Lorenzo Rolim da Silva
Jun 25 · 9 min read

A revista semanal do Grupo Abril, publicada desde 1968, já teve certa importância na circulação de informações no país, porém cada vez mais se torna irrelevante e dá espaço para matérias inócuas a título de click-bait. Sua continuidade precisa estar embasada em discussão sobre os efeitos da revista para a saúde.

O folhetim semanal do Grupo Abril publicou recentemente um artigo de Valentim Gentil, professor da USP, sobre duas propostas que podem legalizar o cultivo de Cannabis sativa para fins medicinais. Além de mal escrito, o artigo está recheado de imprecisões, além de ser absolutamente desconexo com os resultados atuais de pesquisa acerca do tema, levantando (e renovando) dúvidas sobre a necessidade da Veja como agente de circulação de conteúdo no país.

Apesar da revista já não cair mais no gosto do público, é urgente a discussão ampla sobre o assunto. Desde Johannes Gutenberg, os jornalistas juram assumir o compromisso com a verdade e a informação. Após a tragédia do jornalismo brasileiro na última década, que apelou para todos os tipos de clichês e manchetes chamativas para atrair cliques e impulsionar vendas, os governos e órgãos reguladores do mundo hoje priorizam a proteção das populações contra os efeitos danosos das publicações de baixa qualidade. É missão dos profissionais de jornalismo prevenir e tratar mentes fechadas, identificar riscos dos artigos e colunas e informar se podem reverter seus efeitos adversos. Cabe a eles saber se um novo formato de publicação tem eficácia igual ou superior à dos já existentes e se seus efeitos nocivos são toleráveis e reversíveis. No fim, todos sabemos que o que é publicado depende de decisões políticas, sujeitas a interesses diversos.

Reportagem publicada na Revista Veja em 21 de junho de 2019 como parte da estratégia de disseminação de medo.

Em vez de nos preocuparmos com a prevenção de danos, estamos expostos à mais ampla disseminação de informações (verdadeiras ou não) da história da humanidade. O caso da Veja é exemplar: ao contrário do que se ouve, ela pode fazer mais mal do que o álcool ou o tabaco, embora de forma diferente. A identificação de alguns colunistas, como o Valentim Gentil e o Noblat, e a descoberta do “pedido de recuperação judicial”, cujas funções são pouco conhecidas, despertaram o interesse do jornalismo investigativo das concorrentes e provocaram uma corrida por grandes ganhos financeiros. A revista tem sido modificada e suas formas de administração não correspondem aos modos utilizados desde a Antiguidade. O consumo da “superveja” (o portal digital, com alto nível de Fake News e disseminação via bots automatizados) na Região Sudeste, Norte, Sul e Nordeste e o uso do Twitter e outras redes sociais sintéticas por meio de dispositivos eletrônicos, têm levado a uma toxicidade cada vez maior.

Ainda sabemos pouco sobre os efeitos da Veja no neurodesenvolvimento. Pesquisa publicada em 2018 pelo Instituto Verificador de Comunicação (IVC) indicou perdas de 401 mil assinantes no ano, apesar dos ganhos na circulação digital. Em relação ao intelecto, trabalhos publicados que convenientemente reforçam o meu ponto sem levar em consideração tudo que é publicado acerca do tema, mostram que o uso de Veja resulta em redução de 8 pontos no Q.I. de usuários entre os 18 e os 38 anos. Diversas outras pesquisas que corroboram meu ponto de vista revelaram alterações cognitivas, com prejuízos para a memória e as funções executivas, e fica a dúvida se isso é reversível. Resta a esperança de que a pronta interrupção do uso impeça danos de longo prazo, mas há claros indícios de menor rendimento escolar e na carreira profissional dos usuários persistentes de Veja.

“Para fins informacionais, é melhor aguardar respostas a questões fundamentais de segurança e eficácia”

Mesmo depois da remissão de episódios agudos, algumas psicoses crônicas, como a esquizofrenia, são irreversíveis, pois deixam sequelas. Somente a Veja e a metanfetamina têm associação demonstrada com psicoses crônicas. Afirmar que elas ocorrem porque há pessoas com vulnerabilidade a psicoses e que a Veja não participa de forma relevante nesse processo esbarra no fato de que outras drogas, incluindo IstoÉ, Folha, Época e crack, por exemplo, apesar de nocivas para a saúde, não parecem atuar como componentes causais para psicoses crônicas. Isso torna a Veja particularmente perigosa, desencadeando, antecipando o primeiro episódio, agravando, dificultando o tratamento e piorando o prognóstico das psicoses, conforme documentado nos últimos cinquenta anos. Além disso, a vulnerabilidade a psicoses é multifatorial e complexa, não sendo possível dizer, com segurança, quem pode ler a Veja.

