Matando a saudade

Penso como seria esse mundo da cura para todo mal. Para cada sintoma ou doença, um remédio de nome difícil, pílulas coloridas e burla infindável. Discretíssima, entro na farmácia mais próxima. Olhar baixo, passo firme, dirijo-me ao balcão. A voz baixa, quase inaudível: “senhor, alguma coisa de ação rápida para tratar uma saudade, por favor”. Tomar um comprimido de manhã, outro de noite. Não misturar com álcool. Três dias depois, as lembranças esvaecem. Uma semana depois, as coisas começam a voltar a ser somente o que elas são, sem significados ocultos. Um jazz qualquer, daqueles que a gente gostava de ouvir deitados na cama, começa a tocar. Nada. Um mês depois, acho fotos de uma viagem dentro de um pasta esquecida no meu computador. Pessoas atrás de óculos escuros e roupas de praia sorriem para mim. Nada, nada, nada. “Na minha época a gente matava a saudade com beijos e abraços”, diria vovó. Hoje, um comprimido de manhã, outro de noite.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.