Ronda x Bethe: Um fenômeno feminino no MMA
A semana passada foi marcada por grandes emoções. Um evento que passaria batido ganhou grandes proporções principalmente nas redes sociais. A edição número 190 do UFC trouxe as lutadoras Ronda Rousey e Bethe Correia em destaque e fez muito barulho principalmente por aqui.
Falando rapidamente: Ronda Rousey é a lutadora americana mais famosa entre as mulheres. Bethe Correia entrou para as lutas há pouco tempo e é uma das poucas representantes brasileiras. As duas eram invictas em suas lutas, porém era chegada a hora dessa condição acabar para uma delas.
Não vamos entrar no mérito de discussão sobre as estratégias do evento, vamos apenas nos limitar às questões de divulgação e repercussão. O UFC faz um grande marketing por trás de todos os seus assuntos e é considerado um dos maiores eventos de luta há muitos anos. Isso ninguém pode negar.
Confesso que foi um fato marcante para mim: Uma edição do UFC com uma luta entre mulheres no card principal. Fiquei bem orgulhosa. Não faz muito tempo que as mulheres começaram a ganhar destaque no MMA e esse assunto ainda gera um grande tabu no meio.
Ronda é prova disso e desabafa sempre que a questionam. É difícil ouvir que “você luta como um homem”, quando na verdade você apenas luta. Ainda há muito o que se trabalhar e Ronda tem se mostrado uma verdadeira evangelizadora quando o assunto envolve mulheres no MMA. Ela luta, literalmente, para acabar com esse preconceito e obter o prestígio merecido. Isso gera muita polêmica, como tudo o que inclui a igualdade entre gêneros. Ronda é considerada uma mulher de muita atitude entre as próprias mulheres e sempre ouvimos depoimentos de outras lutadoras que buscaram coragem em sua história.
O mesmo não podemos dizer de sua rival, Bethe Correia, considerada também polêmica, mas por outros motivos. Durante um dos encontros prévios do evento, Bethe se reuniu com várias amigas e o coro de “Uh, vai morrer” era notório. Em sua declaração mais polêmica, Bethe pediu para Ronda não se matar após o combate e Ronda absorveu essa provocação como uma referência à história pública de sua família (seu pai se suicidou quando ela tinha 8 anos e esse é apontado como um dos acontecimentos mais trágicos de sua vida). Bethe se defendeu dizendo que ela havia sido “mal interpretada” e que no Brasil era assim, as pessoas dizem “Não vá se matar”. Obrigada, Bethe, pelo desserviço ao meu país.
A partir dai começou a troca de ofensas de forma categórica. Nisso o UFC sabe pegar pesado! Quanto mais ofensa, quanto mais discussão e provocação se tem mais audiência e consequentemente, mais vendas.
Bethe esbravejou que todos os brasileiros deveriam estar ao seu lado simplesmente por serem brasileiros e expressou ofensas além da conta justificadas por jargões religiosos. Estavam evidenciados ali diversos equívocos.
Ronda sempre se limitou aos ataques que se referiam ao combate e num estado laico (como o Brasil deveria ser, em teoria), nenhuma religião deveria ser usada como justificativa de combate (Não consigo imaginar um deus definindo ganhadores de lutas do UFC).
Além disso, um outro detalhe: a essência de toda arte marcial está na humildade, no respeito e na determinação. O que deveria reger todo e qualquer ser humano, aliás. Bethe iniciou seus caminhos numa escola de kung fu, mas pelo visto deixou alguns desses ensinamentos de lado. Talvez seja um bom momento para voltar às suas raízes e repensar algumas atitudes.
O grande dia chegou e com ele mais informações sobre suas diferenças: as músicas que escolheram para sua entrada dizem muito sobre as lutadoras.
Ronda escolheu “Bad Reputation” de Joan Jett, cuja letra grita sobre não dar a mínima para o que dizem sobre a reputação de ser uma garota, que pode fazer o que quiser. Já pode se aplaudir em pé?
Bethe entrou com “Beijinho no ombro” da Valeska Popozuda, música que alimenta a rivalidade entre gêneros, assim a consagrando como a rainha dos estereótipos estipulados por uma sociedade machista.
O desfecho se deu em 34 segundos e Bethe foi nocauteada de forma cinematográfica, para delírio dos que apostavam em Ronda. Ela deixou bem claro: “Eu espero que ninguém mais fale de família. Espero que essa seja a última vez”.
O resultado da luta não diz sobre quem tem melhor técnica. As duas são excelentes lutadoras que merecem chegar onde estão. Assim como o resultado em nenhum momento classifica um ser humano como melhor ou pior do que o outro. Naquela luta específica, Ronda ganhou da Bethe. Poderia ter sido diferente. Tudo poderia ter sido diferente, aliás.
Mas como mulher, me vi representada. Foi uma vitória marcante. Quem dera nossas lutas diárias fossem sempre assim. Ronda tem muito o que ensinar sobre a vida. Sobre ser mulher. Que venham mais Rondas pelo mundo!

