Saiba como é uma overdose de THC (foi sem querer, mas foi de verdade!)

Fabricio Pamplona
Jun 4, 2019 · 6 min read

Essa história é bem doida, e foi fruto de uma experimentação completamente insana e irresponsável de uma jornalista experiente (em jornalismo e maconha). No final deu tudo certo, então há uma certa dose de graça nisso tudo (quando a gente faz besteira e não tem grandes consequência, dá vontade de rir no final). Mas definitivamente, não é algo que se deva tentar reproduzir, nem estimular alguém a fazer.

Eu conheci a Mira Gonzalez no SxSw, ela é famosa por ser host de um podcast chamado "Queens of the Stoned Age". E além disso, ela é editora do site de cultura canábica MerryJane e é repórter da Vice, uma publicação que eu amo de paixão. Foi da matéria dela contando a auto-experimentação na Vice que eu tirei as infos e fotos abaixo. É importante mencionar que essa guria é louca pra cacete. Not your regular person.

Mira Gonzalez é uma figura à parte no universo da Cannabis. Se tiver interesse, ela é editoria do site MerryJane, com mais de 1 milhão de visitantes mensais, é host de um podcast de entrevistas bem divertido chamado Queens of the Stoned Agee e escreve pra Vice. Polivalente a garota. E beeeem maconheira.

A essa altura você que acompanha o mercado de Cannabis já deve ter ouvido falar dos lubrificantes íntimos que estão surgindo. Na gringa, o "Foria" é a principal referência e aqui no Brasil/Uruguai se houve falar sobre o "XapaXana". O posicionamento dos dois produtos é bem diferente. Enquanto o Foria se pretende posicionar como um produto fino de wellness, o XapaXana tem uma pegada mais "artesanal". Em termos de composição, parece-me que são equivalente.

Estou contando isso porque surpeendentemente, esse caso de overdose com THC não ocorreu com um baseado, ou mesmo um edible, spacecake, pirulito, GummyBear, ou qualquer desses produtos que considero bastante arriscados para os iniciantes. O caso de overdose relatado ocorreu com um lubrificante íntimo. Isso mesmo.

Segundo o relato da Mira Gonzalez, ela resolveu experimentar o Foria porque tinha um histórico extenso de candidíase vaginal que a deixava como irritação na mucosa e tornava qualquer relação sexual bastante dolorida. A promessa dos lubrificantes íntimos de Cannabis é justamente atuar como um analgésico local, ao mesmo tempo que estimula e — óbvio — lubrifica a vagina, preparando-a para o ato sexual. Parece um uso bastante adequado, pela farmacologia dos compostos canabinoides.

Há uma certa curiosidade entre as usuárias se ocorrem ou não os efeitos psicoativos típicos da Cannabis depois de se usar o produto “localmente”. Em teoria, a absorção pela mucosa vaginal poderia gerar uma distribuição sistêmica dos canabinoides, semelhante ao que ocorre pela administração sublingual ou retal (com supositórios).

Dá uma olhada na cara da cidadã. Pelo relato, ela passou praticamente 72 horas nesse estado.

Essa foi a expectativa da Mira… diz ela que experimentou sensações sexualmente interessantes ao usar o Foria, mas ficou frustrada porque esperava literalmente ficar chapada, e não rolou nada disso. Aparentemente a experiência foi apenas "relaxante".

O que uma pessoa "normal" faria com essa informação? Diria "ok", é isso. Mas não a Mira. Após ler algumas reviews sobre o produto na internet ela concluiu que o povo não sabia usar, e que por serem inexperientes com a planta, estavam com medo da psicoatividade. Aí ela tentou mais, se lambuzou toda com o Foria, disse que sentiu uma certa euforia, uma prazer sexual bastante intenso, mas… "só isso". Decepcionada com a experiência, ela decidiu tomar todo o conteúdo da garrafa de Foria. Não, você não leu errado, ela tomou o lubrificante íntimo mesmo. Pela boca.

“O que não mata engorda” — overdose de maconha não mata, mas dá uma larica das brabas.

