Sabe quando você está na praia e chove?

Já faz um tempo que a vida está assim.

Foto por Taylor Leopold no Unsplash

Já faz um tempo que a vida está assim. É um marasmo, como naquela época que eu era criança e a gente descia pra praia. Do interior de São Paulo até o litoral, a gente demorava mais de oito horas, então, se a gente decidisse pegar a estrada, era pra valer. Não ficávamos menos do que dez dias por lá e, é claro, chovia à beça.

Não tinha uma viagem em que todos os dias eram ensolarados e talvez eu devesse ter prestado mais atenção naquela lição que a natureza me dava, mas que só fui entender muito tempo depois. Nos dias que amanheciam nublados, a gente até arriscava ir à praia. Minha irmã e meu irmão se enfiavam nos livros, minha mãe fazia palavras-cruzadas e meu pai caminhava pela areia. Nem adiantava insistir em entrar no mar, minha mãe exigia que eu esperasse pelo menos duas horas, precisávamos digerir o café da manhã primeiro. Era então que eu me acomodava na areia, o mormaço ardendo forte na pele, entre um monte de baldes, pás e outros brinquedos vagabundos de plástico pra me distrair.

Mesmo se, passadas as duas horas, minha mãe deixasse eu aventurar no oceano, a alegria durava muito pouco. Logo ela sentia frio ou o vento insistia em trazer a chuva que não demorava muito para cair. Nós fugíamos da praia a passos largos e todos nos enfurnávamos de volta no hotel. Minha irmã lia. Meu irmão tentava me ensinar a jogar xadrez. As regras eram claras e fáceis de entender, mas nunca consegui prever o movimento do outro. Mais uma vez, acho que a vida tentava me ensinar uma lição valiosa e eu não conseguia compreender.

A gente passava a tarde assim. Um ano em especial, meus irmãos encontraram “A revolução dos bichos” na biblioteca do hotel. Ambos devoraram o livro em poucos dias e, no auge dos meus oito anos, eu os invejei. Queria também saber qual foi a tal da revolução dos bichos, mas eles não deixaram, disseram que eu era muito nova para entender. Na minha cabeça infantil, era ilógico o que eles falavam, eu tinha certeza que conseguiria ler um livro sobre bichos. Afinal, não são quase todos os livros de criança sobre bichos?

Os dias nublados na praia da minha infância foram muito monótonos, com uma porção de jogos de baralho, tabuleiro e tédio, sempre muito tédio. Era triste ver o mar pela janela sem poder enterrar meus pés na areia, mergulhar no oceano ou tomar um picolé. Era deprimente ver a maré alta, as ondas furiosas e a chuva fina que caía fraca, com suas pequenas partículas de água arruinando as minhas férias. Era enlouquecedor saber que não havia nada que eu pudesse fazer pra maré baixar, a garoa passar e o mar se acalmar. Ainda era bom estar perto do oceano, sentir brisa salgada no ar, ir bem longe de casa e passar algum tempo com os meus irmãos, que a essa altura já tinham se mudado para outras cidades para estudar. Mas a frustração era maior e mais inquietante.

Já faz um tempo que a vida está assim. Todo dia, um novo dia nublado na beira do mar. A solidão já se agarrou em mim como uma visita chata que não entende os sinais e não vai embora. A resignação que eu abracei com fé e até um pouco de orgulho aos poucos me deixou. Tomou lugar a frustração e a inquietude. Carregar o fardo de estar sozinha podia até parecer honroso antes, mas agora só acho doído demais. Talvez eu devesse ter prestado mais atenção às lições do universo, mas não consigo aceitar que existam problemas sem solução, que a chuva vai cair sem se importar se é isso que eu quero mesmo. Minha mãe foi professora de matemática e as aulas e álgebra me deixaram mal acostumada. Fico somando e subtraindo na minha cabeça, uma eterna busca pelo x da questão, pelo resultado da equação. E quando o resultado não vem, a equação fica flutuando no ar como um fantasma incômodo. Eu fico só mais inquieta e frustrada.

Depois que a solidão grudou em mim, a gente até que tentou se entender por um tempo. Eu ainda a deixo me acompanhar e ela continua presente em todas as coisas que eu faço — da hora que acordo para o trabalho até o momento em que o controle remoto faz “plim”, a luz do meu quarto se apaga e eu já quase me agarrei ao sono. Faz tempo que não dói mais e a vida segue funcional, com pouco tempo pra pensar e muita coisa pra fazer.

É dessa forma que os dias correm, os meses passam e o fim do ano me alcança. Na cidade o céu está limpo e a árvore que costumava fazer sombra para mim todo dia de manhã enquanto eu espero o ônibus não conseguiu florescer. Em plena primavera, por falta de água, por falta de adubo ou por excesso de sol, a árvore continua seca e eu também. Já mudei de CEP, de emprego e até de cidadania. A reforma no consultório odontológico que fica do lado da sala da minha terapeuta começou, fez barulho e já até terminou. Só tem três coisas que não mudaram: a chuva não para de cair na praia, a árvore permanece seca na cidade e, não importa aonde vou, eu continuo sozinha.


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