Photo by Christian Bardenhorst (https://unsplash.com/christianbardenhorst)

Regulamentação, padronização e normatização. Mas e o ensino?

Para um design mais organizado é preciso fundamentação

Por Lucaz Mathias e Matheus Moura

No ano passado, houve uma grande comoção no setor do design nacional com a possibilidade da tão aguardada regulamentação do exercício profissional do designer. Para decepção geral, a presidente vetou o projeto. Na altura, uma conversa minha com o Lucaz Mathias sobre esse assunto acabou se tornando um post.

Recentemente, surgiu a notícia sobre uma padronização dos termos usados pelos profissionais de design. Essa padronização será feita por 50 profissionais da Comissão de Estudos de Serviços de Design, sob tutela da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Além disso, essa comissão também irá elaborar uma Norma de Diretrizes para Boas Práticas em Serviços de Design.

Com relação a padronização dos termos, acho que faria mais sentido se houvesse primeiramente a bendita regulamentação profissional, mas de qualquer forma é válida, pois é um passo em direção a uma situação mais organizada. Será que isso irá colocar no caixão debates cansativos como logotipo x logomarca ou será que vai botar mais lenha na fogueira padronizando termos que não agradarão a maioria? É esperar para ver.

O importante nessa padronização é que haja consenso e aceitação.

Já a respeito das diretrizes, acredito que seja bem mais importante, principalmente se adotadas de ambos os lados, clientes e designers, pois esclarecer direitos e obrigações é fundamental para um bom relacionamento, resultados positivos e valorização do trabalho.

Essas padronizações e diretrizes se referem ao design em geral, portanto não deixam claro qual a penetração dentro do setor de design gráfico especificamente.

Códigos e normas não são novidades. Já existem em Design Gráfico, como o Código de Ética da ADG (Associação dos Designers Gráficos), e em publicidade, com o Código de Ética da APP (Associação dos Profissionais de Propaganda).

Porém, ao meu ver, esses documentos têm muito mais efeito burocrático do que mercadológico. Transparecem organização por parte das instituições envolvidas, mas têm pouco impacto na percepção social do designer com profissional valorizado. Espero que essas novas diretrizes façam alguma diferença real.

Regulamentação, padronização e diretrizes. Estão sendo montados diversos mecanismos de organização, controle e direcionamento, entretanto não vejo movimentações para o aprimoramento do ensino do design. 
Acredita que o aluno que sai de uma instituição hoje está apto a compreender e cumprir essas possíveis diretrizes? 
Algumas dessas normas têm algum efeito acadêmico ou didático?

Para responder essas perguntas e explanar sobre os temas citados acima, convido novamente meu ex-colega de turma e amigo, Lucaz Mathias, para dar aqui os seus 2 centavos.


Lucaz: As duas perguntas feitas pelo Matheus são, certamente, mais profundas do que o simples movimento acerca de questões como regulamentação, padronização e diretrizes dentro do design. Toda vez que as palavras educação, aprendizagem, ensino e design aparecem juntas ficamos diante de um abismo profundo e escuro, que dita todas as incertezas do mercado nas últimas décadas.

Antes de opinar em relação aos efeitos das normas na academia e a aptidão dos alunos para compreender as diretrizes do mercado, preciso fazer outra pergunta: as instituições de ensino hoje — do nível universitário aos chamados “cursos livres” — são capazes de formar egressos que consigam compreender o que é design?

No pouco tempo que leciono, posso ser categórico em afirmar que não. Nos últimos dois anos, pude acompanhar uma turma de tecnólogos do começo ao fim em sua formação e, garanto, nem 10% saiu capaz de definir a própria função dentro da “cadeia alimentar” da disciplina. Os motivos que levam a isso são variados e dependem da instituição, mas variam em torno de pontos como professores mal preparados, alunos desinteressados ou iludidos pelas promessas do cursos, universidade (particulares) focadas na obtenção de lucro ou na manutenção de titulações (estaduais e federais) e, acima de tudo, grades curriculares obsoletas e fora da realidade de mercado.

Como tudo isso, fica fácil concluir que as diretrizes não fazem parte do processo de aprendizagem e, portanto, jamais funcionarão no mercado. Afinal, se “aprendemos tudo errado”, como podemos ter a pretensão de corrigir, traçando regras, algo que nem mesmo compreendemos?

A mesma falácia ocorre quando falamos em regulamentação e padronização de termos. Não é nada incomum ler logomarca em livros adotados nas grades curriculares, apesar do mercado abominar o termo. Também não é surpresa encontrar professores usando o termo “tipologia” no lugar de tipografia. Em casos extremos, já esbarrei com docentes de alto escalação que jamais ouviram falar a palavra serifa.

Então, mais uma vez, se aprendemos e ensinamos errado, não serão normatizações que resolverão toda a confusão na qual nos encontramos. O projeto do design no Brasil — enquanto profissão e mercado — precisa ser mais amplo. Muito mais do que um projeto pedagógico, temos que nos comprometer com um ideal de aprendizagem e conhecimento.

Se a Bauhaus, nos anos vinte, alterou o panorama mundial e toda a filosofia por trás da atividade do designer, nós precisamos de um milagre parecido. Algo próximo a um movimento que altere a equação “começar errado e criticar depois”. Enquanto nada nesse sentido for, ao menos, rascunhado, regulamentação, padronização e diretrizes serão apenas longos parágrafos disponíveis em arquivos digitais ou impressos, consultados pelos futuros designers durante a cola da prova e abandonados no abismo, a fenda abissal que falei no início, que divide há tanto tempo o design que queremos e o que podemos ter.

Em resumo, assim como as iniciativas anteriores, a padronização dos termos é mais uma das coisas que fazemos “para inglês ver”.(1)

(1) para inglês ver é a expressão usada no Brasil e em Portugal para leis ou regras consideradas demagógicas e que não são cumpridas na prática. A origem da expressão tem várias versões, mas, provavelmente, deriva de uma situação vivenciada no Período Regencial da história brasileira referente ao tráfico de escravos. Você pode conferir a história toda aqui. https://pt.wikipedia.org/wiki/Leis_para_ingl%C3%AAs_ver


Siga-nos: Facebook | Twitter

Assine nossa newsletter e receba as atualizações no seu e-mail.
Clique
aqui.