Conferência sobre Cânhamo Industrial em Montevideo — América Latina cheia de novidades!

Nos dias 8 e 9 de Novembro ocorreu o Latin America & The Caribbean Hemp Summit: High-Potential Hemp Markets no hotel Hyatt Centric Montevideo.

O objetivo da conferência foi trazer pessoas e conhecimento da Europa e América do Norte para empresas interessadas em avançar no cultivo do Cânhamo Industrial na América Latina e no Caribe, e posso dizer que o objetivo foi alcançado com sucesso! O evento foi organizado pela Hemp Today uma empresa de comunicação e eventos internacional, que leva profissionais da área e conhecimento a diversos países.

Eu tive a honra de ser o único palestrante brasileiro no evento, e um dos poucos presentes também (haviam apenas outros 2 brasileiros no total, sendo que um foi meu convidado, demonstrando que ainda temos muito o que conscientizar nossos conterrâneos sobre os diversos usos desta planta). Aproveitei a oportunidade para falar sobre toda a potencialidade agrícola do Brasil, além de comentar sobre alguns projetos que estou desenvolvendo com Cânhamo Industrial.

Além dos poucos brasileiros, haviam Argentinos, Colombianos, Chilenos, muitos Uruguaios, Porto-riquenhos, Americanos, Canadenses, Franceses, Alemães, Australianos, Checos, e mais algumas nacionalidades (22 no total do evento).

A troca de experiências foi bastante rica e as expertises também eram diversas, o que gerou um Networking muito expressivo. Haviam pessoas envolvidas com fabricação de máquinas agrícolas para cultivo e colheita de cânhamo, processamento industrial de sementes, plantio e produção, advogados e legisladores, usos inovadores para diferentes partes da planta, produtores de canabinoides, comunicadores, traders de commodities, entre outros.


Destaque 1: Incentivo do Governo Uruguaio.

O primeiro ponto a se destacar do evento foi com certeza o apoio do governo uruguaio e as possibilidades que eles entendem ser muito positivas para o país. O ministério da Agricultura estava até distribuindo panfletos com informações sobre o cultivo no país para atrair investidores estrangeiros.

Panfleto distribuído pelo Ministério da Agricultura Uruguaio, demonstrando toda a potencialidade e registros necessários para estabelecer o cultivo no País.

Além disso, o Governo uruguaio está realizando um esforço grande para trazer toda a cadeia produtiva para o país, auxiliando os produtores que estão estabelecidos lá. Estão favorecendo processos de registro de novas cultivares (inclusive já existem cultivares com pedigree uruguaio registradas), agilizando a liberação de novas licenças e oferecendo suporte técnico a agricultores que gostariam de iniciar atividades com a espécie.

O Uruguai realmente ofereceu as pessoas que compõe os quadros técnicos de seus ministérios a oportunidade de estudar e compreender realmente a cultura do cânhamo. Todos os envolvidos sabem detalhes técnicos e como a produção funciona na realidade dos produtores rurais locais. Comparado as interações que já tive pessoalmente com o nosso MAPA, o nível de discussão dos uruguaios está bastante adiantado, evitando ter que explicar detalhes básicos sobre a planta e seus usos, como era o caso toda vez que falei com um técnico brasileiro.

No Uruguai o uso de Cânhamo está ganhando bastante espaço em relação a usos alimentares e fibras, e as principais produções de canabinoides estão sendo desenvolvidas com foco na exportação. Enquanto estava por lá tive o prazer de visitar algumas áreas de produção de empresas que fazem exatamente isso, utilizam folhas para a produção de um erva mate misturada (Ilex + Cannabis) e, ao mesmo tempo, vendem as flores para clientes internacionais (principalmente na Oceania e Europa).

Vale ressaltar que contaram com todo o apoio do Ministério da Agricultura na hora de realizar os testes necessários de segurança para incluir as folhas de Cannabis nas erva mate, sem qualquer preconceito ou perseguição do governo, pelo contrário, segundo o que me informaram o governo estava ansioso por colocar produtos novos no mercado.

Duas opções de erva mate disponíveis em supermercados no Uruguai.

Destaque 2: Toda a América do Sul está avançando rápido.

