O dia em que parei de me chamar de feminista
Um retrato da opressão exercida pelo feminismo radical através do depoimento de amigas entristecidas.
Eu amava Os Batutinhas. Lembro-me que quando o filme era exibido na Rede Globo, todos os meus colegas do jardim de infância iam dormir um pouco mais tarde para adentrar no maravilhoso universo daquelas crianças. Durante o dia seguinte, a sala se dividia — geograficamente — entre o lado dos meninos e o lado das meninas, e gritávamos para nossas colegas: “MENINAS, URGH”, e elas respondiam: “MENINOS, URGH!”
Eu tinha uma namoradinha, seu nome era Marcela, e uma grande amiga, seu nome era Fernanda, e lembro de ter ficado completamente destruído quando Priscylla, a queen bee, me proibiu de falar com elas naquele dia por ser menino. Eu não gostava muito de brincar com os garotos (só com meu amigo Daniel), gostava de misturar as coisas, fazer algo que todos pudessem fazer, e não me restringir a colisões frontais de carros de plástico. Convidei Priscylla para um acordo diplomático, e ela disse que daria-me um doce se eu chegasse para meus amigos e afirmasse a superioridade feminina, abrindo mão da comunidade dos pintos pequeninos.
O fiz, sem pestanejar, pela liberdade de pegar na mão de Marcelinha e brincar com Fernanda. Obviamente, o Clube do Bolinha não viu isso com bons olhos, mas crianças têm memória curta, e as coisas se esqueceram no dia seguinte.
Minhas tias e minha avó tiveram participação direta em minha criação. Sempre fui ensinado que as mulheres deveriam ser respeitadas, que homens opressores eram babacas, que mulheres submissas eram o retrato de um sofrimento e que um ser humano não é definido por sua genitália. Minha avó foi trocada por outra mulher, criou sete filhos praticamente só, e isso afetou a família como um todo. Sou filho de mãe forte e de pai respeitoso e sensível, cresci num lar onde homem e mulher tinham a mesma voz e dividiam as contas, onde meus pais sentavam juntos para falar sobre problemas financeiros, homem chorava, e meu pai ajudava minha mãe a tirar pelos encravados das pernas que ela depilava por vontade própria.
Na segunda série, 2002, retornei ao colégio onde passara o Jardim de Infância após dois anos de hiato. Dois anos são uma eternidade para um garoto. Eu era o menino tímido, com verrugas nos joelhos, gordo, dentuço, chorão e sensível demais. Os garotos pegavam no meu pé, as meninas falavam sobre coisas que não interessam a meninos, e fiquei sozinho por um tempo. Meu grupinho se formou com três meninos e uma menina. Imaginativos, criativos, amantes das cores, de filmes legais e planos mirabolantes pro futuro. Eles me acompanharam até a oitava série, e quando brigávamos, os dois meninos iam para um lado, e eu e a menina, Letícia, íamos para outro.
Foi na oitava série, 2008, que descobri que meus ideais tinham um nome, e esse era “feminismo”, foi fascinante e um pouco confuso descobrir que não era necessário ser mulher para defender o movimento da igualdade, comecei a pesquisar sobre, recriar ideais engessados, falar às minhas amigas sobre suas devidas importâncias e comparecer a eventos voltados à causa.
No ensino médio, durante minha trajetória religiosa já contada por mim neste link, frequentei uma igreja onde cada membro tinha um líder, e seu líder devia ter o mesmo sexo que você. Eu tentei burlar o sistema por enxergar apenas minha amiga Erika como figura de liderança religiosa direta. Nunca engoli a história da mulher submissa ao seu varão nem nada do tipo, e continuei contribuindo com o feminismo da forma que estava ao meu alcance. Sem dúvida alguma, fui responsável por mudanças na mente de minha família, amigos e amigas. Eu dizia que vivíamos não num mundo de iguais, mas num mundo de diferentes que devem se ajudar e respeitar.
Foi no meu terceiro ano de Universidade (mesmo que não no mesmo curso) que vi o movimento tomar novas formas. Homens são malvados, mulheres são coitadas, homens estupram, mulheres odeiam homens. Piroco pitaqueiro, feministo machista. E é através de citações e discursos de amigas e conhecidas que venho mostrar como o radfem tem afetado e ferido pessoas de todos os gêneros, sexos, idades, sexualidades e ideologias.
