Maconha, obesidade e diabetes. Essa associação tem fundamento?

Fabricio Pamplona
May 7, 2019 · 8 min read

A visão popular de um usuário de Cannabis é de um camarada com o olho vermelho, hippão, falando besteira, talvez sonolento e com FOME… muita FOME, praticamente querendo comer tudo que vê pela frente. Esse efeito, chamado de "larica" é bem real, e considerado positivo e bem vindo na medicina paliativa em pacientes com HIV ou câncer. Mas no imaginário coletivo é uma associação divertida e que gera muitas piadas (e memes).

Esse cidadão se deliciando com um macarrão está a coisa mais linda, não é? Haja vontade de comer… Há evidências de que usar Cannabis dê um "craving" agudo para carboidratos. E às vezes, a fome é tão grande que o indivíduo devora alguma combinação estranha de doce com azedo e salgado. Alguma larica doida dessas.

Pra quem tiver interesse, tem artigos muitos detalhados sobre como e porque o THC da maconha causa um aumento de apetite. Tem a ver com a perda de regulação do sistema de saciedade em uma região do cérebro chamada de hipotálamo. A história toda é ainda um pouco mais complexa, porque se sabe que o THC também reduz a produção de leptina pelas células de gordura, e aumenta a produção de grelina pelo estômago/intestino, o que em conjunto "sinaliza fome" para o cérebro. Ele também aumenta nossa sensibilidade olfativa, tornando o aroma apetitoso de comida um estímulo ainda mais atrativo. Junte a isso a dificuldade de inibir o o comportamento, típica de quando se está sob o efeito da Cannabis, e BUM, está aí o motivo da danada da larica.

Em um experimento a la "Big Brother" feito na década de 80, que parece ter saído da série "Maniac" do Netflix, um grupo de indivíduos ficou confinado em uma casa, com comida de todos os tipos à vontade e acesso a 2 baseados por dia cada (e bem fraquinho até, apenas 2.3% de THC). Quem desse azar pegava o baseado de placebo. O total e o tipo de comida consumido foi avaliado durante duas semanas, e adivinha… foi identificado um aumento marcante no consumo de comida enquanto os indivíduos que tinham fumado estavam sozinhos ou interagindo socialmente. O comportamento típico foi um aumento na ingesta de alimento ingerido (e não por comer mais vezes), particularmente alimentos sólidos como "barrinhas de chocolate". A larica de doce foi maior do que a de refrigerante ou de batata chips, nesse estudo.

Pra quem não assistiu a série "Maniac", aí vai uma legenda que ajuda. Os personagens ficam confinados em uma espécie de laboratório "residencial" e são monitorados por câmeras e computadores super sofisticados enquanto são cobaias de experimentos farmacêuticos. Muito doido, mas se fazia ciência assim nos anos 80.

No total, o aumento calórico gerado foi de 40% e o ganho de peso foi desproporcionalmente maior do que o esperado pelo aumento de ingesta calórica, o que é preocupante. Mas vale ressaltar que estudos usando THC sintético por via oral não replicaram esse efeito, então o “high” gerado pela via inalatória pode ser importante nesse efeito, ou então, mais provavelmente é apenas uma questão da dose sérica atingida (que é muito mais alta pela via inalatória do que oral).


Mas por que estou falando sobre isso mesmo? Porque essa associação entre "fumar maconha" e "comer demais" levou alguns cientistas a se perguntar se havia uma relação direta entre esse hábito e o desenvolvimento de obesidade e diabetes tipo 2. Hoje se sabe que esses dois fatores são determinantes para a síndrome metabólica, que é um problema seríssimo e fator de gerador de uma série de doenças crônicas graves como hipertensão, AVC doenças renais, distúrbios de sono e por aí vai.

Barriguinha de “erva”, isso existe?

Pelas evidências que se tem até agora, os estudos não mostram uma associação direta entre uso de maconha e circunferência abdominal. Tem estudo mostrando todo tipo de evidência, como bem discutido nesse artigo de um site de saúde da internet. Resumo da ópera é que os estudos são inconclusivos. E desses todos, o estudo considerado de maior qualidade, da Associação Americana de Cardiologia, não achou associação entre o tamanho da pança e o hábito de usar maconha. Como sabemos, isso é culpa da cerveja! De fato, a principal conclusão do estudo foi que a maconha em si não causa grandes problemas metabólicos ou cardiovasculares (não houve diferença entre os grupos), mas ela aumenta comportamentos que prejudicam a saúde, como excesso de consumo de carboidratos e consumo de álcool…

uem estiver afim de mergulhar nas referências sobre maconha e larica, tem aí um prato cheio no artigo https://examine.com/nutrition/cannabis-munchies/

Deixo acima algumas referências para quem quiser se aprofundar especificamente sobre esse tema pra discutir com seus amigos cervejeiros, mas se me permitir eu gostaria de continuar o texto me aprofundando num tema mais preocupante do ponto de vista de saúde: diabetes e síndrome metabólica. Mais preocupante do que o ganho de peso em si, que afeta a balança, mas não necessariamente a sua saúde, são os parâmetros metabólicos em si. E aí, mais uma vez, tem estudos com evidências diferentes.

