Produção Global de Cannabis: onde estamos e para onde vamos?

Os últimos 5 anos presenciaram uma explosão global no cultivo de uma espécie vegetal em específico, a Cannabis sativa.

Com a regulamentação da produção em vários países, e até mesmo a legalização e autorização para uso adulto, a espécie que até então era controlada sob o mais restrito rigor da Lei, tornou-se objeto de desejo de inúmeros empreendedores, empresas farmacêuticas estabelecidas, e de certo modo, da população em geral. O que muitos analistas econômicos vislumbraram foi um crescimento exponencial do consumo de Cannabis em suas várias formas e produtos, e com isso um crescimento igualmente acelerado na área global de cultivo. A experiência prática, porém, nos mostra que o panorama global pode ser um pouco diferente disso.

Canhâmo até onde os olhos alcançam. Seria esse o futuro da agricultura? Fonte: Hemp Farm Colorado.

A produção global durante a época da proibição era bastante distribuída e os números um tanto difusos, devido ao caráter ilegal da maioria das produções. Países como Holanda, Estados Unidos, Marrocos, Paraguai, e até mesmo o Brasil, sempre foram conhecidos por grandes produções ilegais que abasteciam os grandes mercados ilegais. Na Holanda, apesar de o consumo ser tolerado dentro dos chamados “coffee shops”, a produção nunca foi permitida, criando uma ambiguidade um tanto curiosa na situação do país. Quem frequentou, ou frequenta ainda, os coffee shops das cidades holandesas, encontra uma grande diversidade de produtos, vários cultivares de flores, conhecidos como “strains”, além de uma grande seleção de haxixes, a resina concentrada, de diversas origens, principalmente marroquinas. Estima-se que no Marrocos existam entre 90 e 120 mil hectares de produção de Cannabis sendo produzida em regiões isoladas no norte do país, a grande maioria abastece os mercados ilegais na Europa.

Cigarros de Cannabis e os tradicionais tabletes de Haxixe marroquinos, produtos facilmente encontrados nos Coffee shops holandeses. Fonte: Rolling Stone Magazine.

Enquanto a maioria do consumo mundial era ilegal, a produção era dimensionada para atender os mercados consumidores, uma produção sempre escondida, em locais protegidos na maioria dos países (e o motivo pelo qual o cultivo “indoor” ganhou tanta expressão quando se fala em Cannabis), embora em diversos países, como no Paraguai e Brasil (no famoso “quadrilátero da maconha” no sertão nordestino) e no Marrocos, o cultivo se dava em grandes áreas a céu aberto em regiões isoladas, longe do controle das autoridades. Os cultivadores dificilmente se arriscavam a cultivar muito mais do que os mercados poderiam absorver, devido ao risco de apreensão e controle das autoridades. Vale ressaltar que muitas vezes se cultiva em excesso justamente prevendo que parte dos cultivos seriam apreendidos de qualquer forma.

Devido a esta produção reprimida e controlada por grupos criminosos muitas vezes, o preço de compra pelo consumidor final sempre foi um tanto elevado. É comum encontrar dispensários na Califórnia ou no Colorado que vendem flores por 25–30 dólares o grama. Mesma situação de coffee shops holandeses, que possuem opções acima de 20 euros o grama de flor para fumar ou vaporizar. Conforme os mercados foram se abrindo e as regulamentações foram feitas, vários estados dos Estados Unidos da América, e países, como o Canadá e o Uruguai, passaram a ter produções em áreas cada vez maiores, os preços começaram a cair um pouco, mas ainda se mantendo em patamares um pouco elevados. A maioria das modelagens de mercado previram preços na casa dos 12–15 dólares por grama de flor, 30–50 dólares por grama de concentrado (sejam extratos, concentrados) e 70–80 dólares por grama de substância isolada (como THC, CBD ou algum outro canabinóide isolado com pureza de 99%).

Estimativa de preços por grama de flor para o consumidor final em diversos continentes em 2019. Fonte: New Frontier Data.

