Cerimônia de posse como deputada estadual / Foto: Divulgação

Entrevista: Mônica Francisco

Deputada Estadual pelo PSOL RJ, Mônica fala sobre sua história de militância, os desafios para o exercício e o legado deixado por Marielle Franco

por Iracema Dantas *

Mônica Francisco é deputada estadual pelo PSOL-RJ, eleita com 40.631 votos, em 2018. Com uma agenda marcada pela liderança comunitária no Morro do Borel, Zona Norte do Rio de Janeiro, e pela participação no mandato da vereadora Marielle Franco, Mônica chega ao parlamento em um momento em que as forças conservadoras tentam impor todo tipo de retrocesso e perda de direitos: “Vivemos um processo de desumanização de uma população que já vem morrendo ininterruptamente. E os que não morrem são encarcerados ”- diz. Como pastora evangélica da área progressista, ela faz um alerta sobre a apropriação do Estado por parte dos fundamentalistas: "Enfocar apenas a intolerância religiosa religiosa é diminuir o perigo que estamos correndo".

Mônica é casada, tem 48 anos, um casal de filhos e um neto. Nascida em São Cristóvão, foi criada pela avó paterna. “Hoje moro na Tijuca, mas continuo ligada ao Borel para sempre. Não tem como nos separar. Toda minha história de vida e de militância está lá ”.

Como você se tornou uma liderança no Borel?

MF - Em 1988, quando houve uma grande chuva na cidade e o Borel foi muito atingido, eu acabei me envolvendo na ajuda a outras famílias. Naquele momento, ainda sem muita elaboração sobre formas de militância, percebi que eu fazia parte de um coletivo. Dali em diante, comecei a me envolver na luta pela moradia nas favelas. Mais do que uma liderança comunitária, meu envolvimento também significava a minha luta pela sobrevivência, por uma vida melhor, pelo saneamento básico, pela água na torneira dentro de casa.

Mas você fez parte da associação de moradores do Borel?

MF - Sim. Concorri a uma vaga de secretária, mas acabei não sendo escolhida porque não sabia datilografia, o que naquela época era fundamental para o cargo. Só que o presidente da associação gostava muito de mim e me chamou para trabalhar na Rádio Poste, um tipo de serviço de alto-falante. Também fizemos um jornal comunitário, o Formando Opinião. Com a chegada de programas como o Favela Bairro e o Pouso , também trabalhei com assistentes sociais da prefeitura que faziam o cadastramento das famílias envolvidas. Em 2001, houve uma mudança de gestão, resolvi sair da associação e fui trabalhar no Pouso como agente comunitária.

Como você se aproximou das ONGs e movimentos sociais?

MF - Lá pelo final dos anos 90, a associação fazia parte das discussões sobre a criação da Agenda Social Rio 2004, mas nos diziam que só a presidência podia participar. Só que houve a decisão de fazer algumas reuniões descentralizadas, inclusive no Borel. E foi assim, com essa proximidade, que eu e outras pessoas nos aproximamos da Agenda Social Rio 2004, dos movimentos sociais urbanos e mais ainda do Ibase.

De quê maneira o sociólogo Betinho influenciou sua trajetória?

MF - Mesmo antes de conhecer o Ibase, eu conheci a figura de Betinho. A imagem dele nos remetia imediatamente à luta contra a fome. Betinho despertou em mim a vontade de entender a sociedade e a relação com a favela. Por exemplo, sempre tive vontade de ser professora de história, mas dessa convivência veio a opção de cursar sociologia. Tanto o Ibase quanto a Agenda Social foram fundamentais para que aos 38 anos eu resolvesse transformar esse desejo em realidade, ingressando como cotista na Uerj no curso der Ciências Sociais. Também foi nesse espaço do Ibase que pude ampliar a luta do Borel com outras áreas da cidade, com o movimento de mulheres e com as redes de economia solidária e a luta pela moradia.

E mesmo depois da morte de Betinho, continuei mantendo e até ampliando minha relação com o Ibase. Tanto que minha primeira viagem para fora do Rio de Janeiro foi para o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, em 2005, com o financiamento de um fundo criado pelos funcionários da organização. O Fórum era um espaço plural mas que não tinha muito a participação de pessoas de favelas. Foi ali que tivemos acesso às lutas mais internacionais dos movimentos e coletivos. Ouvir
 (Eduardo) Galeano e (José) Saramago foi marcante para mim e para todo o grupo apoiado por esse fundo.