Maluca demais. Só o ato de tomar aquele negócio me parece um pouco estranho, um veículo pegajoso com uma quantidade de óleo enorme. Imagina virando uma garrafa de azeite de golada. Se fosse só isso, ok, seria louco, engraçado, nojento, qualquer coisa assim, mas não teria nenhum consequência não fosse o conteúdo de 450 mg de THC numa garrafa de Foria. Isto é cerca de 45 vezes a quantidade recomendada para se tomar por via oral para efeitos recreativos. Indivíduos particularmente experientes vão a 20–30 mg de THC, mas mesmo nessas condições, estamos falando de pelo menos 15 vezes a dose recomendada. É muito acima do razoável.

Como comparação, tomar essa proporção de praticamente qualquer medicamento que temos em casa, mesmo analgésicos/anti-inflamatórios de venda livre como paracetamol e aspirina, pode trazer graves consequências, inclusive a morte. Nem se fala de medicamentos mais fortes para a dor (opióides) ou medicamentos para dormir (benzodiazepínicos), neste caso, é morte certa. Acredito que o mesmo se possa dizer para a maior parte das outras drogas recreativas, possivelmente inclusive o álcool.

Acho que essa não é exatamente a imagem que o fabricante gostaria de associar ao lubrificante. Mas é o que acontece se alguém beber o vidro inteiro do produto.

E como foi a overdose da Mira Gonzalez?

Como não foi tráfico, chega a ser engraçado. Ela ficou chapada por 3 dias, passou muitas dessas 72 horas dormindo, e as demais como um zumbi, assistindo séries e comendo compulsivamente salgadinhos Cheetos e batata frita (a famosa "larica"). Parece bem suave, e algo que muita gente inclusive faria num feriadão prolongado.

Mas teve seu lado incômodo também: ela teve episódios disfóricos e até neuróticos, "alucinando" que havia sido demitida, e que tinha perdido a criança que eventualmente toma conta como babá. Chorou porque queria ir pra Disney (WTF!?), escreveu páginas e mais páginas de textos estranhos e ininteligíveis no seu telefone, e mandou mensagens das quais não se lembrava para seus contatos. Felizmente, isso foi o pior que aconteceu.

As frases abaixo dão uma boa ideia da loucura que devem ter sido essas 72h:

"I love the idea of consuming THC through my vagina, but the weed lube was just not having the psychoactive effects on me that edibles normally have. So I drank it all"

"I woke up with potato chips all over my body, then asked my boyfriend to help wash me off in the shower because I didn’t feel capable of doing that on my own"

"I also vaguely remember having a mild panic attack about the fact that I didn’t know where our cat was. We don’t have a cat"

Essa experiência ilustra dois fenômenos: 1) o risco inerente de se ter acesso a produtos psicoativos em grande quantidade em sua casa, e 2) a relativa segurança do THC, mesmo em doses cavalares.

Claro que o objetivo não é estimular o uso, ainda mais nessa quantidade, mas justamente mostrar em uma experiência real que a overdose de maconha em nada se parece com o imaginário típico da "overdose" que conhecemos dos filmes: correria pro hospital, parada cardíaca, tremedeira, alucinações terríveis e risco de convulsão. Há riscos sim com o abuso de Cannabis, e eles envolvem principalmente compulsão alimentar, sedação profunda, alucinações paranoicas, ansiedade/psicose aguda, e hipotermia. Mas é muito pouco provável, senão impossível, de acontecer algum evento fatal, como é ilustrado na matéria. "O que não mata engorda" como já diziam nossas avós. E nesse caso, parece ser absolutamente verdadeiro.

Essa foi no melhor estilo "Hunter Thompson" de jornalismo experimental. Pra quem não conhece a história dessa peça rara, sugiro o filme "Medo e Delírio em Las Vegas" com a versão novinha de Johny Depp, Benicio del Toro e Cameron Diaz. Old but gold. No Brasil, acredito que o mais perto que temos disso é o excelentíssimo Arthur Veríssimo da Trip.

Tudo Sobre Cannabis

Conteúdo ponta firme sobre tudo de relevante no universo da Cannabis e canabinoides.

Fabricio Pamplona

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Neurocientista. Empreendedor. Muita história pra contar.

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