Silicon Valley (ou Vale do Silício em bom português) é uma região da Califórnia onde se concentra uma grande variedade de empresas voltadas para o mercado de tecnologia. A área começou a se estabelecer em meados dos anos 50, sendo importante durante a Guerra Fria com a corrida armamentista e ainda gerou os computadores que guiaram as naves Apollo. A industrialização da região ganhou força nos anos 90, reunindo empresas que mudaram a forma do mundo se relacionar com computadores e apetrechos tecnológicos. É lá que surgiram marcas como Google, Facebook, Yahoo, Intel, Apple, Twitter, entre muitas outras. Conhecida por fazer jovens com menos de 30 anos se tornarem ricos (até bilionários), a região é a base para a série cômica Silicon Valley, da HBO.
A trama gira em torno de Richard (Thomas Middleditch), um introvertido programador de computador que mora com seus amigos: Erlich (TJ Miller), Big Head (Josh Brener), Gilfoyle (Martin Starr) e Dinesh (Kumail Nanjiani). Fanáticos por tecnologia, eles buscam a ideia certa que pode lhes dar fama e dinheiro. Ela surge, atraindo o bilionário excêntrico Peter (Christopher Evan Welch, falecido antes da temporada terminar) que deseja investir na empresa que eles estão prontos para fundar. Mas também precisam lidar com a inveja de outra empresa que tenta aproveitar a ideia. Para a empreitada eles ainda contam com a ajuda do jovem executivo Jared (Zach Woods) e Amanda (Amanda Crew), chefe de operações da empresa de Peter.
Funcionando como uma ácida sátira desse comportamento “nerd”, Silicon Valley tem assinatura de Mike Judge, que tem no currículo os desenhos adultos de sucesso Beavis e Butt-Head e O Rei do Pedaço, além do filme Idiocracia (Idiocracy, 2006), para citar alguns. É perceptível na produção da HBO todo o cinismo em torno do tema, com constante menção de grandes nomes do meio (principalmente Steve Jobs), além de brincar com os estereótipos — todos são meio abobados e, dependendo do cargo, apresentam problemas de relacionamento, timidez e a “nerdice” excessiva.
O roteiro é bom. Em meio à piadas com nomes famosos, citação de filmes e marcas, também tem momentos de comédia mais pastelão, o que rende bons momentos, bebendo da fonte do humor escatológico, porém, sabendo dosar. As atuações também são boas, desde o protagonista interpretado por Thomas Middleditch, que de tão introvertido chega dar pena, até de seu colega interpretado por TJ Miller, com momentos memoráveis de seu personagem egocêntrico e sem noção.
Silicon Valley não cai no erro de The Big Bang Theory — bem superficial e que parece uma caricatura ultrapassada do mundo nerd. Ela consegue fazer graça com uma realidade que está sempre nos holofotes e ainda faz a cabeça de muitos aspirantes a Jobs. Mescla uma sensibilidade de mostrar jovens sem qualquer preparo para conquistar o sucesso quando acabam alcançando, com o selvagem e competitivo do mundo dos negócios da região.
A série apresenta um tom de reflexão como Judge mostrou em Idiocracia, que mostra o mundo no futuro tomado pela falta de racionalidade e dominado pelas grandes corporações e a apatia das pessoas, com o estilo punk e absurdo de Beavis e Butt-Head. Tem um deboche um tanto acentuado, como se aquilo tudo fosse uma grande besteira, entretanto, defende seus protagonistas, mostrando que naquele mundo com aquelas regras, eles podem se destacar com humildade e uma certa esperteza.
Naquela região onde gênios e idiotas são separados por uma tênue linha, Silicon Valley funciona sem qualquer medo de parecer idiota, característica que a faz engraçada e genial.
Email me when Trendr Collection publishes stories
