente em meio à maioria, que talvez esteja afinada com os pensamentos de quem julga e que talvez lhes acrescentaria riqueza de compreensão, desfazendo julgamentos superficiais (como a faixa salarial, a cor da camisa, etc.), imprecisos e por isto, inválidos. A minoria de hoje pode ser a maioria de amanhã.
O posicionamento ao qual esse reducionismo tem levado muitos a criar é o de dispensar elementos valiosos para irmos de encontro a perspectivas inovadoras, que efetivamente poderão influenciar mudanças mais expressivas num longo prazo. Ao contrário, é preciso voltar o olhar e se buscar na multidão justamente os pontos convergentes com sua compreensão e não eliminar, destruir, ou agredir os pontos divergentes. A chave que fortemente tem estado ativa em algumas pessoas é a de garimpar as divergências para eliminá-las. Focados nisso, ignoram qualquer possibilidade de garimpar as convergências que possam existir. Reduzem a uma frase o conjunto imenso de variáveis complexas. Reduzem mesmo qualquer possibilidade de interação convergente — porque excluem e determinam ao julgar — em razão da incapacidade temporária de permitir a coexistência de opiniões divergentes.
Expressa isso tudo fortes aspectos intrínsecos de uma cultura patriarcal, até mesmo do mito do herói, que tem, em certa fase, de eliminar a maldade do mundo, que luta contra o vilão e que idealiza um mundo em que não exista a maldade absolutamente. Assim, qualquer um que seja pra mim representante do mal deve desaparecer, ser eliminado ou, no mínimo, dobrar-se aos meus comandos, à minha superioridade, à minha vitória, ao meu sucesso.
Contudo a reflexão precisa existir: Você, nem ninguém, nasceu pronto. Não nasceu com Princípios pré-determinados e não há um determinismo familiar para que se possa acusar seus pais de fracasso caso estes não terem sido capazes de te demonstrar tais Princípios universais de convivência. E em essência, pensar assim estaria errado, pois nós mudamos com o mundo, de forma que os princípios que são essenciais à convivência hoje são diferentes, em alguma medida, dos essenciais à convivência no passado.
Nós precisamos de tempo para descobrir e encontrar aquilo que iremos determinar como Princípios. Este tempo, inclui um conjunto de experiências conforme nossas escolhas, nosso plantio, que resultam numa consequência, numa colheita, que em algum sentido trará aprendizado. É preciso assim, ter o benefício do erro durante esta fase de aprendizagem pelo qual passamos, que pra ninguém pode ser definida. Para termos tal benefício, é importante que se dê também ao outro a mesma oportunidade.
O que isto significa? Significa que mais vale a nós nos ocuparmos em construir a nossa própria ética do que nos pré-ocuparmos com a falta de ética do outro. Não significa isto ser conivente com os erros ou contribuir para que um erro saia impune e não seja censurado. É apenas uma questão de ordem de valor. O que muito frequentemente se faz é dar mais importância a detectar e se pré-ocupar com a falta de ética do outro e dar pouca atenção à construção de seu próprio Ser ético. E esta construção se dá a partir das reflexões, da busca de convergências e da possibilidade de se conviver com as divergências sem pretendê-las aniquilar. As generalizações que dividem — porque classificam uma grande massa de pessoas sob um único critério extremamente superficial –, se combinam com o julgamento que, em certa medida, exclui, sendo massa ou indivíduo.
Quem assim faz se afasta da convivência, se isola de contrariedades e de identificar novas variáveis envolvidas no problema. Fica assim mais distante da solução. Esta irá surgir da convivência, tal como a convivência esteve envolvida na própria origem da democracia. Em certa medida, quem evita a convivência se desumaniza. Mas não quer dizer isto também que conviver é viver próximo de quem não temos qualquer afinidade ou divergimos. Entenda bem, a convivência é o reconhecimento, o respeito e a valorização da humanidade que há no outro. Não tem isto necessariamente relação com a empatia que possa existir ou estar ausente. Tem relação, justamente, com o reconhecer e cultivar o que há de bom em todo humano, pois isto é um contributo ao auto-conhecimento de si, do ser humano e sua natureza social.
É preciso assim que as opiniões divergentes consigam coexistir. É essencial existir a convivência e fundamental que a interação se dê neste conviver, afim de que surja o conversar construtivo (aprendizagem) capaz de reinventar as relações e provocar inovações estruturais profundas.
Essencialmente, todo ser humano é um vir-a-ser. Ninguém é como uma estátua de sal, engessada no passado, incapaz de mudar minimamente. Sem olhar aqui com reduções, o ser humano pode a qualquer momento mudar, essa possibilidade é permanente e constante, e ainda que isto não se verifique, melhor será se cada um de nós significarmos a esperança para o outro, buscando e sempre estando disposto a tentar extrair dali alguma força de mudança, se não para ele, então para si.
Outros reflexões minhas sobre Política que considero essenciais. Antigas, porém, atuais:
Mate o Inimigo do Estado de Espírito
https://medium.com/o-construtor-de-fluxos/mate-o-inimigo-do-estado-de-esp%C3%ADrito-abf4b64f4763#.g56xasxsb
Uma nova Dimensão para a Vida Política
https://medium.com/o-construtor-de-fluxos/uma-nova-dimens%C3%A3o-para-a-vida-pol%C3%ADtica-cbe2653be51d#.ds3m2ouky
Independência ou morte? Parece que escolhemos a morte.
https://medium.com/o-construtor-de-fluxos/independencia-ou-morte-parece-que-escolhemos-morte-f990fd2dbc8#.2828hetc9