Do chão não passa

Tudo começou em Londres, onde a vida deveria ser perfeita, mas a realidade não correspondia às minhas expectativas. E eu me sentia uma ingrata por não querer sair da cama com uma cidade inteira me esperando lá fora. Ou estava escuro demais, ou frio demais, ou longe demais ou eu demoraria para voltar se saísse de casa. Ficar era sempre a única opção, porque eu não tinha força ou vontade para me mover. Nada me comovia e se as coisas acontecessem ou não, não fazia muita diferença porque eu simplesmente não sentia nada sobre nada.

E então mesmo com os dias se arrastando e eu vivendo a base de vinho barato para tentar sentir alguma coisa chegou a hora de voltar para casa e no momento entre entrar no avião e ele decolar, todo sentimento ruim do mundo era meu. Culpa, angústia e medo. Eu não estava deixando nada para trás e eu sequer conseguia me importar de verdade com o fato de ter deixado seis meses escaparem simplesmente porque não conseguia me mover.

Aqui, as pessoas me perguntavam como eu estava e porque eu quis voltar de um lugar tão bom, para uma economia tão ruim e eu dizia apenas que “porque sim”, porque eu não poderia dizer que minha culpa era esmagadora, mas que ainda assim eu não tinha vontade alguma de sair da cama.

“To the person in the bell jar, blank and stopped as a dead baby, the world itself is a bad dream.”
Sylvia Plath

Eu continuei não tendo vontade de fazer nada, mas eu percebi que aquilo não era normal e passei a fingir. Fingia que queria sair de casa, que queria encontrar os amigos e que queria viver plenamente. Até que eu fui ficando exausta, exausta de tudo e de todos e qualquer coisa era um esforço monumental.

E então começaram os ataques de pânico, que foram aumentando em intensidade e frequência de forma assustadora. E eu não falei para ninguém porque não queria deixar ninguém preocupado.

De alguma forma, eu consegui sair da cama todos os dias. Consegui ir trabalhar, consegui cumprir prazos e compromissos. Eu ouvi de muitas pessoas que não faziam ideia de como eu me sentia por dentro que eu estava numa fase muito boa da vida, porque tinha um emprego legal, com cerveja gelada e chocolate a vontade, tinha um apartamento meu e tinha até um cara que me fazia feliz.

E é muito difícil lidar com um sentimento de infelicidade constante quando você tem todos os motivos para ser a pessoa mais feliz do mundo. Eu me senti culpada e ainda mais exausta de ter que viver e ter que ser feliz porque a vida era boa demais comigo. Até que eu admiti que talvez tivesse algo errado.

Talvez você esteja deprimida. Não se preocupe, vai ficar tudo bem.

Eu sempre tive muito preconceito com anti-depressivos, não porque ache que as pessoas estão exagerando quando falam que precisam deles, mas porque eu achava que ia ficar entorpecida e ia deixar de ser eu mesma. Mas no fim, eu já tinha deixado de ser eu mesma, porque continuar daquele jeito era viver com uma névoa constante que atrapalhava minha visão.

Nada disso aconteceu e eu não fiquei dopada ou eufórica como se toda tristeza do mundo tivesse acabado. Por um lado, era isso que eu queria, queria que o mundo parecesse um lugar melhor, queria que a felicidade fosse fácil e ininterrupta. Mas nada disso aconteceu.

O mundo continuou igual, meus dias continuaram passando normalmente. Como escreveu Sylvia Plath, “O chão parecia completamente sólido. Era reconfortante saber que eu tinha caído e não podia cair ainda mais”. Minha perspectiva mudou e os dias ruins passaram a ser apenas dias ruins e não mais o fim do mundo.

É sempre bom saber que quando a gente cai, o chão é o pior que pode acontecer.