Fabricio Pamplona
Apr 30 · 5 min read

A essa altura já não é mais novidade que em vários países, incluindo o Brasil em determinadas circunstâncias, você pode fazer uso terapêutico do canabidiol. No nosso país, é imprescindível que você tenha uma prescrição médica e uma autorização de importação pela ANVISA, e consiga comprá-lo de um dos produtores inseridos no Anexo I da versão mais recente da RDC344/98 atualizada. Isso é o que está no livro texto. Na prática, encontra-se CBD até no mercado livre, e já fui informado de que há quem venda em filas de hospital. São literalmente "sacoleiras de CBD" andando pra cima e pra baixo com mochilas e bolsas lotadas do produto. Isn't it ironic?

Muita gente me pede informações sobre "bons fornecedores" de CBD, e honestamente, é uma pergunta difícil de responder. Primeiro porque tem muitos, segundo porque a imensa maioria são todos iguais. Ou pior do que isso: são todos "white-labels" de um punhado de fábricas gigantes no Colorado ou leste Europeu. Então, é bem complexo de diferenciar. Mas como me deparei recentemente com um texto falando exatamente disso, resolvi compartilhar com vocês, traduzindo pro português. Você encontra o original aqui: https://cbdhealthandwellness.net/2019/02/28/what-to-look-for-when-shopping-for-cbd/

  1. O produto é testado por um laboratório certificado?

Nos medicamentos comuns, essa função de fiscalização é da ANVISA. Como o "CBD" está numa zona cinzenta, na prática, mesmo os importados entram no país sem ter que necessiariamente ter um controle de qualidade compatível com produto de saúde.

No entanto, todo produtor confiável deve ter seus produtos testados, com certificação de qualidade preferencialmente expedido por um laboratório certificado externo. Idealmente o certificado de análise do lote deve estar disponível no site do produtor. O certificado de análise deve no mínimo apresentar a razão de CBD:THC, mas idealmente deveria também, apresentar outros testes como presença de metal pesado, pesticiadas, e etc

2. Menos de 0,3% THC

Vamos dar nome aos bois. O "CBD" que a imensa maioria tem acesso é na verdade um extrato bruto de cânhamo, ou "óleo de cânhamo". Assim, pra ser de fato um produto legal no seu local de origem, ele precisa vir de uma fonte com menos de 0,3% de THC (segundo a orientação internacional da UNODC). Se o produto não garantir esta concentração, ou não mencionar nada, é possível que você tenha se deparado com um produto que seja ilegal. O risco de usar um produto com concentração maior, particularmente para importação é ser enquadrado como traficante internacional. E fora isso, ter um efeito perceptível do THC…

3. Origem do CBD

O CBD derivado do cânhamo garante que você terá os benefícios do CBD, sem qualquer efeito perceptível do THC. Mas a qualidade do cânhamo faz toda a diferença. Há extraçoes oriundas de Cannabis com alto nível de CBD, ou variantes do cânhamo que estão sendo selecionadas para maior produtividade. Na prática, a proporção e CBD:THC pode mudar e já se tem notícias de produto contendo até 6% de THC, embora não diga no rótulo. No cânhamo “nativo”, a proporção de CBD:THC é um pouco acima de 10:1, então se costuma ter 3–4% de CBD e menos de 0,3% de THC. Esse é o cânhamo, ou “fiber-type hemp”.

Fora isso, o cânhamo industrial frequentemente não é cultivado em condições adequdas ao consumo humano, particularmente para um produto de saúde. Daí que vem as notícias de contaminação por pesticidades e metais pesados, se isso acontece é culpa dos produtores que compraram cânhamo de uso industrial, em geral têxtil, em que não há preocupação ou necessidade em se controlar ou evitar estes contaminantes. Idealmente, adquira produtos de origem conhecida, e onde o próprio produtor cultiva as plantas de maneira controlada. O nível de qualidade costuma ser muito superior, e é mais garantido.

4. Qual o "tipo de CBD" no produto?

Hoje em dia se fala em CBD isolado ou "full spectrum" e acredito que isso cause muita confusão entre as pessoas. A promessa do CBD puro é justamente evitar o contato com THC, e portanto estar seguro de não ter nenhum efeito psicoativo associados àquela molécula.

Contudo, há experiência acumulada e relatos de que o extrato bruto contendo CBD tem algumas vantagens sobre o purificado. As evidências ainda são mais anedóticas e de estudos observacionais, mas pelo menos para epilepsia, eu mesmo publiquei um estudo de meta-análise onde analisamos os estudos clínicos disponíveis e isso parece fazer sentido mesmo. O CBD no extrato (ou seja, em uma matriz vegetal complexa, ou fitocomplexo) tem o mesmo efeito do CBD puro, mas requer doses muito menos para exercer estes efeitos, o que acaba, por rebote, gerando menos efeitos colaterais. Parece um benefício relevante para usuários crônicos. Por outro lado, o CBD puro é bem mais "controlado" e possivelmente mais previsível em termos de composição.


A principal dica: compre de alguém que lhe pareça confiável, que detenha todos o processo produtivo, do cultivo da planta ao produto final, e que dê suporte. Evite comprar de desconhecidos no mercado livre ou na rua. Trate o CBD como um medicamento ou produto de saúde que você compraria na farmácia… só que, uma pena, ele ainda não é vendido na farmácia por estas bandas. Minha sugestão é escolher algum dos produtores autorizados no país de onde você deseja trazer e criar um relacionamento com a empresa. Pergunte mesmo, e perceba o nível de confiança, transparência e apoio que eles lhe dão. Enquanto não temos um aval bem feito pela nossa agência regulatória sobre quais produtos estão de acordo ou não, é por aí, fica tudo nas mãos do paciente e dos médicos que se aventuram nesta área. Boa sorte!


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal, um campo da medicina que está florescendo nos últimos anos. Às vezes, a gente se arrisca a falar de uma outra curiosidade menos explorada sobre este planta. Interessou? Siga acompanhando!


References:

Texto traduzido da fonte: https://cbdhealthandwellness.net/2019/02/28/what-to-look-for-when-shopping-for-cbd/

  1. Blessing, E.M., et al, Cannabidiol as a Potential Treatment for Anxiety Disorders, Neurotherapeutics. 2015 Oct; 12(4): 825–836, doi: 10.1007/s13311–015–0387–1, [Times Cited = 121; Journal Impact Factor = 5.719].
  2. Hammell, D,C., et al, Transdermal cannabidiol reduces inflammation and pain-related behaviours in a rat model of arthritis, Eur J Pain, 2016 Jul; 20(6): 936–948, doi: 10.1002/ejp.818, [Times Cited = 30; Journal Impact Factor = 3.218].
  3. Perucca, E., Cannabinoids in the Treatment of Epilepsy: Hard Evidence at Last?” J Epilepsy Res. 2017 Dec; 7(2): 61–76, doi: 10.14581/jer.17012, [Times Cited = 40; Journal Impact Factor = 2.491].
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  6. Pamplona, F.A., Potential Clinical Benefits of CBD-Rich Cannabis Extracts Over Purified CBD in Treatment-Resistant Epilepsy: Observational Data Meta-analysis, Front Neurol. 2018; 9: 759, doi: 10.3389/fneur.2018.00759, [Times Cited = 5; Journal Impact Factor = 3.508].
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Neurocientista. Empreendedor. Muita história pra contar.

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