Indústria do CBD em cheque: os equívocos mais comuns a respeito do canabidiol

Fabricio Pamplona
Nov 1, 2019 · 5 min read

Estou escrevendo aqui do congresso da Associação Internacional de Medicina Canabinoide (IACM), umas das associações mais antigas, e que foi fundada na Alemanha.

É hoje um dos mais conceituados congressos na área em todo o mundo, bastante baseado em experiência médica, pacientes, e… pesquisa. Afinal, aqui estamos falando de ciência.

Temos poucos participantes do Brasil, nessa ocasião somente eu, a Dr. Paula dal Stella e o Dr. José Crippa. Pelo menos são representantes que tem o que contribuir com a sociedade, não é? Acho que estou em boa companhia.

Queria ressaltar conteúdo de duas palestras de pesquisadores referências mundiais e que admiro muito: Dr. Ethan Russo, o médico responsável pelo registro do Sativex, e atual diretor de pesquisa do ICCI e Dr. Arno Hazenkamp, o fitoquímico por trás da padronização das plantas da Bedrocan, e agora consultor independente. O tema é um só: canabidiol.


Ambos chamam atenção pra algo que já temos alertado por aqui: o que chamamos de "CBD" pode não ser o que você encontra por aí. Ou em outras palavras, comprando "CBD" na internet você pode muito bem estar comprando gato por lebre…

É uma pena, mas realmente tem muita falcatrua no mercado, seja por falta de qualidade, informação duvidosa ou pura enganação mesmo.

Dr. Ethan Russo chama atenção para os conceitos errados que se tem a respeito do canabidiol. Ou melhor dizendo, talvez aspectos do "hemp oil" que são erroneamente atribuídos exclusivamente ao CBD.

Foto minha da palestra do Dr. Ethan Russo, ontem aqui na Alemanha no congresso da IACM.

Os questionamentos trazidos e ilustrados no slide acima:

  1. CBD é ativo em doses muito baixas. Na verdade é provável que se esteja atribuindo ao CBD um efeito que é de sinergia entre o CBD e demais componentes do "hemp oil", como eu mesmo demonstrei em um artigo de meta-análise, que hoje em dia já está ficando famoso (inclusive foi mencionado pelo Ethan Russo em sua apresentação.
  2. CBD é considerado sedativo, quando na verdade não é. Muita da sedação atribuída ao CBD deve ser relacionado à interação deste canabinoide com os anti-epiléticos, uma vez que ele seu uso é frequentemente relatado em crianças com epilepsia refratária, em tratamento coadjuvante com outros anti-epiléticos bastante sedativos, por exemplo o clobazam. Além disso, deve-se ressaltar a presença do mirceno nos extratos comercializados, que pode sim ser sedativo.
  3. CBD é "apenas um suplemento e é legal". Não, infelizmente não é. O CBD, inclusive no Brasil é um composto considerado controlado, comercializado exclusivamente por prescrição médica com retenção de receita e produzido somente por empresas com autorização para produção de narcóticos. Mesmo nos Estados Unidos, há uma regulamentação específica para produção do que se veio chamar de "CBD", mas que na verdade é "hemp oil", ou óleo de cânhamo, no Brasil. A verdade é que a nossa legislação não traz distinção entre Cannabis e cânhamo e precisa ser atualizada nesse sentido, mas na prática, o CBD em si é controlado.
  4. CBD se torna THC no organismo. De fato há um artigo mostrando essa conversão em meio ácido, e já é conhecido há muito tempo. No entanto, não há nenhuma evidência de que isso ocorra no organismo humano. Quando há intoxicação por THC em produtos que se considerava "CBD" é por erro de identificação, produção ou adulteração mesmo.

São afirmações bastante fortes não são? E todas, absolutamente todas verdadeiras e baseadas em evidências reais. Diferente daquele site na internet que tenta lhe vender um mundo cor de rosa… vendo de perto é tudo um pouquinho mais complicado.

Foto minha da palestra do Dr. Arno Hazenkamp no congresso da IACM hoje em Berlim.

O Arno traz um aspecto bem interessante: o CBD é o "poster child" dos canabinoides. Na gíria do sul, diríamos que ele é o "guri bom". Tem efeito terapêutico, totalmente natural, não dá barato, pode ser usado em criancinha… e ao mesmo tempo tem um pode de marketing incrível e pode ser vendido com uma certa liberdado em vários países (seja com regulamentação própria ou como derivado do "hemp"). É muito sedutor e sua adoção por diversos mercados parece mesmo algo irreversível (e até acho que seja mesmo).

Contudo, o que costumamos considerar "CBD", como eu já disse acima, não é sempre o que se espera. Segundo um estudo mencionado por ele, temos estes números terríveis.

De 75 produtos vendidos como "CBD" e testados:

  • 44 continham CBD de fato
  • 13 tinham rótulo
  • 0 estavam corretamente rotulados

Você não leu errado. NENHUM dos produtos continham informações corretas em seu rótulo, e 31 deles (mais de 40%) sequer continham CBD em sua composição.

A foto abaixo mostra um slide do próprio Arno (que é uma das autoridades mundiais em fitoquímica de canabinoides, diga-se de passagem) analisando 46 produtos vendidos como "CBD" na Holanda.

Dê uma olhada por si mesmo na variação de composição entre eles… em azul temos o teor de CBD e em vermelho temos o teor de THC. Oooops, alguns deles tem uma quantidade bastante razoável de THC. E outros praticamente não tem CBD lá dentro. Que coisa feia!

Arno disse que literalmente tem recebido ameaças dos fabricantes destes produtos e que não está nem aí, afinal a verdade precisa vir`à tona e os pacientes estão em primeiro lugar.

Conheço um projeto no Brasil que também revelou algumas verdades e sofreu críticas… afinal, esse tipo de produto fraudulento está sendo vendido em tudo quanto é lugar. Até quando vamos ter que aguentar esse tipo de coisa, sem uma regulamentação adequada que garanta a qualidade em nosso país?


Conteúdo ponta firme sobre tudo de relevante no universo da Cannabis e canabinoides.

Fabricio Pamplona

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Tudo Sobre Cannabis
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