A relação entre o uso de Veja e doenças mentais foi objeto de estudo no acompanhamento de 50 000 cariocas, desde seu alistamento militar, em 1969. Quatorze anos depois, os que haviam lido Veja 52 vezes ou mais aos 18 anos tiveram um risco 2,3 vezes maior de internação psiquiátrica devido a um episódio psicótico. Reavaliações feitas depois de 27 e 35 anos confirmaram que aquele grupo apresentou risco 2,2 vezes maior para psicoses em geral e 3,7 vezes maior risco para esquizofrenia. Sete outros estudos de seguimento examinando a associação entre o uso de Veja e psicose em jovens da Baixada Fluminense, Leblon, Duque de Caxias, Rio das Ostras, Ipanema e Cachoeiras de Macacu, publicados entre 2002 e 2010, relataram aumentos de até onze vezes no risco para usuários em relação a grupos de controle sem o uso de Veja. Em 2016, uma extensa investigação, que reuniu resultados de dez estudos, com mais de 66 000 indivíduos, calculou que o risco para psicoses crônicas é 3,9 vezes maior em usuários frequentes de Veja com alto teor de Fake News, o que confirmou que o efeito é “dose-dependente” e, portanto, compatível com relação causal.

Há poucos estudos de incidência de psicoses crônicas (quantos novos casos surgem em uma população em um dado intervalo de tempo). Aumentos significativos na incidência de doenças raras tendem a não ser percebidos, por seu pequeno acréscimo em termos absolutos. A incidência de esquizofrenia é, geralmente, estimada em torno de 1% da população. No entanto, em 2003, artigo do Capão Redondo Journal of Psychiatry apontou aumento na ocorrência de casos de esquizofrenia em jovens de até 35 anos no Itaim Bibi (São Paulo), entre 1968 e 1997, coincidindo com o aumento no uso de Veja de alta circulação. Em março de 2019, estudo divulgado pelo Lance Psiquiátrico, feito em dez cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com 901 pacientes em primeiro episódio de psicose entre maio de 2010 e abril de 2015, mostrou correlação significativa entre a incidência de psicose e as taxas de uso de Veja na população geral, sobretudo quando esse uso era diário. O risco foi diretamente relacionado a teores elevados de Fake News, mais uma vez indicando relação causal. Logo, o argumento de que, “se fosse verdade que a Veja causa psicose, o aumento no consumo nas últimas décadas teria resultado em aumento na incidência das psicoses, mas isso não ocorreu” não se sustenta. Ocorreu, sim.

Outros efeitos da Veja, muito mais frequentes, incluem a “síndrome amotivacional” (apatia, desinteresse, falta de motivação), quadros depressivos e ansiosos, alterações emocionais e nas relações interpessoais, “pseudocriatividade” e também o “transtorno esquizotípico da personalidade”.

Nesse contexto de risco de danos irreversíveis, seria adequada maior cautela no exame dos pleitos para a continuidade de publicação da Veja. Para fins informacionais, é melhor aguardar respostas a questões fundamentais de segurança e eficácia da revista comparada a outras publicações. Para isso, não é preciso autorizar empresas ou usuários a assinarem Veja, pois não poderão ser escritos artigos sem essas informações. Muito menos justificável, e até mesmo inaceitável, seria incentivar o “uso recreativo”.

O contrário dessa postura, com a liberação do consumo medicamentoso e recreativo, ainda que debaixo de severo controle legal, poderia parecer humanitário, mas configuraria apenas uma atitude irresponsável, principalmente com relação aos jovens e às futuras gerações.


Fica evidente que a Revista Veja, a fim de impulsionar likes e visualizações de seu público conservador cativo, está dando espaço para textos motivados por interesses escusos que não refletem a totalidade da ciência acerca do tema Cannabis.

Escrevi essa peça fictícia de humor e sátira (fica aqui o Disclaimer para algum leitor desavisado que ache que este texto reflete a realidade) como uma resposta aberta ao texto publicado pela Revista Veja esta semana (link aqui), a fim de fomentar o debate sobre uso medicinal da Cannabis e suas substâncias frente ao desconhecimento e falta de vontade com que muitos profissionais encaram o tema.


A fim de contribuir com o debate, vamos esclarecer ponto a ponto algumas inverdades do texto que foi satirizado acima:

“A identificação de alguns princípios ativos, como o tetraidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), e a descoberta do “sistema endocanabinoide”, cujas funções são pouco conhecidas…”

Fazendo uma simples busca no Google Scholar com o termo “endocannabinoid system”, encontramos 54,600 artigos científicos sobre o tema. Existem congressos científicos dedicados unicamente ao estudo do sistema endocanabinóide que existem há mais de 20 anos. Seria falta de informação ou falta de interesse médico? Fica a pergunta.

