Lorenzo Rolim da Silva
May 14 · 9 min read
Campo de Cânhamo nos EUA: A commodity traz novidades e atrai investimentos como poucas vezes se viu na agricultura. Fonte: Civil Eats ( https://civileats.com/2015/11/16/will-the-promise-of-industrial-hemp-deliver/)

O Cânhamo, para quem não conhece, é apenas um outro nome para a Cannabis, sim, exatamente a mesma maconha.

Botanicamente falando, elas são a mesma espécie, Cannabis sativa L., espécie muito polêmica por uma infinidade de motivos, mas que acompanha o ser humano já faz algumas dezenas de milênios.

Classificação botânica da Cannabis. Fonte: Wikipedia.

As primeiras evidências vêm de estudos de pólen fossilizado, especificamente um estudo que eu gosto muito é um paper de 2018 do amigo John McPartland (Cannabis is indigenous to Europe and cultivation began during the Copper or Bronze age: a probabilistic synthesis of fossil pollen studies). Eu conheci o John na edição de 2018 da Masterclass Medicinal Cannabis, em Leiden, na Holanda.

O estudo explica basicamente que existem evidências de pólen de Cannabis na Europa desde aproximadamente 18500 anos atrás, logo após o fim da última era glacial. As evidências apontam que após o surgimento da espécie na Ásia central, ela dependeu do Homo sapiens para sair de lá e migrar para a Europa e, bem, para todo o resto do mundo.

Mas o que atraía os homens daquela época, ainda nômades em sua maioria (ou seja, não praticantes de agricultura), para esta espécie? Existem algumas teorias acerca do fato, as mais aceitas apontam para uma afinidade da planta com os breves acampamentos humanos daquela época. A Cannabis basicamente adora solos com alto teor de matéria orgânica, o que era uma realidade no entorno de acampamentos e pequenos agrupamentos de seres humanos devido ao descarte de restos de alimentos, dejetos orgânicos, e dejetos dos animais que nós já começávamos a domesticar na época. Considerando que a Cannabis produz e produzia sementes altamente nutritivas, fica fácil de imaginar humanos e animais consumindo as sementes e depois algumas sobrevivendo ao trato gastrointestinal humano e animal e brotando, literalmente, com perdão da palavra, no meio da bosta.

Plântula de Cannabis brotando, o começo de uma bela amizade com o Homo sapiens. Fonte: Shutterstock

O cânhamo é hoje talvez a espécie que oferece aos humanos o maior número de usos, e não deveria ser diferente a alguns milênios atrás. Parando para pensar, uma mesma planta que oferece fibra para construção de materiais, roupas e abrigos, sementes altamente nutritivas, e uma gama de efeitos medicinais (que com certeza o homem conhece há muito mais tempo do que imaginamos), fica fácil entender a afinidade da nossa espécie com essa planta desde muito tempo, e também os motivos que levaram os homens a transportar ela junto durante suas migrações para novos continentes.

Com o passar dos séculos, vemos a Cannabis aparecendo em diversas culturas humanas, principalmente na China e na Índia, onde o uso sempre foi difundido e muito apreciado, no antigo Egito e em grande parte dos povos africanos, e fortemente utilizada na Europa e no Japão por suas fibras. Não fosse o conhecimento sobre as fibras do Cânhamo, as grandes navegações europeias e a sua diáspora pelo mundo a partir do século XV jamais teriam acontecido, já que a maioria das velas e cordas dos navios eram feitas a base de Cânhamo.


Os muitos usos do Cânhamo

Alguns dos muitos usos da planta de cânhamo. Fonte: HempAlta products.

A gama de usos do cânhamo é realmente imensa: Pode ser utilizado como reforço de concreto e cimento, como substituto para fibra de vidro, muito utilizado para painéis internos de carros e outros veículos, papel, cordas, tapeçaria, tecidos (e ai entra tudo, camisetas, calças, sapatos, casacos, etc.), as fibras moídas podem ser utilizadas para finalidades diversas como substrato de plantio de outras plantas, cama para dejetos de aves ou até para gatos, isolamento térmico, absorção de produtos tóxicos quando existem derrames, mulching para plantação, biocombustíveis, azeites, proteínas isoladas (sim da pra fazer Whey Protein de Cânhamo), sementes in natura para alimentação tanto humana como animal (não existe outra espécie com uma balanço nutricional de Ômega 3/6 tão ideal para a nutrição humana), shampoos, cosméticos (convido a visitar a seção de cannabis da Sephora: https://www.sephora.com/brand/high-beauty), esmaltes, lubrificantes, solventes, óleo para mistura de tintas…. ufa, é muita coisa. E isso tudo sem falar em efeitos positivos para a agricultura como benefícios para o solo e rotação de culturas e todos os efeitos medicinais que a espécie proporciona.

Pretendo desenvolver individualmente outros textos aqui no Medium sobre alguns deses muitos usos.