Foi uma surpresa bastante gratificante ver pessoas de praticamente todos os países da América do Sul, exceto brasileiros, que se não fosse por mim e meu convidado, além de um amigo Engenheiro Agrônomo que trabalha em uma empresa Uruguaia de produção de Cannabis, não teríamos sequer um representante.

Haviam muitos interessados da Argentina, país que está avançando rapidamente para retomar sua produção do passado, a Argentina produziu cânhamo industrial até 1974, e tinha muito sucesso combinando o cultivo com a produção de gado. Com a mudança de governo federal, mais favorável ao tema, todos estavam bastante otimistas que no próximo ano teremos avanços rápidos para a produção local, principalmente nas regiões de Córdoba e Santa Fé, tradicionalmente produtoras de grãos em grande escala.

Outro país presente, e que surpreendeu positivamente, foi o Paraguai. O país acaba de alterar sua legislação, permitindo cultivo de Cânhamo industrial e priorizando os pequenos agricultores, que possuem até 2 hectares de área produtiva. Os paraguaios estão muito confiantes que o país será um grande produtor mundial rapidamente, apostam que nesse primeiro ano a safra será experimental, para que os produtores se adaptem as tecnologias de produção e processamento, e que já em 2020/2021 o país estará exportando todo tipo de sub produto que pode ser produzido pela espécie. Considerando o amplo potencial agrícola do país e clima favorável, acredito que vamos ver um aumento exponencial da produção Paraguaia nos próximos anos.

Colômbia, que obviamente já é um líder regional em termos de Cannabis, estava presente com representantes de algumas diferentes empresas. O país caminha a passos largos para dominar o cenário sul americano de produção. O governo Colombiano favoreceu bastante a produção local quando permitiu o registro de diversas cultivares que já existiam no país e mesmo trazidas de outros países. Isso fez com que vários produtores locais hoje tenham uma lista invejável de cultivares adaptadas a produzir naquela zona climática. Hoje a Colômbia conta com centenas de licenças, divididas por todas as regiões do país, várias contam com produção, extração, formulação final e exportação para mercados de fora. O mais interessante foi ver que há desenvolvimentos bastante sérios vindos de lá em relação ao Cânhamo Industrial, com empresas focadas em diversos tipos de desenvolvimento com partes da planta, com destaque para uma empresa que está buscando usos no mercado energético, buscando substituir o uso de carvão em usinas termelétricas.

Os usos do cânhamo realmente parecem estar limitados somente pela imaginação de quem trabalha com a planta.

Haviam representantes também do Chile, país que vive um momento conturbado politicamente mas que tem apresentado avanços significativos na área de Cannabis nos últimos anos. O Chile era tradicionalmente reconhecido por ser um pais “Cañamero”, utilizando produções em larga escala para atender a indústria naval durante muitos anos. Hoje as principais iniciativas do país estão concentradas na produção de produtos alimentares e também para atender as necessidades de uso médico da população local.

O Peru é outro país que está correndo atrás para alcançar uma produção nacional. O país viu que a vizinha Colômbia estava avançando e gerando milhões de dólares em investimento e alterou sua lei para permitir a produção de Cannabis lá também. Hoje o Peru apresenta um bom potencial futuro, pois possui extensas áreas de deserto na altitude que contam com irrigação, condições quase ideais para produzir Cannabis e Cânhamo. O país deve seguir o exemplo dos vizinhos e produzir com foco na exportação a mercados Europeus.

Haviam também representantes de alguns países do Caribe, com destaque para participação de Porto Rico, que tradicionalmente é um hub internacional de empresas farmacêuticas e conta com excelente infraestrutura para tal. Os participantes do congresso enfatizaram justamente esse benefício do país e o fato de que lá é uma jurisdição dos EUA, o que significa portanto que, desde a a assinatura do presidente Trump, o Cânhamo é perfeitamente legal para cultivar e processar.

Vendo todos estes avanços significativos, da uma tristeza pensar que o Brasil possui um potencial agrícola maior que de todos estes (talvez até combinados) e não possui nenhum avanço significativo em relação ao cultivo. Aguardamos por dias melhores.


Destaque 3: O interesse internacional.

