É um banho de evidência sobre uso medicinal de Cannabis — tá na Nature.

Fabricio Pamplona
Sep 24 · 5 min read

Não bastasse a experiência acumulada de literalmente centenas de milhares de pessoas, temos um suporte de dados muito objetivos ao falar de benefícios médicos de derivados da Cannabis. A histeria e desinformação continuam imensas, mas se depender de mim, não será por falta de oportunidade.

Dessa vez, compartilho um compilado incrível de estudos realizado por ninguém menos do que a revista Nature em seu editorial da semana passada. Difícil ser mais rigoroso cientificamente do que essa que é considerada como uma das maiores publicações científicas mundiais.

Abaixo 5 estudos relevantes que foram destacados pelo editorial da Nature.

1) Espasticidade em doenças neurológicas motoras

Alívio da espasticidade é precisamente a indicação clínica do primeiro medicamento à base de Cannabis registrado mundialmente, o Sativex. Esse produto foi desenvolvido inspirado na evidência anedótica de que pacientes de esclerosa múltipla sentiam-se melhor ao fumar maconha. De lá pra cá, já se vão 8 anos que temos o Sativex registrado — inclusive no Brasil — e tem gente que ainda alega desconhecimento (sem nem ficar vermelho ao dizer que "só o CBD é medicinal"). Um estudo recente extrapola esse efeito de redução de espasticidade para outra doença neurológica motora. Nesse estudo duplo-cego controlado por placebo, mais da metade dos pacientes tratados com o extrato contendo THC/CBD melhoraram seus sintomas, incluindo o nível de dor relatado, contra apenas 13% dos pacientes no grupo placebo. Esse estudo abre esperança para aplicações de canabinoides na esclerose lateral amiotrófica e esclerose lateral primária, ambas doenças com presença marcante da espasticidade, e dor associada. Para mais detalhes veja o estudo original em Lancet Neurol. 18, 155–164 (2019)

2) A essência analgésica dos canabinoides endógenos

Esse é um estudo de caso muitíssimo curioso. Uma senhora de 66 anos que praticamente não sente dores. A observação curiosa foi realizada por seu médico ortopedista, que estranhou o baixo nível de medicação analgésica, apesar dos problemas articulares e até artrite apresentado pela paciente. Foram investigar e essa característica natural está ligada a uma variante genética dessa senhora, que possui uma enzima de degradação de endocanabinoides muito pouco ativa. Assim, a paciente apresenta níveis bastante altos do endocanabinoide anandamida no sangue, que é um analgésico natural, muito parecida com as famosas endorfinas. Curiosamente, já se tentou desenvolver um medicamento analgésico usando substâncias sintéticas que inibem essa enzima (a FAAH). Eles falharam por falta de segurança em teste toxicológico de Fase 1 em humanos, mas provavelmente ainda não se esgotaram as possibilidades para esse alvo farmacológico. Para mais detalhes veja o estudo original em Br. J. Anaesth. 123, e249–e253 (2019).

3) Redução da inflamação — sem ficar doidão

O THC é o grande canabinoide "protótipo", mas quando se fala do uso medicinal, a psicoatividade gerada por ele pode ser considerado um efeito indesejável pelos pacientes. No quesito inflamação, o ácido ajulêmico'é um canabinoide derivado do THC que não tem efeitos centrais, porque ele ativa os receptores canabinoides tipo CB2, ligados à modulação imunológica. Uma empresa farmacêutica está desenvolvendo um produto a partir do ácido ajulêmico chamado de Lenabasum, que reduz a inflamação em humanos. O estudo clínico descrito aqui mostra um efeito anti-inflamatório do Lenabasum na pele de voluntários superior ao placebo, com eficácia comparável ao de corticoides (os anti-inflamatorios mais forte conhecidos), e com um "algo a mais" — o canabinoide reduz a proliferação de microorganismos ao redor da lesão, o que favorece a cicatrização. Esse produto está em Fase 2 contra lupus eritematoso, e espera-se que seja útil também em inflamações articulares. Para mais detalhes veja o estudo original em Clin. Pharmacol. Ther. 104, 675–686 (2018)

4) Emagrecimento — os canabinoides anti-larica
Os que acompanham o campo dos canabinoides há mais tempo devem lembrar do rimonabant (no Brasil registrado como Acomplia),que prometia as mil maravilhas para emagrecimento, mas que saiu do mercado por conta de efeitos adversos psiquiátricos bastante graves. (Naquela época eu já escrevia sobre o tema… veja esse artigo de 2007 "cantando a pedra" de que o rimonabant corria o risco de sair do mercado). O bloqueio de receptores canabinoides tipo CB1 de fato continua sendo um alvo anti-obesidade importante, mas agora a novidade é que os mesmos efeitos podem ser obtidos sem o bloqueio de receptores cerebrais, o que também evita os efeitos adversos! Um dos alvos relevantes para esse efeito seria o fígado. Nesse estudo, realizado em camundongos, o bloqueio periférico de CB1 ajudou a normalizar a glicemia e os níveis de insulina, portanto contribuindo para o controle da diabetes e evitando a síndrome metabólica. Para mais detalhes sobre veja o estudo original em Hepatology 69, 1535–1548 (2019)

5) O canabidiol evita a ocorrência de psicose

A mesma edição faz referência a algo que está cada vez mais estabelecido.'É verdade que a Cannabis com altos níveis de THC provoca psicose aguda (se causa ou não esquizofrenia, já é uma discussão um pouco mais complexa). E na própria planta a solução dos seus problemas: o canabidiol provoca o efeito contrário, reduzindo a chance de psicose em indivíduos suscetíveis. O estudo relatado aqui demonstra que o uma única administração de CBD altera o funcionamento cerebral dos indivíduos psicóticos. Será o CBD um antídoto contra o efeito mais controverso da maconha? Para mais detalhes veja o estudo original em JAMA Psychiatry 75, 1107–1117 (2018)


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Neurocientista. Empreendedor. Muita história pra contar.

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