Eu sou, por formação, Engenheiro Agrônomo, e confesso que se no início da graduação alguém tivesse me dito que havia uma única espécie que permite uma gama tão ampla de usos, eu teria duvidado, e se tivesse me dito que essa mesma espécie é proibida de ser cultivada, eu acharia que você está louco.

É inacreditável que uma cultura tão polivalente e que tão facilmente pode ser explorada para tantos usos seja proibida em boa parte do mundo. Por sorte isso está mudando rapidamente.

E algumas pessoas já estão trazendo iniciativas incríveis com a planta, como o meu grande amigo Avnish Pandya, co-founder e diretor da Bombay Hemp Company (BOHECO), que utiliza o conhecimento milenar do cânhamo na índia para criar uma série de produtos que vão desde nutrição até a própria linha fashion deles, a B label, tudo feito de maneira sustentável e auxiliando os pequenos agricultores das províncias dos Himalayas e dando suporte para trabalhadoras da indústria têxtil local, que muitas marcas famosas normalmente exploram de maneira brutal.

Alguns dos produtos da BOHECO pra quem não quiser entrar no site. Fonte: BOHECO.

A Revolução dos Estados Unidos da América

Em 20 de Dezembro de 2018, o presidente Donald Trump assinou e deu validade a 2018 Farm Bill, a nova lei de agricultura dos EUA. Muitos consideram esse momento como um divisor de águas na história americana, que após décadas de proibição e controle, trouxe o cânhamo novamente para o leque de produtos que podem ser explorados pelos agricultores americanos.

Klara Marosszeky, Managing Director, Australian Hemp Masonry Company Fonte: Tara Jones/FLICKR

A mudança da Lei trouxe muitas vantagens para os agricultores americanos. Quem trabalha com agricultura sabe bem o valor que uma nova cultura traz para o agricultor. Uma nova possibilidade de rotação com as culturas já existentes, uma nova fonte de renda que pode se adaptar bem a locais onde outras espécies não prosperam, e principalmente, uma nova chance para agricultores que tem dificuldades de fazer a contas fecharem no final do mês. Tudo isso principalmente em momento que o mercado internacional de CBD (você pode aprender mais sobre CBD nos textos do Fabrício aqui no Tudo Sobre Cannabis) está um momento de pleno crescimento, oferecendo boas oportunidades de renda para os produtores.

A própria Forbes e o Financial Times fizeram uma surra de posts sobre o assunto (links abaixo), todos com viés otimista e esperançoso que essa nova cultura vai trazer novo fôlego a agricultura norte americana, inclusive uma matéria da Forbes muito interessante fala sobre como o cânhamo pode ajudar até os produtores de tabaco.

Outro fator muito interessante nos EUA especificamente, é que a indústria da Cannabis como um todo está causando uma explosão na produção de pesticidas e herbicidas biológicos e orgânicos. Devido a impossibilidade de uso de muitos dos químicos tradicionais em plantas que depois serão utilizadas para produção de medicamentos, diversas empresas do país estão desenvolvendo rapidamente soluções sustentáveis e que não apresentam riscos ao meio ambiente, alterando como um todo o mercado agrícola do país.

Realmente parece que o país vai passar por mudanças profundas nos próximos anos em relação ao seu mercado agrícola, que vai ser obrigado a se adaptar e esta nova cultura no seu portfólio de produção, e isso envolve toda a logística, fertilizantes, defensivos, melhoramento genético, processamento pós colheita, entre tantos outros aspectos. Sem muito esforço da pra ver que economicamente foi uma decisão muito acertada por parte deles.


E o Brasil como fica nessa?

Pra variar, pra trás.

Será que esta cultura tão versátil pode ajudar a mudar os rumos da economia do país? Fonte: Maryjuana (https://maryjuana.com.br/)

Infelizmente nosso país ainda sofre fortemente com o preconceito, muito incutido na nossa cultura pelos próprios norte americanos, sobre esta cultura, tornando muito difícil, pra não dizer impossível, um movimento semelhante a esse no Brasil.

Falar em maconha no Brasil atrai tanta controvérsia que normalmente não da nem tempo de explicar que o Cânhamo por definição possui menos de 0,3% de THC, a substância psicoativa da planta, e mesmo assim os mais raivosos ainda dizem que “0,3 significa que ainda tem e vai ter gente abusando”. Quanto mais você tem tempo de falar sobre todos os usos possíveis.

O exemplo mais engraçado/trágico da minha vida foi quando tentei importar farinha e azeite de cânhamo para uso alimentar, a fim de mostrar para alguns investidores no Brasil e tentar futuramente alguma brecha na Lei para vender eles aqui. Long story short os produtos foram apreendidos pela Receita Federal que tinha muita vontade de me acusar de tráfico internacional. Foi uma pequena novela para eu conseguir explicar tudo para os fiscais e evitar esse problema maior, mas mesmo assim o produto foi considerado ilegal e acabou sendo tudo incinerado, perdemos tempo e dinheiro, além de arriscar o pescoço nessa, só pra trazer comida para dentro do país, uma loucura.