Em que momento as questões da segurança pública e da violência doméstica entram na sua atuação?

MF — Em 2003, houve uma grande chacina no Morro do Borel e isso me levou a entender o ativismo pelos direitos humanos de maneira mais ampla. Foi nesse momento que a temática da segurança pública se consolidou na minha vida e comecei a atuar contra a violência praticada pelo Estado. Nessa época, eu já era articuladora da Agenda Social Rio e atuava na rádio da Grande Tijuca e no grupo Arteiras

Paralelamente, também me aproximo mais do tema da violência doméstica. Até então, era algo que sabíamos que existia sim, mas não havia a dimensão correta do problema. No grupo Arteiras, discutíamos todos os temas relacionados às mulheres mas de forma incipiente. Nessa época também criamos o grupo de passadeiras comunitárias e fundamos a Associação de Mulheres Borel — Indiana.

E como você conheceu Marielle Franco?

MF — Primeiro, eu conheci o Marcelo Freixo. Foi em uma reunião de análise de conjuntura no Ibase e ele ainda era da Justiça Global. . Nos aproximamos por conta de sua atuação com a população carcerária e sua relação com as favelas. Depois, veio a sua candidatura e a aproximação com o mandato. A Mari era a representação do Freixo na Comissão de Direitos Humanos na Alerj e foi lá que nos conhecemos. Aos poucos nos tornamos amigas e ela se tornou minha referência em defesa de direitos.

Você fez parte da equipe da vereadora Marielle Franco?

MF — Sim. Logo depois da eleição municipal, fui surpreendida pelo convite para participar de seu mandato. Fui trabalhar fazendo a articulação do gabinete com os movimentos de favelas e também integrava a equipe que fazia o atendimento direto às mulheres que procuravam algum tipo de auxílio na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara de Vereadores do Rio. Outra função que tive foi a coordenação do grupo de trabalho responsável pelo relatório da Comissão de Acompanhamento da Intervenção Federal no Rio de Janeiro.

E como surge a sua candidatura?

MF — Em meados de 2017, eu e Marielle começamos a conversar sobre a possibilidade de eu me candidatar nas eleições municipais em 2020. Depois, houve algumas mudanças normais do processo e Marielle começou a falar sobre a possibilidade de eu vir como deputada federal. Ela viria como candidata à vice-governadora e Tarcísio como candidato a governador na chapa “Se o estado do Rio fosse nosso”.

Mônica em seu gabinete na Alerj / Foto: Ibase

De que maneira o fato de ser pastora evangélica influenciou sua indicação às eleições?

MF — Houve a desistência do pastor Henrique Vieira, mas essa nunca foi minha pauta ou militância. Minha relação de fé com sagrado é essa; apenas isso. Logo após a morte da Marielle, durante uma das homenagens que ela recebeu na Maré, percebi que não havia como deixar de lado essa caminhada. Era uma construção coletiva que precisava seguir.

Não tem medo de ser vítima das mesmas forças que mandaram matar Marielle?

MF — O medo é presente desde sempre, principalmente no meu caso que vim da favela e estou envolvida no enfrentamento à violência de estado. Ainda durante minha campanha eleitoral, vivi situações de risco. Recebi muitos sinais e avisos de que estava incomodando. Para mim, o fato mais grave, que até me levou a fazer o boletim de ocorrência na delegacia do meu bairro, foi a invasão da minha igreja. Nada de valor foi roubado, mas estava tudo revirado; nossos instrumentos de som usados no culto foram quebrados. Somos uma igreja pequena, que não arrecada grande volume de dinheiro em doações. Considero que esse fato foi mesmo um alerta para me atingir e me fazer parar.

Além disso, sou uma mulher negra e que carrega em seu mandato uma forte vinculação com o legado da Marielle Franco. Tenho um protocolo de segurança, mas a minha origem popular não me permite grande investimento nisso. Diferentemente de outros deputados e deputadas, não sou empresária, não tenho herança, minha família é humilde, não vim da classe média.

Acredita que os responsáveis pela execução de Marielle e Anderson serão julgados pela Justiça?

MF — Nossa esperança é que o clamor popular e o apoio de instituições como a Anistia Internacional e coletivos feministas não deixem que o caso caia no esquecimento. A própria família consanguínea vem atuando firmemente para que esse crime tenha uma solução e seus responsáveis sejam levados à justiça.

