Produção de Cannabis: Onde estão os Agrônomos? (1/3)

Lorenzo Rolim da Silva
Sep 10 · 9 min read
David Williams, Ph.D., Agrônomo da Escola de Agricultura da Universidade do Kentucky, apresentando uma aula em uma plantação de Cânhamo nos EUA.

O cultivo da espécie Cannabis sativa é tema de intenso debate nos dias de hoje, tanto dentro quanto fora do Brasil. Mas uma questão que sempre me chamou atenção foi: Se estamos discutindo cultivo, onde estão os Agrônomos?

Talvez seja corporativismo da minha parte, afinal sou Engenheiro Agrônomo, mas sempre foi uma questão que me incomodou de certa forma. Já estive presente em inúmeros congressos e eventos relacionados a Cannabis aqui no Brasil, desde eventos em Câmaras de Vereadores, eventos organizados pela Anvisa em Brasília até congressos específicos de Cannabis, e em diversas ocasiões, eu era o único Engenheiro Agrônomo presente. Normalmente o grupo mais próximo a atividade de cultivo que frequenta esses eventos são os biólogos. E convenhamos, o Brasil é o país da Agronomia.

Claro que podem existir diversas razões para o desinteresse da minha classe profissional, o primeiro e talvez mais importante é que, durante a graduação, não se houve falar nenhuma vez em Cannabis, sequer no gênero ou na família Cannabaceae. É compreensível de certa forma, afinal aqui no Brasil ainda é ilegal qualquer atividade relacionada ao cultivo, porém já está mais do que na hora de nossas Universidades abrirem os olhos para o tema, afinal é um mercado de trabalho crescente e que cada vez mais exige profissionais qualificados, tanto que no Canadá e nos EUA já está se tornando comum a criação de disciplinas em cursos relacionados a produção de plantas e até cursos na pós-graduação.

Algumas Universidade Americanas e Canadenses que já oferecem cursos na área (com links):

Niagara College — Commercial Cannabis Production— Canadá;

Durham College — Cannabis Industry Specialization — Canadá;

University of Ottawa — Cannabis Law — Canadá;

University of Denver — The business of Cannabis — EUA;

University of Connecticut — Topics on the Cannabis Industry — EUA;

University of Washington — Medicinal Cannabis and Chronic Pain — EUA;

University of California Los Angeles — Cannabis Research Initiative — EUA;

University of California Davis — Physiology of Cannabis — EUA;

University of Vermont — Cannabis Science and Medicine — EUA.

Tenho certeza que a lista pode ser ampliada e vou tentar mantê-la atualizada, mas por hora já é exemplo mais do que suficiente que estamos ficando para trás no quesito educação sobre o tema. A indústria é tão dinâmica e inovadora que a revista Nature, referência mundial em ciência e atualidades, publicou mais uma edição inteiramente dedicada a Cannabis.

Edição da revista Nature publicada em 28 de Agosto de 2019. Até quando vamos ignorar o tema?

Dentre as 10 matérias presentes na revista, uma chamou muito minha atenção: The professionalization of cannabis growing.

A reportagem aborda a transição que a indústria experimentou na última década, iniciando com a tradicional imagem de pessoas que montavam grows ilegais em porões e locais escondidos, sem nenhum cuidado sobre controle de qualidade e técnicas de cultivo defasadas, para o que estamos vendo hoje: estruturas altamente high-tech para cultivo, controle de qualidade e auditoria externa nível farmacêutico além de profissionais treinados em universidades de ponta, muitos com título de Ph. D em alguma área de produção de plantas.

“As the industry has gotten bigger, they realized they must transition to use modern horticultural science,” - Youbin Zheng, University of Guelph, Canadá.

Eu cheguei inclusive a conviver com um destes profissionais quando morei na Califórnia. Por coincidência, o laboratório que eu trabalhava no setor de Horticultura indoor na UC Davis, formou um dos primeiros Phd que se dedicou a produção de Cannabis, o Dr. Robert Flannery. Aquela época ele já dava palestras para turmas da área sobre Cannabis. Hoje ele tem uma empresa com diversas marcas na Califórnia: Dr. Robb Farms. Ele foi até entrevistado pela revista Forbes que fez uma matéria muito interessante sobre a sua história.

Uma sala comercial de cultivo moderna e de acordo com padrões farmacêuticos. Fonte: Nature/Organigram.

De acordo com a revista Nature, serão necessários cada vez mais profissionais de alta qualidade para a indústria devido aos requerimentos técnicos envolvidos no cultivo de Cannabis, principalmente os padrões de controle de qualidade altamente regulados do setor. Bem verdade que para quem foi treinado para produzir plantas, Cannabis é apenas mais uma, porém sem a educação e estudos adequados, ela pode ser uma verdadeira dor de cabeça para produzir.

