Como votam os ingleses?

Algumas curiosidades sobre as eleições britânicas

Marco Neves
May 5, 2015 · 9 min read

Será este o parlamento mais poderoso do mundo?

Photo by DAVID ILIFF. License: CC-BY-SA 3.0

Isto tanto é assim que se os deputados acordassem um dia com vontade de abolir a monarquia, lá teria Isabel II de assinar a sua própria destituição. E ela lá assinaria, encolhendo os ombros e pensando para consigo que assim sempre fica com mais tempo para a bisneta Carlota.

É por isso que o Parlamento Britânico — e, dentro do parlamento, a Câmara dos Comuns — tem um poder praticamente absoluto: não há constituição que o limite, mas apenas uma série de leis que o próprio parlamento pode alterar a qualquer momento — e, claro está, uma série de tradições e de convenções que têm muito mais força que muitas constituições em vigor por esse mundo fora...


Quantos deputados tem a Câmara dos Comuns?

Imensos: 650 (o número varia ao longo do tempo).

Fonte: http://www.theguardian.com/politics/2005/may/09/1

Não se pense que usam o braço ou papelinhos (ou um qualquer sistema automático). Nada disso: os deputados britânicos votam aos gritos ou com o corpo…

Começam por votar com a voz. Gritam “aye” ou “no”. O speaker (presidente) da Câmara lá terá as suas formas de ver se há mais “ayes” ou “noes”.


Mas, afinal, como se elegem os deputados no Reino Unido?

O Reino Unido está dividido em 650 circunscrições. Não estamos a falar dos municípios, mas sim de áreas que mudam ao sabor da demografia, para assegurar que todas têm um número semelhante de eleitores (em redor dos 60 ou 70 mil).

Muitos votos não servem para nada…

Se numa determinada circunscrição o candidato do Partido A tem 26% dos votos, o do Partido B tem 25%, o do Partido C tem 25%, e o do Partido D tem 24%, o primeiro candidato é eleito e os 74% de votos noutros candidatos são ignorados. O sistema é estranho, de facto.


Mas como podem os ingleses aceitar um sistema assim?

Antes de mais, dá-me a sensação que os britânicos só mudam quando tem mesmo de ser. Não gostam de mudar por mudar. Se o sistema tem funcionado relativamente bem, fica como está.

Fonte: http://www.betternation.org/2012/02/house-of-lords-reform-is-jury-duty-the-answer/

Temos lordes armados em importantes e com umas perucas engraçadas? Tire-se o poder aos lordes, mas deixe-se as perucas, que sempre dão algum colorido.

Mas não se julgue que a manutenção dum sistema tão enviesado se deve apenas à inércia. Na realidade, os britânicos sentem-se representados pelos deputados que elegem, mesmo quando não votam naquela pessoa em particular.

Para os ingleses, a eleição pessoal de cada candidato é tão óbvia que há quem tenha alguma dificuldade em entender o sistema proporcional. A ideia de votar numa lista e não numa pessoa que represente os eleitores é vista com muita estranheza.


No dia das eleições, os ingleses também põem uma cruz no boletim de voto, certo?

Sim. As originalidades nesse campo da mecânica do voto vêm mais do lado dos norte-americanos, que se dividem entre quem vota com furos, com círculos pintados, com alavancas ou outras invenções do género.

Fonte: http://watchdog.org/61294/wi-is-2000-in-2012s-future/

A Rainha vota?

Para além dos estrangeiros, também não podem votar os condenados por alguns tipos de crime e… a Família Real!


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Marco Neves

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