Previsões com esses números foram as grandes responsáveis pelo grande “boom” do mercado da Cannabis, e na visão de muitos, pela criação de uma bolha, com crescimento e precificação das empresas injustificados. Em países como o Canadá o comportamento mais visto eram empresas que compravam todas as licenças de produção que conseguiam colocar as mãos, a fim de garantir a maior produção possível, pois previam que tudo que fosse produzido atingiria estes valores elevados no momento da venda. E de fato o mercado tem se sustentado assim até o presente momento, as vendas legais mantiveram preços bastante rentáveis para as empresas produtoras, que tem custos de produção entre 1–5 dólares por grama de flor.

O grande problema é que a indústria está mudando, e mudando rápido. Desde que comecei a trabalhar internacionalmente como consultor, a cerca de 1 ano, tenho visto um crescimento exponencial de produção, nem sempre conectada a um mercado consumidor final, ou seja, gente produzindo sem ter uma possibilidade certa de venda. Muito do trabalho que me procuram para fazer é de broker, utilizar minha rede de contatos em outros países para conectar produtores e mercados finais. Mais ou menos desde Abril de 2019 tenho sido contactado cada vez mais por produtores de diversos países e a história é sempre parecida: em dois meses vou ter X toneladas de flores e gostaria de vender, seja in natura ou como extrato, para algum mercado que pague bem. Só do Uruguai foram 3 contatos no mês passado, todos na casa das toneladas.

Além de países periféricos, ainda temos a situação dos Estados Unidos, que legalizaram federalmente a produção de Cânhamo, e temos quase todos os estados produzindo Cânhamo para os mais diversos fins, a grande maioria para produção de CBD (Cânhamo, por definição, são plantas que produzem menos de 0,3% de THC, conforme explicado aqui)

Estados americanos onde a produção é legal em 2019 (em vermelho), onde existem programas piloto (em laranja) e onde será legalizado em 2020 (em amarelo claro). Fonte: New Leaf Data Services.

Baseado em tudo que tenho visto e vivido, e também no que tenho ouvido de outras pessoas envolvidas no meio, é bastante provável que somente o que é produzido nos EUA seja suficiente para suprir todo o mercado global de CBD.

Sim é isso mesmo, um país sozinho vai produzir tudo que o mundo precisa de CBD.

Enquanto isso existem empresas em diversos países do mundo que baseiam o seu valor de mercado em sua produção própria. O Fabrício Pamplona inclusive comentou aqui no Tudo Sobre Cannabis sobre a “race to the bottom” que o mercado internacional vai virar em futuro próximo no texto “Conheça a produção de Cannabis medicinal na Colômbia, pretensa líder da América Latina.”. Não posso prever com certeza o que vai acontecer com todos estes produtores, mas imagino que muitos que não conseguirem cortar custos, certificar sua produção através de um sistema de garantia de qualidade e Boas Práticas Agrícolas, e estabelecer contratos futuros de venda da produção, vão acabar ficando insolúveis, com um estoque enorme de produtos e sem ter para quem vender, ou vendendo com prejuízo.

As estimativas de preços caem com a mesma velocidade. Os preços citados acima normalmente são relacionados a flores contendo THC, vendidas para fins medicinais ou mesmo recreativos. Produção de plantas contendo somente CBD já calculam seus lucros potenciais através de previsões muito mais realistas.

Preços médios de venda de Cânhamo para CBD nos Estados Unidos, em Junho de 2019. Fonte: New Leaf Data Services.

A imagem acima deveria assustar muita gente que aposta no mercado de produção de Cannabis para produtos a base de CBD. Vamos observar em maior detalhe: Flores secas estão sendo vendidas, em média, por 349 dólares por ‘pound’ (1 pound são 453,59 gramas), ou seja, aproximadamente 77 centavos de dólar por grama de flor seca, pronta para fumar, vaporizar ou extrair e fazer concentrados. Isso sem levar em conta que os valores mínimos encontrados no mercado são de 70 dólares por pound, ou 15 centavos de dólar por grama de flor. Se considerarmos ‘biomassa’, que é um combinado de flores, folhas e caules de plantas, moídos juntos, os preços chegam a 0,007 dólares o grama, um valor ínfimo.