Existem muitas inquietações e dúvidas não esclarecidas. Embora ela fosse uma defensora dos direitos humanos, as linhas de investigação apresentadas não correspondem à atuação política do mandato da Marielle Franco. Desde agosto do ano passado, a Monica Benício, viúva da Marielle, vem solicitando a federalização do caso, algo que não aconteceu até o momento. Queremos saber quem matou Marielle, mas também qual o motivo.

Quais são os projetos que você pretende apresentar ao plenário da Alerj?

MF — Nossos projetos de lei serão sempre elaborados a partir dos quatro eixos que estruturam o mandato: direitos humanos, negritude, favelas/periferia e políticas de gênero. Há também temas que perpassam todos esses pontos, como o racismo religioso, a saúde da população LGBTQI+, a violência obstétrica e a violência doméstica.

Até o momento, já protocolamos o projeto de lei que versa sobre a adoção de linguagem não-sexista no âmbito do poder estadual, atendendo à luta política pela visibilidade das mulheres nessa esfera. Não é só um projeto de lei, mas algo que leva ao entendimento da necessidade e do reconhecimento da presença das mulheres em todas as áreas. Também estamos sistematizando as propostas que recebemos ao longo dos encontros temáticos que fizemos durante a campanha com coletivos de saúde, educadores e educadoras, com a população LGBTQI+ e o movimento de mulheres.

De que forma o fundamentalismo religioso tem influenciado os resultados eleitorais?

MF — Existe um inegável aparelhamento do Estado por grupos religiosos; e um verdadeiro desastre vem acontecendo graças a essa proximidade da religião com a política. Uma consequência direta é a criminalização de outros segmentos religiosos, além de aumentar os ambientes de intolerância religiosa. É preciso entender que isso tudo leva a um racismo religioso e até mesmo à morte de pessoas. Sua relação no sagrado não pode ser motivo de assédio no trabalho, como alguns funcionários públicos da prefeitura do Rio já relataram.

Mas é importantíssimo ressaltar que focar apenas na intolerância religiosa é diminuir muito o perigo que estamos correndo. Existe também a participação de empresas religiosas nas administrações do poder público. São empresas de música, de segurança e até bancos que se apropriam do estado e ampliam o poder dos fundamentalistas. Outro dado a ser levando em conta é a proximidade desses fundamentalistas com grupos para-militares que tentam legitimar seus representantes em cargos públicos.

E apesar desse setor fundamentalista perigoso, não devemos esquecer que o campo cristão católico tem uma enorme influência no mais alto escalão dos poderes — que é mais silenciosa e mais eficaz. Toda política de gênero vem enfrentando há muito tempo a resistência desse setor. São produzidos relatórios contrários ao avanço das políticas de gênero que tem tido sucesso no impedimento de pautas como a do aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

No início dos anos 2000, Mônica era uma das articuladoras da Agenda Social Rio

Como você avalia a conjuntura política da cidade e do estado do Rio de Janeiro?

MF — Com muita preocupação. Chegamos a 2019 com a institucionalização do medo, da barbárie e da política do abate por parte daqueles que chefiam o Poder Executivo, seja no âmbito municipal, estadual ou federal. Vivemos um processo de desumanização de uma população que já vem morrendo ininterruptamente, a população negra e especialmente os mais jovens. E os que não morrem são encarcerados.

Em pouco tempo do novo governo estadual, já temos chacinas na Baixada Fluminense e no Centro do Rio. Alem disso, tivemos a Cidade de Deus metralhada por atiradores posicionados em helicópteros, materializando a política de snipers. Estamos vivendo a criminalização da pobreza.

No âmbito da educação, tanto no município quanto no estado, está sendo feita a diminuição das horas em sala de aula e também do momento de socialização, gerando uma diminuição na qualidade do ensino e da vida dessas crianças e jovens. Os hospitais estão funcionando precariamente, num processo de privatização da saúde e desmonte do SUS.

Nas favelas ainda se soma a tudo isso o quadro de abandono dos sistemas de alarme das chuvas, o que tem gerado medo e tragédias. Graças a essas políticas equivocadas e uma gestão ausente, tivemos sete mortes com as chuvas de verão. Infelizmente, o quadro é assustador e gera perplexidade. Mas também nos impulsiona a agir de forma contundente contra essa política de morte e descarte de corpos, principalmente jovens e negros.


*Iracema Dantas é jornalista e atualmente trabalha como consultora de comunicação no Ibase.