“Hoje eu sinto que não pertenço a nenhum lugar”
Conheci essa garota há cerca de um ano. Tínhamos visões semelhantes em relação ao feminismo, discutíamos muito o tema, até fazíamos piadas um com o outro voltadas ao assunto. Sempre buscávamos nos livrar do machismo, corrigindo discursos e atitudes questionáveis da parte um do outro. O feminismo era parte de nossa identidade, e isso foi pilar na construção de nossa confiança e intimidade. Recentemente, a vi com lágrimas nos olhos, desabafando sobre o assunto, e perguntando se eu ainda me considerava feminista após o ataque das radfems. Falei a ela que não utilizava mais o termo, mas minhas ideologias se mantinham. Falei sobre como ela era uma menina incrível, e um exemplo de ser humano para qualquer pessoa que esteja ao seu redor. Falei sobre como ela é bonita, tirei piadas com sua cara, e mostrei que ela não precisava de um grupo ou de um movimento para ser uma das mulheres mais inteligentes, autênticas, carismáticas e belas que conheço.
Ela ficou feliz em saber que eu também não concordava, e que era possível seguir as ideologias do “feminismo antigo” (termo dela). Confessou que não aguentava mais ser atacada pelas neofeministas por não ceder ao movimento antihomem, e que o feminismo foi importante na sua formação de caráter e planos para o futuro. Contou ainda, cheia de preocupação, que não poderia passar para o lado machista, mas não se sentia mais parte do feminismo. Ela se sente perdida e não sabe onde deve se posicionar.
“Femismo existe sim!”
Tenho uma conhecida de longa data, molestada quando criança por um tio. Inteligente e estudiosa ao extremo, exemplo de força e autenticidade. Foi atacada recentemente por uma radfem numa rede social. Falaram que se ela tivesse sido estuprada (ela foi), saberia como os homens são nojentos, e criticaram seu modo de ver as coisas. Ela sempre gostou da forma como respondo a esse tipo de comentário, e pediu-me ajuda para respondê-la. Não gosto de me envolver nesse tipo de discussão, mas haviam mexido com uma das minhas. Falei sobre a igualdade pregada pelo movimento, de suas conquistas, das definições de gênero, sexo e sexualidade que estavam sendo deturpadas, e de como todos aquele discurso repetido soava infantil. Meu comentário foi apagado, e minha colega acusou a página de femismo.
Foi aí que lhe disseram que femismo não existia, que o machismo não afetava homens, que transsexuais não eram mulheres e que o termo havia sido cunhado por machistas que se sentiam ofendidos pelo movimento. Male tears. Minha amiga desistiu de discutir, e reforçou em nossa conversa privada que o femismo era real, e que qualquer coisas que pregue superioridade de um gênero sobre o outro está equivocado desde sua raíz. Falou de como via homens (heterossexuais) tendo sua sexualidade questionada por não serem promíscuos e respeitarem suas parceiras diariamente, e de como o modelo de homem machista imposto pela sociedade levava meninos à depressão (podendo chegar ao suicídio) pela sensação de não fazerem parte do sistema.
“Homens também são afetados pelo machismo e pela desigualdade da mulher. Imagine o que é o sofrimento de um pai que teve a filha estuprada ou o sofrimento de um filho que viu a mãe sendo agredida e humilhada dentro da própria casa. O que um garoto de 16 anos sofre ao negar fazer sexo com a menina mais gostosa do clube pelo fato de não querer perder a virgindade com uma pessoa qualquer. O peso que cai em cima de um homem por ter o DEVER de cuidar e assumir a frente da família. De não poder ser sensível. Essa sensibilidade é denegrida desde que a cobrança ‘ser homem’ está relacionada a falta de sensibilidade, ser forte. ESSA LUTA TAMBÉM É DELES. feminismo não é um espaço! feminismo é uma ideologia. Não faz sentido nenhum, po.”
[…]
“Pelo amor de santo cristo, ninguém criou o machismo. Vão estudar história, ler a torá, ler o alcorão. O machismo só existe porque mulheres e homens se submeteram a este.”