Mesmo os concentrados e isolados, produtos que após a produção ainda passam por um processamento intensivo, os preços estão baixando. CBD isolado é encontrado por 4,8 dólares o grama. Esse preço é extremamente diferente do que o consumidor brasileiro está acostumado, se observarmos um dos produtos mais vendidos aqui no Brasil, vendido pela empresa HempMeds, um produto que contém 1 grama de CBD em sua composição está sendo vendido por 128 dólares, uma margem bastante agradável para o produtor.

Produto da HempMeds vendido nos EUA e um dos mais importados por pacientes brasileiros com autorização para importar. Fonte: https://hempmedspx.com/cbd-oil-tinctures-liquids/

Essa discrepância mostra que o momento atual ainda está um pouco longe da queda brusca de preços que iremos experienciar em um futuro próximo. O ponto que eu queria trazer neste texto é que já está acontecendo, vários países estão facilitando a produção de plantas com altos teores de CBD, inclusive diversos países de clima tropical, como países do continente africano, países da América latina como Colômbia e Uruguai e vários países da Europa. Quando as produções nestes países começarem a se normalizar, as produtividades subirem, os trabalhadores adquirirem experiência com o cultivo, enfim, se tornar uma produção mais corriqueira, é esperado que os preços globais sejam cada vez menores, e a oferta, leia-se concorrência, cada vez maior. E ainda precisam ser contabilizados os fatores de climas mais favoráveis, mão de obra mais barata e sazonalidade de produção em países tropicais. Pelo meu conhecimento agronômico prevejo que algumas regiões do Brasil poderiam fazer 2 ou até 3 colheitas por ano na mesma área.

Produção típica de Cannabis outdoor para CBD nos EUA. É esperado que países com climas mais favoráveis possam fazer mais de duas colheitas por ano e obter produtividades cada vez maiores. Fonte: American Golden Biotech.

Além disso, o interesse para a produção de Cânhamo com outras finalidades é cada vez maior. Projetos que estão visando produzir papel, plásticos, materiais de construção e tecidos a partir das fibras de Cannabis aparecem a cada dia que passa. Além disso, existe o uso das folhas para chás, outros canabinoides para uso medicinal (CBG, CBC, THCV, CBDV, etc.), o uso das sementes como fonte de alimento (com alto teor de proteína), além de diversos outros que, graças a legislações mais compreensíveis e inteligentes de diversos países, agora podem ser exploradas em escala industrial.

Os diversos usos possíveis para o Cânhamo. Nota-se uma infinidade de sub-produtos que podem ser feitos a partir da planta. Fonte: New Frontier Data.

Resumindo, o cultivo de Cannabis cada vez mais se aproxima do lugar que nunca deveria ter saído, de ser uma planta que se produz em escala global, seja para qualquer finalidade que se deseje. A verdade é que os mais diversos sub-produtos feitos a partir da Cannabis serão commodities, produtos comercializados em grandes quantidades no mercado global, com margens de lucro cada vez menores. A verdadeira necessidade do mercado é difícil de se estimar, e quantidade de usos depende mais da criatividade de empreendedores em inovar e diversificar do que realmente se pode prever realisticamente hoje.

Em linhas gerais, o futuro reserva um lugar elevado para a espécie Cannabis sativa em sua relação com os humanos, suprindo diversas necessidades e melhorando nossa qualidade de vida das mais diversas maneiras. Essa planta já trouxe muitos recursos e muitas facilidades para a humanidade, principalmente entre os séculos XIV e XIX, quando era matéria prima para produção de cordas e velas de navios que desbravaram todos os mares do mundo, e eventualmente sofreu uma grave proibição de escala mundial. Agora, devido a luta de muitas pessoas e décadas de estudos e trabalho, ela retorna a passos largos para nossa matriz produtiva. Espero que o Brasil veja o verdadeiro potencial desta planta e permita seu cultivo por aqui tão logo seja possível.


Lorenzo Rolim da Silva, Engenheiro Agrônomo, trabalha na indústria da Cannabis há 5 anos e atualmente é consultor internacional para projetos de produção de Cannabis e medicamentos em diversos países da Europa, América do Norte, América Latina, África e Oceania.

Atualmente escreve neste Medium a fim de trazer um novo olhar para a Cannabis dentro do Brasil e, com sorte, mudar alguma coisa.


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal e industrial. Interessou? Siga acompanhando!

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