Dorian Gray e o retrato da modernidade

Como a obra atemporal de Oscar Wilde pode representar tão bem o último homem

Nayara Lucena
Nov 4 · 5 min read
Perspectivas. As vezes os sentidos nos enganam, e uma coisa, na realidade, é outra. É preciso olhar novamente. Fonte: Twitter imagens.

Uma obra marcante e bem resolvida, a ser publicada nos últimos suspiros do século XIX, The Picture of Dorian Gray, em seu dialeto original, afere tantas coisas que urge necessário um passo atrás em sua análise, bem como incansáveis releituras ao longo dos tempos.

Na instância de figurar toda hipocrisia de uma época, Oscar Wilde formalizou um elemento de cunho atemporal.

As adaptações cinematográficas do clássico não mostraram-se generosas com a história. Caricadas pelo espírito hedonístico que permeia o decorrer da obra, os filmes, de certa forma, tornam-se descartáveis em comparação ao texto profundo e minucioso de Wilde, que exalta desde Narciso à Fausto.

À época, o autor considerou-se como sendo os três personagens principais simultaneamente. A partir disso, vislumbramos o átomo do que viria a ser a personalidade contida no brilhante escritor.

De início, já é possível notar a peculiaridade do que está por vir. É através de um prefácio magnificamente escrito, de convicção simples e cativante, que Wilde dá início ao seu diálogo com o leitor. É possível atribuir-se ao fato da simplicidade que possui a verdade, agindo como um fim em si mesmo.

O artista é o creador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é o objetivo da arte. […] Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais. […] A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar. […] Toda arte é absolutamente inútil.

A conhecida trama de um rapaz que predispõe barganhar sua alma em troca da beleza da juventude torna-se cinzas comparada a personalidade complexa dos personagens, a profundidade das relações construídas e seus tipos infinitamente marcantes.

Basílio Hallward era pintor. Viu pureza na figura jovem e ingênua do belo Dorian Gray a ponto de usá-la como inspiração, quiçá, de seu melhor retrato, cujo título da obra adianta esse fato. Na tarefa de modelo, Gray conhece Lord Henrique, um intelectual de espírito despretensioso perante a vida, usuário de seu nihil way of thinking como forma de superar fraquezas e frustrações. Nesse universo cabe toda existência.

A partir desse eletrizante encontro, o garoto, que como todo jovem configura-se um eterno amante do que está por vir, agarrou tudo o que lhe estava ao alcance, de forma realmente brutal; sem perceber, deixou esvair a oportunidade única de alcançar intimamente a pureza vista em si pelos olhos de Basílio.

Segundo a leitura, o maior estímulo de Gray foi um livro sugerido por Lord Henrique, já que o mesmo exercia tamanha influência em suas perspectivas, de forma que a ideia de viver a vida a seu máximo, com espírito hedonista — o moderno carpe diem — enfeitiça o garoto perante os anos seguintes de sua vida, chegando a cometer crimes e contribuir com iniquidades.

Gray remete-me ao herói de Dostoiévski em Crime e Castigo, onde assim como ele, o pobre Ródia age por impulso e comete um ato ímpio: um assassinato injustificado e hediondo. O mais curioso é que, no romance de Wilde, as tragédias ocorrem ao redor de Dorian e o mesmo se vê desassociado de todas elas: a morte de Sybil Vane e de seu irmão James, o crime cometido contra a vida de Basíl, ainda que este o adorasse, o suicídio de Alan Campbell após ajudar o jovem a desaparecer com o corpo do amigo pintor, além de diversas outras situações que circundavam o belo rapaz.

De certa forma é demostrada em parcela sua inocência, estampada em uma incômoda cegueira existencial, bem como na Bíblia está dito: para uma alma faminta todo amargo é doce (adptando, para todo mal informado ou mal influenciado).

O que se segue é lastreado em erosão. Uma frase muito dita ao decorrer da obra é: De que adianta ganhar o mundo e perder sua alma? Parece-me que Dorian Gray pagou para ver.

A corrupção da alma perante as tentações, ministrada com a total ingenuidade ilusiva do jovem, resta evidente quando Basílio ao ver o retrato que havia pintado – antes belo, agora horrendo e corrompido, ao passo que com Dorian se aventurando deformava-se a obra, já que tratava do espelho de sua alma – ainda conseguia perceber traços belos em meio aquele horror: significaria, então, que Dorian, apesar de tudo, mantinha uma certa virtude?

Cuidar da alma é uma tarefa diária de disciplina e cultivo de bons hábitos. Assim como a ausência de uma faxina compromete um ambiente, nossa alma fica comprometida quando nos tornamos relapsos por muito tempo, não limpando-a ou dando-lhe a devida atenção. Apesar do acúmulo de bolor na alma de Dorian, ou pelo menos no retrato que servia como seu referencial, no fundo restava algo bom, levando em consideração a relevância das influências negativas que concorriam para sua iniquidade. O que precisava ser feito era recuperar o tempo perdido.

Confesso que me peguei fantasiando o quão interessante seria se, assim como Dorian, tivéssemos uma referência alva e externa de nossa alma, ficando ciente de quais mazelas a mesma se queixa. A consciência que possuímos e os sentimentos que nos acometem são nebulosos: dificilmente passam uma imagem concreta da real situação do nosso espírito.

Me vi em Dorian quando após tanta mazela causada, o mesmo tentou enxugar gelo ao “resguardar” a inocência de uma jovem saindo de sua vida de forma pacata, ato esse que restou configurado fruto de mera vaidade, com viés de nova experiência, não de forma desinteressada. Por pura ingenuidade tendeu a achar que resolveria toda situação ao poupar uma moça de sua perversão desmedida.

A escassez de consistência é um dos fatores negativos do mundo moderno: em suma, opta-se pelas aparências em face de uma consciência limpa e tranquila fruto da honestidade pessoal e com o mundo que o cerca.

Assim como Dorian, muitos permanecem em um estado de putrefação espiritual por vários anos, e quando se dão conta do acumulo de tempo perdido, a surpresa é insustentável. Ao fim, o jovem quis destruir a única prova de seu estado interior, rasgando assim o retrato que gritava perversão, mas, para sua tragédia, acabou dando fim a si mesmo.

A nossa moral nem sempre é a moral do mundo, quem dirá dos seres superiores e da ordem metafísica das coisas: querer recuperar todo tempo perdido do dia pra noite ou instar resolver pendências de forma individual e isolada pode não servir de quase nada. É algo a ser feito dia após dia, ano após ano.

Empurrar com a barriga, sendo raros os momentos de reflexão e de coragem de olhar para si mesmo e para seu reflexo, percebendo os bolores da alma é um grande erro que cobra seu preço ao final.

A alma de Dorian carregava todo o fardo de suas decisões. O ideal é vivermos com a convicção de que a nossa também carrega, ainda que por trás da tela que a pinta.

Nayara Larissa Lucena Almeida — CEO e editora da TROGLODITA mag

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Pela liberdade de expressão, convergência de opiniões e construção de diálogos, escreve-se e lê-se aqui.

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Estudante de Jornalismo e Direito, intelectualmente inquieta e aprendiz da minha própria curiosidade.

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