Não começou em Junho de 2013; não vai terminar na Copa de 2014.

Análises e sugestões para a consolidação da democracia brasileira. 


Temos desconfiança e ódio sintomáticos em relação à classe política brasileira. Desacreditamos da justiça, da educação, saúde e segurança pública. A gente acredita mesmo é no Neymar. O moleque — coitado — pouco tem a ver com nosso caos estrutural, mas recebe atenção demais, vira simbologia na mão de manifestante. Infelizmente Neymar não é nossa solução. Se fosse, teríamos chance de mudança.

Há diferentes maneiras de se torcer pelo Brasil. Mas, como cidadãos totalmente desconfiados do poder público, só há uma maneira de acreditar nele: sendo parte da mudança. Odiar política ou artigos como esse que proponho são — também — razões para manutenção de uma democracia, desculpe, de merda.

Ao longo da história tivemos mudanças constantes nas relações de poder.

- Houve uma era em que praticamente todas as pessoas que discordavam ou eram desajustadas do Estado eram assassinadas;

- Momentos depois, a história mostrou que líderes revolucionários eram assassinados, assim outros dissidentes recuavam;

- Em períodos mais recentes, a grande maioria das lideranças era torturada e presa. Alguns assassinados;

- Com o avanço do Estado Democrático de Direito, algumas coisas mudaram. Sim, dissidentes continuam a ser presos aos montes, mas as pressões feitas por ativistas e por entidades de Direitos Humanos têm papel fundamental: garantir que nossa constituição não seja um mero livro.

Percebem como são lentos — a passos de formiga — os movimentos de libertação da sociedade em relação às estruturas opressoras? Como é gradual e quase imperceptível — mas fortíssima — a elevação de consciência? Longe de mim dizer que não existe perseguição, tortura e assassinatos por parte do Estado; o Estado ainda forja, espanca e elimina o pobre no Brasil. Temos uma democracia seletiva, portanto, frágil.

Uma democracia não deve punir as supostas incompetências com miséria e discriminação. No papel, a constituição brasileira tem itens importantíssimos e garantidores de direitos fundamentais:

Fonte: https://www.flickr.com/photos/agenciasenado/sets/72157642256589444/

O grande lance é: na prática, muitos desses itens são pisados e cuspidos pelo Estado brasileiro e sua polícia militar. Se você não é uma vítima dessa violação de direitos, que sorte. Isso não impede que você saiba: muita gente é. E nada justifica isso.


Ao meu ver as seguintes pautas podem ajudar a consolidar a democracia, a liberdade e o respeito que o Estado brasileiro deve ao cidadão.:

- Legalização das drogas como maneira de acabar com a guerra às drogas. Se não é só pobre que vende/consome droga, porque ela só é combatida na porta da casa dele? Guerra às drogas é guerra aos pobres.

- Desmilitarização da polícia — PEC51 — Desmilitarizar não é sumir com a polícia e recorrer ao Batman em momentos de perigo. Uma polícia constituída sem hierarquia militar pode servir melhor uma sociedade civil. A polícia em tese tem o dever que resolver o problema da segurança pública. Hoje ela apenas reprime e não tem aval do Estado pra fazer diferente disso. Não há saída pacífica no modelo atual. Sofre população, sofrem policiais da linha de frente.

- Fim de doações empresariais para campanhas políticas. Se uma construtora dá 10 milhões para a campanha de um governador, você acha que o cara, se eleito, governará pra você ou para a construtora?

- Reformulação completa no sistema educacional. Hoje a escola não é um lugar interessante para o aluno. O modelo atual de escola trabalha com obrigações típicas de adultos e esquece a importância do lado lúdico para lidar com crianças e adolescentes. O conteúdo ensinado nas escolas é, na maioria das vezes, muito pouco utilizado na vida real. Os professores não devem ser os únicos responsáveis diretos pelos alunos. Simular a vida adulta não funciona para educação e formação de cidadãos pensantes.

- Reformulação no sistema carcerário. Tratar um ser humano como rato de esgoto e esperar que ele saia da prisão cheio de amor no coração é, no mínimo, incoerente. Os direitos humanos se chamam direitos humanos, não ‘direitos do cidadão não criminoso’. Criminoso é ser humano. Precisa ser tratado assim para que tenha chance de recuperação. O modelo atual só ajuda no aumento das taxas de violência. Além disso também devemos evitar a expansão do modelo norte-americano em que as prisões têm acionistas, ou seja: quanto mais presos, mais dinheiro no bolso de alguns.


Claro que há muitas outras pautas importantes para o nosso desenvolvimento democrático, mas são essas que eu julgo como importantes para debate nesse momento. Creio eu, elas aceleram essa adaptação do Estado Democrático de Direito brasileiro ao novo modelo de consciência. Nossas ideias estão em pulsante evidência.

Nós, como povo, temos o dever de nos apoderar da Internet. Do poder organizacional que ela tem. Nossa voz, aqui na web, faz eco. Não percamos o foco. Se a rua esvazia em dados momentos, a Internet não esvazia nunca mais. Porque essa coisa linda chamada revolução do pensamento brasileiro não começou em Junho de 2013 e não vai terminar na Copa de 2014.


Discorda da análise ou das sugestões? Criemos um debate saudável. Apresente dados e pontos relevantes que exibam sua discordância e demonstrem que tais pontos sugeridos podem levar a sociedade brasileira a uma democracia menor.

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