#02 Cartas que a gente nunca envia

Às vezes no silêncio da noite…

Querido P,

Olha só que loucura essa vida, não é mesmo? Parece que foi ontem que eu te vi pela primeira vez: atrás de mim, na fila do caixa do meu bar favorito. Você me deu umas olhadinhas, eu retribui. O Marcelo, meu colega do cursinho, ficou desconfiado e digitou no celular: “quer trocar de lugar comigo?” Acho que ele te achou meio estranho, com aqueles alargadores, os olhos caídos e os dreads ainda curtinhos.

Quando o Marcelo me fez aquela pergunta, eu respondi que não, que estava tudo bem. Eu deveria ter respondido é que estava tudo ótimo, que não tinha me incomodado nada com os olhares e que, se você quisesse, aceitaria te dar uns beijinhos naquele momento. Não rolou.

Sei que você não deve se lembrar de nada disso. Nem que dois dias depois nos encontramos de novo naquele mesmo bar. Coincidência ou destino, você me deu uma carona pra casa naquela noite e escreveu uma ou duas palavrinhas em árabe no vidro embaçado do carro da sua mãe. Você disse que era uma surpresa pra ela e cinco anos se passaram desde aquela noite, mas eu ainda não sei o que estava escrito ali.

Eu me lembro de você ser tão alto e tão grande que, por comparação, eu parecia pequenininha e descartável. Foi só quando a gente se encontrou na semana passada que eu descobri que você não tem mais que um metro e oitenta de altura. Gostar de você me ocupava tanto que gostar de mim era só um detalhe. No seu apartamento não tem livros de ficção e eu sinto tanta falta dos seus dentes incisivos separados. Me conta, por que é que você os consertou?

Alguns pedaços da minha história misturaram com os seus pedaços e ficaram marcados em mim, registrados como aquela cicatriz que eu tenho na coxa desde criança. Se eu fechar os olhos, ainda consigo lembrar a sensação de enroscar meus dedos pelo seu cabelo e da sua cabeça apoiada no meu colo, do cheiro de gasolina combinado com o seu perfume e do vento gelado que arrepiava a minha pele naquela madrugada, quando você foi embora.

Já era mais de três da manhã quando eu te levei na rodoviária, umas duas semanas antes de você viajar pra Alemanha. Foi o dia que eu conheci o seu pai, lembra? Eu estava com muito sono quando você me abraçou, me beijou e a gente se despediu naquela rua deserta. Foi ali, bem ali, nos segundos que duraram aquele abraço, naquele pedacinho tão irrelevante da nossa história e que antecedeu a nossa separação, que eu senti pela primeira vez o que nunca tive certeza enquanto eu estava contigo: era recíproco.

Desde então, foram tantas as variáveis que levaram a gente por caminhos distintos que seria impossível encontrar um culpado por a gente ter dado tão errado. E tá tudo bem, prometo. Eu ainda não sei se acredito em destino, em carma ou nos insistentes sinais do universo que, apesar dessas dúvidas todas, eu não consigo deixar de enxergar. Quando a vida faz essas poesias, a gente tem que parar pra escutar.

Eu sei que tem alguma coisa no jeito como você sorri e aperta os olhos, nas palavras rápidas que, diferente das minhas, saem pela sua boca sem oscilar, na eterna contradição de ser quem você é e que me faz querer te decifrar. Cada fio de cabelo fora do lugar, cada pedacinho de história marcado no seu corpo em forma de tatuagem — eu queria poder um dia dizer que foi tudo desvendado.

Meu bem, acho que é melhor você nem me responder. Gosto mesmo é da incógnita, de ficar aqui quebrando a cabeça pra te entender. No fim das contas, quero só que o acaso ou o destino faça mágica e encaixe tudo: de preferência, meu corpo no seu.

Beijos,

B.


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