Como já é de praxe na indústria da Cannabis, os grandes investimento vem da América do Norte e da Europa, e isso ficou bem claro durante o evento.

Os participantes Europeus todos olham para a América do Sul como o futuro da produção de Cannabis no mundo, e buscam oportunidades de investimento e também para oferecer apoio em diferentes etapas da produção de Cânhamo que ainda carecem de muita atenção para atingirmos um patamar satisfatório por aqui. O destaque é para o apoio na aquisição de genéticas industriais europeias, que são bastante reconhecidas mundialmente, e também de maquinário de plantio e processamento. Os alemães são destaque na área, haviam representantes de empresas de maquinário de colheita, processamento de fibras e grãos e construção civil. Todos acreditam que os avanços na América do Sul tem o maior potencial hoje e querem trazer seus produtos e soluções para os cultivadores daqui.

Havia também uma empresa da república Tcheca que produz alimentos a base de Cânhamo além de explorar também as fibras para produção têxtil. Eles possuem também uma operação de distribuição de sementes de diferentes genéticas, sendo uma boa fonte para empresas daqui adquirirem sementes (Hempoint Czech Republic).

Produtos de empresa da República Tcheca no evento em Montevideo. Os chocolates são realmente muito bons.

Haviam ainda representantes da Austrália, Americanos e Canadenses. A maioria destes envolvida com melhoramento genético e desenvolvimento de novas cultivares. As genéticas de Cânhamo Industrial hoje atingem valores excepcionais de produção de canabinoides (não THC, é claro) e já atingem patamares de produção de grãos que rivalizam com culturas tradicionais, como a Soja (2800–3000 kg/ha).

A variedades dedicadas a produção de fibra são de longe as mais evoluídas, algumas cultivares europeias chegam a produzir mais de 20 ton por hectare de fibras secas, demonstrando que a planta é um fixador de carbono sem igual na natureza, além de prover materiais para uma infinidade de usos.


Conclusão: Uma tremenda oportunidade.

A principal conclusão que tirei deste evento é que foi uma grande oportunidade para quem é interessado na área. As possibilidade de networking que foram apresentadas foram excepcionais, estou até agora enviando emails de follow up sobre diferentes projetos e colaborações potenciais.

O evento também serviu para demonstrar como um governo sóbrio lida com o tema Cannabis e Cânhamo, e estendo meus parabéns com louvores ao governo Uruguaio, que está trabalhando ativamente para desenvolver a indústria local e trazer novos investimentos para a área.

Me pergunto até quando o Brasil (e aí não falo só de governo, mas de população em geral) vai ignorar uma oportunidade deste tamanho. Conheço bem a indústria de Cannabis brasileira que se desenvolveu até hoje (principalmente porque trabalhei por dois anos em uma das pioneiras), e que merece os parabéns por trabalhar em um país que não permite boa parte de suas atividades, porém é notório que outros países da América do Sul permitem uma evolução muito mais rápida para as suas empresas e um ambiente de negócios muito melhor. Uma pena, pois temos de longe o maior potencial produtivo da região e capacidade de sermos a referência de produção. Espero que não deixemos esta oportunidade passar, pois uma vez que o mercado internacional esteja saturado, será difícil convencer a adoção por parte dos produtores brasileiros, que não vão querer enfrentar uma longa curva de aprendizado, e investimento, antes de colher os frutos. Esta curva já está superada na maioria dos países a nossa volta, criando uma competitividade desleal para quem quiser produzir no Brasil, e isso tende a piorar a cada dia que passa.


Lorenzo Rolim da Silva, Engenheiro Agrônomo, trabalha na indústria da Cannabis há 5 anos e atualmente é consultor internacional para projetos de produção de Cannabis, medicamentos e outros produtos em diversos países da Europa, América do Norte, América Latina, África e Oceania.

Atualmente escreve neste Medium a fim de trazer um novo olhar para a Cannabis dentro do Brasil e, com sorte, mudar alguma coisa.


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal e industrial. Interessou? Siga acompanhando!

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Conteúdo ponta firme sobre tudo de relevante no universo da Cannabis e canabinoides.

Lorenzo Rolim da Silva

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