O trem desgovernado da desinformação vai atingir você.

A maior parte de meus artigos tem uma pegada polêmica mesmo, assumo. E, como bem disse Bia Granja, eu muitas vezes sou meio "ríspido" em minhas colocações. Em minha defesa eu posso me definir como um homem de opiniões fortes, mas prefiro assumir esse tipo de técnica como a minha primária, o que gera, claro, alguma resistência de pessoas mais moderadas — que curtem aquele artigo nhenhenhem, bem em cima do muro, que não cutuca nada nem ninguém — e mais ainda de desafetos — são poucas as pessoas que admitem ter suas posturas/campanhas/agências/técnicas criticadas, é bem aquilo de "critique um sábio e o fará mais sábio, critique um idiota e fará um inimigo". Eu colho o ônus e o bônus de escrever — e ser — assim. Reduzi muito minha participação em eventos e palestras porque estava cansado daquela coisa de todo mundo sorrindo e concordando sobre tudo, por mais que se ache uma bobagem o que se está sendo colocado. Não dá, desculpa.

O fato de eu criticar algo que todo mundo paga pau não é o que incomoda o quem lê meu texto, o que incomoda é que meus argumentos devem fazer as pessoas reavaliarem toda a pagação de pau passada e, algumas vezes, sentirem-se estúpidos. "Puta merda, eu realmente elogiei isso, não tinha olhado por esse lado… ah, mas não posso voltar atrás, não posso e não vou, vai pegar mal". Amigo, quem tem ideia fixa é doido. "Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro", sábio Juscelino Kubitschek.

É mais fácil ficar chateado comigo por sentir-se assim do que assumir a responsabilidade pela opinião dada… bom, mas voltando ao bode no meio da sala… Raramente penso sobre o assunto, sobre como MINHA opinião exposta em um artigo incomodaria alguém, apenas escrevo sobre o que quero, como quero (para desespero de associados e amigos).

Porém essa semana me peguei pensando nisso. Ao ter um texto meu divulgado em um grupo de discussão sobre Mídias Sociais um sujeito comentou no post algo como "não leio textos desse cara, não gosto de como ele escreve e tenho problemas pessoais com ele". Fiquei duplamente surpreso, não por ele não gostar de como escrevo, muita gente não gosta, muito menos de ter problemas pessoais comigo, muita gente tem. Mas, bom, não entendo como alguém que não conheço, a quem ignoro completamente — e não, não estou sendo arrogante agora, estou expondo um fato — pode ter problemas PESSOAIS comigo. Mas esse é apenas um detalhe perto do ponto mais preocupante: o fato do sujeito ser uma liderança dentro de uma agência de comunicação e alegar que não lê determinado texto por diferenças com o escritor (pessoais e… de técnica?).

Me preocupa porque a melhor forma de se desenvolver critérios é sorvendo informação valiosa de onde ela vier, independente de concordar ou não. É assim que construímos as balizas de nosso conhecimento, não? Isso me lembrou quando Cynara Menezes alegou não debater com quem tem opinião diferente da dela. Ué, existe debate quando todo mundo concorda? É justamente por buscar gerar essa "discordância" que chamamos esses artigos de provocações, porque o objetivo é tirar o leitor da zona de conforto, é fazê-lo pensar, e não necessariamente fazê-lo concordar comigo. Claro, ele sempre pode alegar que acha que não exponho informações valiosas. E espero que, se usar esse argumento, seja uma verdade e não apenas uma desculpa. A questão não é quem escreve, é sobre o que se escreve, é se o conteúdo é real, se faz sentido, se constrói ou até mesmo se, de forma inteligente, desconstrói.