O estudo "costumeiro" de institutos tradicionais que estudam abuso de drogas e dependência como o NIDA (National Institute of Drug Abuse) dos Estados Unidos, costuma pegar amostras de usuários crônicos bastante pesados. Nesse estudo, por exemplo, a amostra constituia de de 30 indivíduos que se declararam usuários crônicos a cerca de 9 anos, fumando em média 6 baseados por dia (com uma variação de 3 a 30 baseados). Ou seja, é o que provavelmente chamariamos de um dependente, até um junkie, que normalmente está associado a drogas muito mais pesadas como heroína, metanfetamina ou crack. Pois bem, esses voluntários foram comparados com 30 indivíduos pareados para todo os parâmetros controaldos (idade, gênero, etnia, e índice de massa corporal). Aliás, o índice de massa corporal médio do grupo era de 27, o que é de alto sobrepeso, mas não chega a ser obeso.

Os indivíduso do estudo apresentavam IMC de 27, ou seja, bem gordinho (sobrepeso), mas não obeso.

O estudo conlcluiu algumas coisas interessantes sobre os usuários crônicos:

  1. O consumo calórico dos usuários crônicos era normal, mas a porcentagem de energia obtida por carboidratos era muito superior aos não usuários.
  2. Não houve diferença no peso corporal ou quantidade de gordura, mas a distribuição de gordura visceral abdominal (que é considerada ruim) foi bem maior nos usuários do que nos não usuários.
  3. O nível de HDL ("colesterol bom") estava reduzido nos usuários.
  4. Houve maior dificuldade no controle da glicemia no teste de tolerância à glicose oral
  5. Sem diferenças nos níveis de glicose, insulina, colesterol total, LDL, trigligerideos, índice de sensibilidade à insulina, atividade das células pancreáticas ou esteatose.

Isso tudo é um indicativo relativamente sólido de um quadro bem conhecido: pré-diabates tipo II, com risco de caminhar para síndrome metabólica… estudos de mecanismo in vitro também não são nada animadores, e dão a entender que o THC da maconha ajuda a acumular gordura, e pior, atrai células inflamatórias para os tecidos adiposos.

Mas antes de se assustar com isso tudo, vamos procurar entender um outro tipo de evidência: a epidemiologia. Enquanto o estudo anterior comparou 30 usuários crônicos "atípicos" com 30 não usuários, temos estudos tentando entender o impacto do uso de maconha em uma população heterogênea, digamos, em uma sociedade "normal".

Um dos mais recentes, e de alta qualidade, foi realizado no Canadá como parte da "National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions", com nada menos do que 36.309 participantes conduzido pelo Instituto de Ciência Médica da Universidade de Toronto. Neste caso o uso de maconha foi atribuído apenas como "uso rotineiro/diário" ou "usei nos últimos 12 anos", e esses grupos foram comparados com o grupo de pessoas que nunca usou na vida. Nem na faculdade, nem sem tragar. Nunca, nunquinha.

Curiosamente, os próprios autores declaram seu viés na introdução do estudo, dizendo que esperavam encontrar uma maior prevalência de diabetes nos usuários de maconha. Curiosamente, a principal conclusão é justamente o contrário: houve uma menor prevalência de diabetes nos usuários esporádicos ou costumeiros. O risco de diabete foi reduzido em 19% nas pessoas que já haviam usado alguma vez e em 49% nos indivíduos que declararam ter fumado no último ano. Não é incrível? Eu me surpreendi.

Imtiaz S, Rehm J. The relationship between cannabis use and diabetes: Results from the National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions III. Drug Alcohol Rev. 2018 Oct 4. [in press]

Os próprios autores acham que é bastante cedo para dizer que essa associação é definitivamente "positiva" entre uso de maconha e redução do risdo de diabetes, e mais estudos são necessários, pois o tema é controverso. Mas eles sugerem uma diferença importante, e que pode ter contribuído pro resultado: eles intencionalmente excluíram indiviíduos miseráveis, que estavam morando na rua ou em albergues. Na minha opinião, essa é uma abordagem radicalmente diferente do que se costuma ver nos estudos tradicionais que de dependência, e leva a uma conclusão muito mais realista sobre os efeitos da substância em si, independente dos efeitos decorrentes da situação degradante em que as pessoas que moram nas ruas são submetidas.

Mas para mostrar que o assunto não se encerra aqui, abaixo mais 4 estudos epidemiológicos mencionados nesse outro:

  1. Bancks et al 2015: não houve associação direta entre o uso de maconha e diabetes. Contudo, ao longo do follow-up de 18 anos de mais de 3 mil indivíduos, foi identificado um risco aumentado de pré-diabetes nos indivíduos que relataram já ter fumado mais de 100 vezes na vida.
  2. Danielsson et al 2016: estudo sueco que acompanhou 17.967 pessoas por vários anos, e aparentemente houve uma tendência contrária à ocorrência de diabetes tipo II nos usuários, mas com influência da idade.
  3. Rajavashish et al, 2012: estudo americano com quase 10.896 indivíduos encontrou associação inversa entre uso de maconha e ocorrência de diabetes, com um adendo interessante: os níveis de inflamação do corpo medido por proteína C reativa (PCR) foram proporcionalmente menores, quanto mais frequente o uso.
  4. Alshaarawy et al 2015: esse não é um estudo clínico direto, mas uma meta-análise com 8 estudos válidos. A conclusão foi de associação inversa entre uso de maconha e ocorrência de diabetes.

Todos os autores são cautelosos em afirmar uma relação causal, como bem deveriam dadas as limitações de estudos epidemiológicos, mas o resultado é intrigante, porque afinal estamos falando de um volume macisso de dados que já foram analisados… pode ser o meu próprio viés de interpretação, mas acho que se a notícia fosse "Maconha causa diabetes", apenas um estudo bastaria para estampar a capa dos jornais com uma bela manchete.


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Fabricio Pamplona

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Neurocientista. Empreendedor. Muita história pra contar.

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