Imagina tentar convencer alguém então que o Cânhamo podia ser a salvação da lavoura do Brasil, literalmente. Imagina se todas as lavouras de Soja tivessem a opção do Cânhamo no inverno ao invés do trigo, trazendo benefícios ao solo e muito mais renda por hectare. Imagine cultivares naturalmente resistentes a seca dando uma nova cara para o semi-árido nordestino. Imagine espécies de alta produção de CBD florescendo nos meses mais frios do ano na região sul, trazendo muita renda para a entre safra da soja e do milho. Imagine mais uma fonte de alimento para o gado, aves e suínos, todas cadeias que o Brasil é campeão mundial de produção, e ainda uma fonte rica em proteínas e outros tantos nutrientes.

Imaginar não custa nada, mas infelizmente não vejo possibilidades de o Brasil adotar nada nesse sentido pelos próximos 4–5 anos no mínimo. Depois disso vai ser difícil devido a pressão internacional, pois já vai estar legalizado em quase todo o mundo e não vai haver razão para não existir aqui. O problema é que quando isso acontecer, já vamos estar a uns 10 anos atrás dos outros países e vamos depender das genéticas e tecnologias desenvolvidas lá fora para conseguir produzir, mais uma vez deixando o grosso do dinheiro envolvido fora do nosso país, e fazendo só o que sabemos, que é produzir commodities e exportar a preço baixo.


Tristezas a parte, o Cânhamo é uma cultura absolutamente fantástica e que merece nossa atenção, pelo menos para entendermos o que está acontecendo em outros países, e esperar que algum dia, floresça também por aqui.


Lorenzo Rolim da Silva, Engenheiro Agrônomo, trabalha na indústria da Cannabis há 5 anos e atualmente é consultor internacional para projetos de produção de Cannabis e medicamentos em diversos países da Europa, América do Norte, América Latina e África.

Atualmente escreve neste Medium a fim de trazer um novo olhar para a Cannabis dentro do Brasil e, com sorte, mudar alguma coisa.


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal e industrial. Interessou? Siga acompanhando!


Surra de referências:

Cannabis is indigenous to Europe and cultivation began during the Copper or Bronze age: a probabilistic synthesis of fossil pollen studies. John McPartland. Online em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00334-018-0678-7.

The Performance and Potentiality of Monoecious Hemp (Cannabis sativa L.) Cultivars as a Multipurpose Crop. Mario Baldini. DOI: 10.3390/agronomy8090162.

A new neglected crop. Science Magazine. DOI: 10.1126/science.356.6335.232

FORBES. How Hemp and the farm bill may change life as we know it. Andre Bourque. Online em: https://www.forbes.com/sites/andrebourque/2018/12/17/how-hemp-and-the-farm-bill-may-change-life-as-you-know-it/#60b72e78694c.

FORBES. How Hemp Is Giving Renewed Life To America’s Tobacco Farmers. Andre Bourque. Online em: https://www.forbes.com/sites/andrebourque/2019/03/25/how-hemp-is-giving-renewed-life-to-americas-tobacco-farmers/#61e7366c4726.

FORBES. We Should Be Pouring Time And Money Into Hemp, Period. Janet Burns. Online em: https://www.forbes.com/sites/janetwburns/2018/09/30/we-should-be-pouring-time-and-money-into-hemp-period/#3cb75d6b6487.

FORBES. Cannabis Is Creating A Boom For Biological Pesticides. Janet Burns. Online em: https://www.forbes.com/sites/janetwburns/2018/08/19/cannabis-could-help-biopesticides-take-root-in-american-agriculture/#757bbc02c1d0.

NATURE. Cannabis used in US research differs genetically to the varieties .people smoke. Sara Reardon. Online em: https://www.nature.com/articles/d41586-019-01415-z.

SCIENCE. Hemp hemp hooray for cannabis research. Craig Schluttenhofer, Ling Yuan. Online em: https://science.sciencemag.org/content/363/6428/701.2.

WIKIPEDIA. Cannabis sativa. Online em: https://en.wikipedia.org/wiki/Cannabis.

Civil Eats.Will the Promise of Industrial Hemp Deliver?Lisa Munikssa. Online em: https://civileats.com/2015/11/16/will-the-promise-of-industrial-hemp-deliver/.

FINANCIAL TIMES. The need for weed: why Wall Street is getting hooked on cannabis. Online em: https://www.ft.com/content/433db5f8-4663-11e9-b168-96a37d002cd3.

FINANCIAL TIMES. Is Cannabis the new bitcoin? Online em: https://www.ft.com/content/a85b388a-3eab-11e9-9499-290979c9807a.

AgUpdate. With Trump signature, farm bill brings some certainty to 2019. Online em: https://www.agupdate.com/midwestmessenger/news/state-and-regional/with-trump-signature-farm-bill-brings-some-certainty-to/article_8e643f24-055a-11e9-a510-af4d31ec59a5.html.

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