“Sofri muito por ter uma mãe machista, e sei como ter um melhor amigo feminista me ajudou a criar minha identidade de mulher”
Eu sou o melhor amigo em questão. Falamos agora de uma menina que cresceu em ambiente hostil. Pais separados, padrasto machista e agressivo, mãe submissa e defensora do patriarcalismo tentando fazer de sua cria uma dona de casa perfeita. Felizmente, não deu certo. Lésbica, sem nenhuma vergonha do que é, bem resolvida e defensora de seus ideais. Vivemos nossa crise aborrescente juntos, e o feminismo sempre fez parte de nossa relação. Ela sempre vem me questionar sobre as coisas más e perfídias do mundo, e sempre quer saber meu posicionamento acerca das coisas. Ela respeita meus ideais por saber que, durante muitos momentos, o apoio que ela precisou para consolidar-se como mulher livre veio de seu amigo.
Não pensem que falo isso para falar de como sou diferente dos outros homens ou para mostrar que nem todos os homens são iguais. Conheço, e ela também conhece, dezenas de homens de mente admirável, assim como conhecemos dezenas de mulheres de mente limitada e opressora. Tentar restringir um estereótipo baseando-se em um órgão é como dizer que uma porta e uma barra de chocolate são iguais por serem retangulares.
“Queria saber quando foi que tudo deixou de ser sobre igualdade”
Foi o encerramento de nossa conversa. Ela estava sentada, no canto da parede, evitando tocar no assunto. A deturpação do movimento que regeu sua vida e juventude era um tema muito delicado para ela. Tentamos lembrar de onde a curva havia sido feita, como tudo tinha se transformado e não fomos capazes de encontrar o momento exato. Ela se irrituou ao falar sobre como o discurso das rads era idêntico, e como um movimento de pessoas livres havia se metamorfoseado em uma espécie de seita misândrica de seres robóticos e gritantes.
“Ela disse que gostaria de poder salvar as mulheres do libfem. Eu não preciso ser salva, eu não preciso ser doutrinada.”
“Ela riu de mim quando eu disse que genitália não definia gênero”
Essa é a parte que mais me assusta. Apesar de eu não ser muito ativo no movimento LGBT, sei que o espaço que ganhei, como homossexual, dentro da sociedade, se deve a ele. O movimento feminista é pai do movimento LGBT.
“Quando falamos em gênero, estamos nos referindo ao sexo social, isto é, a uma complexa estrutura social que, a partir do nosso sexo biológico determina diferentes processos de socialização que perpassam todas as relações, enquanto indivíduo homem ou mulher. Assim, nascemos com uma vulva ou pênis, mas só a socialização nos tornará homens ou mulheres”.
DUARTE, Maria Luiza (Coletivo Mulher Vida)
Juntar novamente os conceitos de sexo, gênero e sexualidade é retrógrado, repressivo e irracional. O próprio feminismo foi essencial na desconstrução do do gênero atrelado à genitália. Não é legítimo sair gritando esse tipo de coisa por aí após anos de estudos do assunto na história, sociologia, antropologia, psicologia, biologia, genética etc etc etc. É deprimente, não há outro termo. É deprimente. Quando eu olho para uma pessoa, vejo uma pessoa, não seu pênis e/ou sua vagina. É desconfortável e neandertal reduzir o universo que vive dentro de uma mente a seu corpo.
“Ela veio dizer que eu não tinha essa de homem negro, homem gay, homem trans, todo homem é machista, e disse que eu aceitasse que doeria menos.”
Um homem não é igual a outro homem, uma mulher não é igual a outra mulher, um homem não é igual a uma mulher, um irmão não é igual ao seu gêmeo, uma filha não é igual a sua mãe. Somos mamíferos, nossa reprodução não se dá por clonagem. Somos acidentes genéticos, a essência da variabilidade. Somos mentes brilhantes, seres criativos e sobreviventes. Não vejo um homem ou uma mulher ao olhar as pirâmides do Egito, não vejo um autor ou uma autora ao ler um clássico, não vejo um diretor ou uma diretora ao me emocionar com um plano perfeito numa tela de cinema. Somos todos pessoas, e isso é maravilhoso.
“E eu NUNCA me rendi. não tenho medo de apanhar não. Dou minha cara a tapa. Eu não poderia lutar por tudo isso se eu me submetesse a toda essa prepotência.”
Meninos, meninas, intergêneros, homo, bi, hetero, ou pan. Nunca se rendam ou deixem de lutar por aqueles que precisam de você. Ninguém é um órgão, somos um conjunto de acasos.