Eu sou um tanto ríspido, sou muito crítico — mas também muito criterioso, e, muitas vezes um tantinho arrogante (e defendo que arrogância é como pimenta, um pouco dá gosto, demais estraga), eu sei. Eu sou chato, eu vivo repetindo isso. Mas, amigos, se me permitem a ausência de modéstia, sei que escrevo relativamente bem e que entendo muito da minha área. Muito, não tudo, que fique claro. NINGUÉM entende tudo de uma área tão viva, que muda numa velocidade tão grande. Sabe, ainda assim a maior parte de meus textos faz pensar. Coloca a pulga atrás da orelha. Dá um freio de arrumação em uma área onde as pessoas batem palma pra qualquer merda (na pura babação de ovo) ou criticam cegamente, sem qualquer embasamento (para puxar o tapete de alguém). E na publicidade é assim, e na digital é assim vezes dois. Na maioria das vezes o objetivo é fazer as pessoas debaterem, fugirem do "a estrelinha está sempre certa" e do "meu desafeto está sempre errado"… e evoluirem com isso.

Mas quando uma liderança de uma empresa, que devia dar o exemplo pros seus, defende uma posição como essa, sim, isso me preocupa.

Até mesmo porque sinto que não devia estar surpreso.

Infelizmente.

Entenda uma coisa: muitas vezes quem lhe critica quer lhe ver crescer, muitas vezes quem lhe elogia quer lhe derrubar. Nem sempre é fácil identificar quem é quem então o mais acertado é não tomar nenhum deles imediatamente como inimigo ou como amigo, mas assimilar o que foi dito, seja crítica ou elogio, avaliar de forma criteriosa, e usar isso para evoluir.

Mas é raro encontrar quem pense assim.

Pegue o caso do "cheio de problemas pessoais com autor". Ele é apenas mais um no mar de cidadãos que realmente acreditam que "bom gosto é aquele gosto que é igual ao meu", ou seja, que dizem enxergar o mundo entre o preto e o branco, ignorando as centenas de nuances de cinza, achando que a verdade está com os seus e com mais ninguém. Esse não é o retrato das discussões políticas e ideológicas nas redes sociais? Não é assim que notícias falsas se propagam na web, não por trazerem fatos reais mas por trazerem fatos que "eu quero acreditar que são reais", afinal assim reafirmam, validam e chancelam minha opinião? Não é assim que os debates inteligentes estão trocando de lugar por trocas de acusações estúpidas que muitas vezes terminam com argumentos como "é recalque" ou "beijinho no ombro"? O tribunal da internet não funciona com verdades, funciona com vontades. Se tenho vontade de foder alguém, ótimo, o que vier serve como munição.

No Facebook circulam milhares de posts como esse, um golpe. Aparentemente trata-se um post do UOL, que goza de credibilidade, mas ao clicar na imagem o leitor é direcionado para um site sem relevância ou credibilidade que existe unicamente para pregar a desinformação. São usados frequentemente com fins políticos.

O fluxo de informação é monstruoso. Para terem uma ideia em 2011 circulou mais informação na web do que o homem produziu de 2008 pra trás. São milhões de tweets, de fotos, de posts, sendo jogados em milhões de telas, pequenas ou grandes, por todo o mundo e por todo mundo. Nunca a curadoria de conteúdo foi tão importante. Nunca conhecer a origem da informação, ou ao menos confiar em quem a chancela ou compartilha, foi tão importante. Mas, em todo esse processo você é a peça chave. Você, que lê (sem se deixar levar por "problemas pessoais" ou diferenças ideológicas). Você que possui critérios que o levam a acreditar ou não em algo que leu. Que avalia a responsabilidade por trás de um compartilhamento. Que busca entender o impacto que uma informação tem no mundo.

A internet, a maior revolução na forma como adquirimos e compartilhamos conhecimento, a maior ferramenta da horizontalização do saber, transfigurada em uma locomotiva de desinformação e intolerância.

As vezes acho que as pessoas estão desaprendendo a "ouvir".

Elas escutam apenas o que lhes interessa. E falam. Nem sempre com suas próprias bocas, muitas vezes pelas bocas dos outros, e assim acham que diluem sua responsabilidade sobre a inverdade que é dita. É a beleza do compartilhamento. "Não fui que disse, só compartilhei".

E assim fazem inimigos.

E assim matam o debate.

E assim ignoram o valor de uma crítica.

E assim ignoram o risco de um elogio vazio.

E assim, amigos, nos tornamos piores, involuimos.