Os erros de raciocínio dos racistas

O racismo é um problema moral, mas também um erro de análise estatística.


Há quem ache que devemos proibir discursos racistas com o argumento de que são ideias tão obviamente erradas que a sua difusão só pode ser prejudicial.

Não concordo: as ideias proibidas são sexy. Proíbam uma ideia e várias pessoas irão olhar para ela com outros olhos: “Se é preciso proibi-la, é porque é uma ideia forte.” E, sabem uma coisa? Em certas idades, preferimos as ideias fortes às boas ideias.

Tudo isto para dizer que proibir uma ideia errada é dar-lhe uma força que ela não merece. Mais vale apontar holofotes às más ideias e deixá-las mostrar por si próprias os erros que contêm.

Claro que, para isto funcionar, temos de ter o trabalho de atacar essas mesmas más ideias. Assim, considerando eu que o racismo é a mãe de todas as ideias erradas, cá vai disto…

Antes de começar, no entanto, gostava de salientar que o racismo que aqui ataco é o mais radical: aquele que acha que (1) existem raças com características diferentes; (2) esse facto está na base de diferenças culturais, políticas e económicas entre os grupos e (3) os seres humanos devem ter direitos e deveres diferentes dependendo da raça.

Podem achar que é um racismo relativamente raro. Admito que sim. Ou melhor, espero bem que sim. Mas mais vale prevenir, até porque este racismo radical esconde-se por trás de outros racismos mais comedidos, que são apenas uma máscara para o monstro.

Ataquemos o monstro, portanto.


Os racistas não percebem nada de estatística.

Antes de mais, os racistas sofrem duma forma particularmente virulenta da “estupidez estatística” que ataca muita gente.

Os racistas estão convencidos que existem diferenças reais (biológicas) entre raças. Ora, não vale a pena argumentar se isto é verdade ou mentira: é uma questão de investigação científica.

Mas, imaginando que alguém prova tendências para determinadas características dependendo da raça a que se pertence, isto quer dizer tão pouco que acaba por não querer dizer nada.

Explico: se dividirmos os seres humanos de alguma forma (baixos para um lado, altos para outro; mulheres para um lado, homens para outro; louros para um lado, morenos para outro) vamos encontrar, provavelmente, algumas diferenças nas respectivas médias no que toca a certas características (quaisquer que sejam elas).

O ponto que quero sublinhar é que estas diferenças são diferenças estatísticas — não são características que todas as pessoas de determinado grupo partilham.

Por exemplo: dizer que, em média, os portugueses têm 1,70 m (não faço ideia, é provável que seja menos) não quer dizer que todos os portugueses tenham 1,70 m — nem sequer a maioria terá 1,70 m. (Isto para já não falar de curvas de distribuição — não vale a pena ir tão longe porque quem é racista não vai perceber de qualquer maneira.)

Por outras palavras: vamos imaginar que alguém mede o QI de dois grupos humanos. Descobre-se que o Grupo A tem, em média, um QI dois valores mais alto do que o Grupo B. Vêm os racistas gritar: “Estão a ver? O Grupo A é superior!”

Ora, será fácil encontrar no Grupo B pessoas de QI muito mais elevado do que a média do Grupo A. Até pode acontecer que a pessoa mais inteligente de todas seja do Grupo B.

Conclusão: perceber de estatística ajuda-nos a não ter ideias más.


O racismo é um erro moral.

Para lá da ignorância, o problema dos racistas é também um problema moral.

Mesmo que detectássemos diferenças significativas entre raças no que toca ao QI ou a qualquer outra variável, por que raio haveria isso de ter algum impacto nos direitos e deveres de cada pessoa?

Imaginemos que se descobria uma diferença biológica real entre grupos com uma consequência aterradora — um certo grupo teria uma propensão real e biológica para o crime (parece ser esta a ideia de muitos racistas). (Sublinho: esta propensão nunca foi detectada em nenhum grupo. Esta é apenas uma experiência mental para compreendermos o grande erro moral dos racistas.)

Mesmo que esta diferença biológica existisse, a nossa obrigação moral seria tratar de forma igual todos os seres humanos. As leis deveriam continuar a ser as mesmas para todos. Porquê? Porque estaríamos perante uma tendência — seria sempre possível a um membro desse grupo com tendências criminosas não seguir essa tendência.

O próprio acto de identificação do grupo e de atribuição de diferentes deveres e direitos independentemente do comportamento de cada pessoa particular seria sempre uma decisão imoral e profundamente errada.

A humanidade já foi toda assim: o peso do grupo e da identidade era sempre muito superior ao valor de cada pessoa. Mas, felizmente, muitos de nós já ultrapassámos essa fase.

Ora, o problema dos racistas é este mesmo: estão a viver nos dias de hoje com uma mentalidade da Idade da Pedra.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.