Existem vários desafios no dia-a-dia de produções comerciais, e a grande maioria está ligada a desinformação. É muito comum ouvir do pessoal ligado ao ativismo que “Cannabis não tem pragas” ou que “para produzir Cannabis não precisa de agrotóxicos”, “Cannabis dá em qualquer lugar, é só jogar a semente na terra” ou ainda pior “Cannabis é resistente a seca, não precisa de muita água, vamos salvar o planeta”. E é incrível como essas generalidades estão presentes no imaginário de vários empreendedores no momento que decidem iniciar um novo negócio relacionado ao cultivo.

Acho que é por isso que eu tenho mercado de trabalho como consultor, porque na hora da verdade eles percebem que tudo isso é balela e buscam ajuda profissional.

Por isso que sigo batendo na tecla, mais Agrônomos tem que estar envolvidos, ou pelo menos educados sobre o tema da produção de Cannabis, seja medicinal ou Cânhamo industrial, pois o futuro próximo vai experimentar uma liberalização das regras de produção da planta a nível global, e quem estiver bem informado pode muito bem estar empregado na área logo ali na frente.

Pensando nisso, decidi fazer esse texto focando em aspectos agronômicos da cultura, dividido em 3 partes, na Parte 1 vou falar sobre insetos, tanto os que são predadores do cânhamo como os que são benéficos a cultura. As próximas duas vão abordar doenças as quais a Cannabis é suscetível, fungos e bactérias principalmente e também alguns vírus, e na última vou falar sobre aspectos do cultivo, como consumo de água, nutrientes, fotoperiodismo, e mais alguns detalhes.


Desbancando alguns mitos sobre o cultivo de Cannabis

Baseado no que eu descrevi logo acima, vou fazer explicações mais técnicas e aprofundadas sobre como essas “verdades” não se refletem no dia a dia do cultivo em escala comercial.

“Cannabis não tem pragas”: Essa é bem fácil. Tem sim e tem muitas. Essa premissa provavelmente nasceu devido ao fato que a proibição da produção de Cannabis agiu basicamente como um vazio sanitário, a inexistência da planta em territórios por muitos anos acabou afastando muitas das pragas da cultura. Além disso, o cultivo em locais protegidos auxilia muito a proteção das plantas contra insetos e doenças em geral.
Porém, com o crescimento do cultivo nos últimos anos podemos ver diversas pragas ocorrendo na cultura.

O guia para esse assunto é o livro “Hemp Diseases and Pests”, já antigo, de 2000, dos pesquisadores Robert Clarke, David Watson, e do amigo John McPartland, que foi meu colega na Medicinal Cannabis Masterclass em 2018. Ele aliás publicou em co-autoria um artigo muito interessante sobre a situação atual do controle integrado de pragas do Cânhamo nos EUA. Dentre as mais comuns vemos:

Fonte: Cranshaw et al., 2019.

Lagartas: Várias espécies de Lepidópteros são predadores de Cannabis. Na imagem acima vemos à esquerda a Spilosoma virginica (Fabr.), conhecida como mariposa-tigre da Virgínia, praga comum nos EUA e à direita vemos a Helicoverpa zea, conhecida como lagarta da espiga do milho, presente no Brasil, ambas se alimentando de folhas de Cannabis. Na imagem abaixo vemos uma lagarta da espécie Grapholita delineana, conhecida como mariposa do cânhamo ou broca do cânhamo, pois seu ciclo de vida está intimamente ligado a planta, a fêmea deposita os ovos dentro do caule e as lagartas se alimentam da parte interna destes, causando grandes danos. Também estão presentes espécies como Estigmene acrea (Drury), Spodoptera exigua (Hübner), Peridroma saucia (Hübner), Spodoptera ornithigalli (Guenée), Melanchra picta (Harris), Loxostege sticticalis (L.) (Pyralidae), Vanessa cardui (L.) (Nympalidae), Strymon melinus (Hübner) (Lycaenidae), Mamestra configurata Walker (Noctuidae).

Fonte: Cranshaw et al., 2019.

Coleópteros: Dentre algumas espécies de Coleópteros presentes vemos a, Diabrotica undecimpunctata howardi, parente da Diabrotica speciosa, conhecida como Vaquinha e presente em vários cultivos no Brasil e o Besouro japonês, Popillia japonica Newman (Scarabaeidae), presente na foto acima em uma folha de cânhamo. Algumas outras espécies foram ligadas a danos de pequena intensidade.

Fonte: Cranshaw et al., 2019.