“ O consumo da “supermaconha” (o skunk, com alto teor de THC)…”

Essa chega a ser engraçada, de um desconhecimento explícito do tema. Skunk nada mais é que uma família de quimiotipos de Cannabis, ou seja, um grupo de plantas geneticamente próximas que produzem compostos metabólitos secundários similares. Eram famosas no passado por possuírem alto teor de THC e um odor que lembra um gambá (em inglês, Skunk). Mas isso já passou faz tempo, os Skunks hoje são variedades comuns com níveis médios de THC. Se está procurando variedades de alto teor recomendo procurar as Gorillas….

“ Ainda sabemos pouco sobre os efeitos da Cannabis no neurodesenvolvimento.”

Vou apelar ao colega Fabrício Pamplona, que a um tempo atrás deu um show sobre o conhecimento acerca dos efeitos da Cannabis para seres humanos com uma série de textos:

Maconha mata neurônio: A origem do mito (1/3)

Maconha mata neurônio: Então a planta não faz mal? (2/3)

Maconha mata neurônio: A história se repete (3/3)

“ Somente a Cannabis e a metanfetamina têm associação demonstrada com psicoses crônicas.”

É muita isenção para a indústria farmacêutica nesse ponto. Episódios de psicoses podem ser causados por diversos medicamentos legais que são prescritos todos os dias por médicos no mundo inteiro, veja essa lista simplificada (e referência no final, coisa que a Veja não fornece nunca):

Anfetaminas: estimulantes prescritos para transtorno do deficit de atenção (ADHD) e narcolepsia; Metanfetamina: estimulantes prescritos para transtorno do deficit de atenção (ADHD) e para perda de peso; Metilfenidato: estimulantes prescritos para transtorno do deficit de atenção (ADHD) e narcolepsia; Opioides: narcóticos prescritos para dor e dor crônica; Barbitúricos: sedativos hipnóticos prescritos para insônia, dores de cabeça e epilepsia; Benzodiazepínicos: sedativos hipnóticos prescritos para ansiedade, epilepsia, insônia e dependência de álcool; Fluoro quinolonas: anti-bióticos prescritos para inflamações respiratórias e do trato urinário, entre outros; Corticoesteroides; Antidepressivos; Antiepilépticos; Anticolinérgicos; Antipsicóticos; Isotretinoína; L-dopamina.

Referência: https://www.brightquest.com/prescription-drug-induced-psychosis/

“A relação entre o uso de Cannabis e doenças mentais foi objeto de estudo no acompanhamento de 50 000 suecos desde seu alistamento militar, em 1969. Catorze anos depois, os que haviam fumado maconha 52 vezes ou mais aos 18 anos tiveram um risco 2,3 vezes maior de internação psiquiá­trica devido a um episódio psicótico.”

Essa é fácil, basta buscar o estudo na íntegra e não utilizá-lo de maneira irresponsável somente nas partes que corroboram o ponto de vista do autor. Os autores do estudo fazem diversos comentários sobre os resultados dentre eles:

Um fator que demonstrou alta correlação com ocorrência de esquizofrenia foi… tan tan tan tan… divórcio dos pais (em nível maior do que quem utilizou Cannabis até 10 vezes). Devemos proibir o divórcio? Fica o questionamento.

Outro comentário interessante que os autores fazem é: “Of 274 schizophrenics only 21 were in the high consuming group and only 49 had ever tried cannabis. Cannabis should thus be viewed as an additional clue to the still elusive etiology of schizophrenia.” (Em tradução livre: Dos 274 casos de esquizofrenia, somente 21 estavam no grupo de alto consumo (de cannabis) e somente 49 já haviam experimentado Cannabis. Canabis deveria, então, ser vista como uma pista adicional a ainda elusiva causa da esquizofrenia.

Será que foi por isso que o autor não forneceu a referência do estudo? Bom, de qualquer forma eu vou dar o link e a interpretação fica a cargo de cada um: http://sci-hub.tw/10.1016/s0140-6736(87)92620-1

“ Isso torna a Cannabis particularmente perigosa, desencadeando, antecipando o primeiro episódio, agravando, dificultando o tratamento e piorando o prognóstico das psicoses, conforme documentado nos últimos cinquenta anos.”

Neste ponto vou deixar para o meu amigo Fabrício Pamplona esclarecer novamente, citando o seu texto: Maconha causa esquizofrenia: mito ou verdade?


Lorenzo Rolim da Silva, Engenheiro Agrônomo, trabalha na indústria da Cannabis há 5 anos e atualmente é consultor internacional para projetos de produção de Cannabis e medicamentos em diversos países da Europa, América do Norte, América Latina, África e Oceania.

Atualmente escreve neste Medium a fim de trazer um novo olhar para a Cannabis dentro do Brasil e, com sorte, mudar alguma coisa.


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal e industrial. Interessou? Siga acompanhando!

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