Gafanhotos: A imagem acima mostra o dano causado por gafanhotos a cultura do cânhamo, danificando gravemente o caule de uma planta.

Fonte: Cranshaw et al., 2019.

Hemípteros: Insetos da ordem Hemiptera são de ocorrência comum em plantas de Cannabis, na imagem acima podemos ver, à esquerda dois percevejos Thyanta custator, parentes próximos de diversos percevejos encontrados no Brasil, se alimentando de flores fêmeas, e à direita vemos um inseto fitófago do gênero Lygus spp., se alimentando das flores macho ainda não abertas. Percevejos têm preferência por flores, frutos e sementes ao se alimentar. Outras espécies de percevejos identificadas em Cannabis são Euschistus servus (Say), Chlorochroa ligata (Say), C. uhleri (Stål), Chinavia hilaris (Say).

Fonte: Cranshaw et al., 2019.

Afídeos e Tripes: Afídeos e Tripes são de ocorrência muito comum em Cannabis, tanto que existe, como podemos ver na imagem acima, um afídeo que foi nomeado Phorodon cannabis, devido a sua ocorrência quase que exclusivamente em plantas do gênero. Tripes também são de ocorrência bastante comum e uma das espécies que mais aparecem em cultivos indoor. Os afídeos sobrevivem durante todo o ano em restos culturais ou plantas voluntárias nas lavouras e geram grandes populações, sendo de difícil controle. Outros afídeos e tripes identificados como predadores de Cannabis são Aphis fabae Scopoli, Aphis gossypii Glover, Hysteroneura setariae, Thrips tabaci , Frankliniella occidentalis, Frankliniella fusca.

Fonte: https://www.insectimages.org

Ácaros: Ácaros estão entre as pragas mais comuns da Cannabis. Os aracnídeos ocorrem em números muito maiores em cultivos indoor, sem a prevenção adequada tornam-se de difícil controle. Na imagem acima podemos ver nas duas imagens plantas infestadas pelo ácaro vermelho, Tetranychus urticae. Espécies como Polyphagotarsonemus latus e Aculops cannibicola são ácaros que ocorrem também em plantações de cânhamo a céu aberto e foram responsáveis pelos principais problemas enfrentados pelos agricultores norte-americanos na safra de 2018, principalmente no estado do Colorado, EUA, com infestações de até 450 ácaros por folha da planta.

Outros insetos praga: Existem ainda outros insetos que configuram problemas ao cultivo do cânhamo, como moscas brancas e pragas subterrâneas, como corós, que atacam as raízes da planta. Estas apresentam problemas relativamente pequenos na Europa e América do Norte, principais fontes de informação sobre o cultivo da espécie, porém nós agrônomos devemos manter a atenção nessas pragas quando a Cannabis passar a ser cultivada em maior escala por aqui.

Fonte: Cranshaw et al., 2019.

Insetos benéficos: Insetos como as joaninhas, Hippodamia convergens (imagem à esquerda), e insetos da família Nabidea (imagem à direita), são predadores de outros insetos comuns em plantações de Cannabis, e seu uso tem sido amplamente estimulado como solução biológica para evitar o uso de inseticidas. O uso de produtos biológicos é bastante amplo no âmbito das produções de Cannabis devido ao fato que grande parte destes é utilizado para a produção de medicamentos e os controles são rigorosos quanto a presença de inseticidas que podem ser nocivos a saúde humana.

Fonte: Cranshaw et al., 2019.

Polinizadores: Embora a Cannabis seja uma espécie dioica polinizada majoritariamente pelo vento, insetos polinizadores são atraídos pelas plantas macho (imagem acima), devido a grande quantidade de pólen produzido, que funciona como fonte de alimento para as abelhas e também para insetos praga como os percevejos.


Podemos observar que existe muito a ser pesquisado e entendido quanto aos aspectos agronômicos do cultivo de Cannabis, e que grande parte das informações disponíveis vem da América do Norte e da Europa, ou seja, reflete as suas realidades e pragas presentes nesses países. Quando o cultivo tornar-se distribuído em países tropicais como o Brasil, vai haver uma enorme necessidade de estudos e pesquisas nas áreas sob diferentes condições ambientais e para diferentes finalidades. Que venham os Agrônomos!


Lorenzo Rolim da Silva, Engenheiro Agrônomo, trabalha na indústria da Cannabis há 5 anos e atualmente é consultor internacional para projetos de produção de Cannabis e medicamentos em diversos países da Europa, América do Norte, América Latina, África e Oceania.

Atualmente escreve neste Medium a fim de trazer um novo olhar para a Cannabis dentro do Brasil e, com sorte, mudar alguma coisa.


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal e industrial. Interessou? Siga acompanhando!

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