Lorenzo Rolim da Silva
May 28 · 9 min read
Um trabalhador em sala de produção em Smith Falls, Ontário, Canadá. Fonte: Canopy Growth.

A ideia para este texto surgiu durante as últimas duas semanas, quando após a apresentação do meu primeiro texto aqui, muitas pessoas me encontraram via redes sociais e vieram perguntar mais sobre o meu trabalho (e muitos vieram pedir trabalho também hehe).

Primeiro é preciso esclarecer que eu não sou o trabalhador comum da indústria da Cannabis, pelo motivo óbvio que eu vivo em um país onde o cultivo da planta, e a indústria em si, são totalmente proibidas (salvo autorizações judiciais para o cultivo caseiro).

Eu comecei lá atrás, em 2014, quando fui morar na Califórnia, EUA, e tive uma imersão completa na indústria. Muitos dos meus amigos na época estavam trabalhando nela e eu tive a oportunidade de ter muito contato com diversas empresas e pessoas que atuavam por lá.

Depois disso quando voltei para o Brasil, eu fui contratado pela Bedrocan Brasil, subsidiária brasileira de uma empresa holandesa de produção de matéria prima farmacêutica (ou insumo farmacêutico ativo, também conhecido como flores secas de Cannabis). Essa foi com certeza a experiência mais relevante e que trouxe mais aprendizado a minha vida profissional. A história da Bedrocan é longa, mas basta dizer que eles produzem legalmente desde 2002 e são fornecedores exclusivos do governo holandês desde então. Pretendo fazer um texto detalhando a experiência que tive em contato com a Bedrocan em um futuro próximo, ai posso comentar com mais calma sobre como tudo funciona.

Embalagem em que as flores produzidas pela Bedrocan são dispensadas aos pacientes. Fonte: Bedrocan.

O que contribuiu muito para minha contratação na Bedrocan foi o fato de ter sido selecionado para participar da Medicinal Cannabis Masterclass, um evento que acontecia todo ano na Holanda, na cidade de Leiden. O evento na época era extremamente concorrido, você tinha que enviar seu currículo e carta de motivação, além de fazer uma entrevista por Skype com o Dr. Arno Hazekamp, organizador da Masterclass e desde então meu amigo. No ano que fui selecionado ele recebeu mais de 10 mil applications, destes ele selecionou apenas 20 participantes dos mais diversos países (se me lembro bem eram Índia, Canadá, Bélgica, Israel, Estônia, Irlanda, Holanda, Argentina, Brasil, e mais alguns). O evento era de uma semana totalmente imersiva aprendendo sobre todos os aspectos da indústria da Cannabis medicinal e visitando algumas áreas na Holanda. No ano seguinte participei de uma Reunion que trouxe todos os participantes de todas as edições do evento, além de convidados, e marcou o fim do formato que era proposto. Desde então as Masterclasses se tornaram um pouco mais comerciais e realizadas por contrato, porém a qualidade segue a mais alta.

Minha página de apresentação no livro do evento, em 2017. Cada um dos 20 participantes tinha uma semelhante para que todos se conhecessem antes do início das aulas. Atentem para o tom “sonhador” do meu discurso, olhando em retrospecto, acho que consegui atingir meu objetivo.

Desde que eu sai da empresa, na metade de 2018, tenho trabalhado como consultor, obviamente internacional pela impossibilidade de trabalhar aqui, para empresas e grupos de investidores que desejam entrar no ramo ou que já estão operando mas precisam de um “extra pair of hands” para ajudar a desenhar o modelo de negócios e planejar sua produção.

Por eu ser Engenheiro Agrônomo de formação, a primeira conclusão óbvia é que quando eu presto uma consultoria para uma empresa ou grupo de investidores que deseja atuar no mercado canábico mundial, eu falo de métodos de produção, estufas, cultivos indoor, luzes, nutrientes, controle de pragas, etc. Sim, isso é verdade, muito do que eu faço envolve planejar esse tipo de coisa, normalmente em escala industrial, o que requer uma visão dos processos muito maior do que um grow caseiro (o que leva muitos amigos meus growers a ficarem bravos comigo por que meus conselhos sobre grows caseiros não são lá muito detalhados...). Isso sem falar no planejamento financeiro necessário, comprar duas lâmpadas para ter na sua tenda de cultivo em casa é uma coisa, planejar uma facility com salas de 2500 lâmpadas requer um nível de detalhe técnico bastante superior, pois qualquer dimensionamento mal planejado faz o meu cliente gastar substancialmente mais com energia elétrica no final do mês, e se ele não estiver lucrando, eu também passo fome.

Um exemplo de cultivo comercial indoor. Fonte: Fluence Bioengineering.

O importante aqui é: planejamento de produção é apenas um dos tópicos que eu abordo nos meus serviços de consultoria. O que muita gente nem imagina é que o primeiro passo para viabilizar uma operação começa muito antes do planejamento do cultivo. Grande parte do que eu faço são “Estudos de Viabilidade Econômica”, pesquisas de análise de mercado para entender todo o modelo de negócios, se ele vai ser lucrativo, se o mercado que se busca atingir está ao alcance, estimativa do investimento inicial, análise da estrutura regulatória do país, facilidades e barreiras para importação e exportação, y otras cositas más.

O mais difícil aqui é que eu atuo em países muito diferentes, o que me obriga a entender esse tipo de informação em muitos níveis e em países com leis e realidades totalmente diferentes. Imagine em um mesmo dia acordar direto em um call para planejar uma operação em algum país africano, como o Zimbabwe por exemplo, e logo depois ter que entrar em uma reunião com investidores que desejam produzir no Uruguai, tudo isso antes de começar aquela planilha do projeto na Nova Zelândia, isso se der tempo, porquê preciso atender o pessoal de Portugal que precisa operacionalizar uma importação… é de dar nó na cabeça de qualquer um.

Exemplo de produção de Cannabis em estufas. Esse modelo é o que eu mais acredito que será utilizado no Brasil no futuro. Fonte: http://gpnmag.com/wp-content/uploads/2016/12/ggs-greenhouse.jpg

Fique claro que não escrevo isso com o intuito de fazer parecer que sou “A Autoridade” do mundo da Cannabis, tem muita gente por aí que sabe muito mais do que eu. Só achei que seria interessante mostrar como é na prática um dia de trabalho na minha vida, dado o interesse aparente.

Claramente é uma rotina muito interessante, pois me permite entrar em contato com uma diversidade muito grande de culturas e pessoas, e me faz estudar assuntos como geopolítica e comércio exterior de produtos controlados, que, confesso, nunca achei que fossem fazer parte da minha vida profissional de Engenheiro Agrônomo. Isso sem falar na loucura que é atender todos esses fuso horários diferentes, tenho pessoas on-line praticamente todas as 24h do dia, então tem que se virar nos 30 pra conseguir atender a todos e ainda ter uma rotina minimamente normal.

Além disso, a indústria da Cannabis exige que os profissionais procurem soluções financeiras criativas, ou no mínimo você tem que ser uma pessoa com uma boa noção de relacionamentos e normas bancárias para conseguir operar por meio de bancos tradicionais.

Isso sem falar que, pelo menos na minha visão, na indústria da Cannabis os investidores estão muito mais próximos da operação do que em outas indústrias. Devido a isso, pode ser um grande facilitador para você fazer parte da indústria saber falar a língua deles. Falo por experiência que saber sentar em uma mesa de reunião e dichavar uma planilha de custos e desenhar um business plan de maneira adequada pode te levar muito longe nesse mundo.

Operações bancárias ainda são assunto delicado na indústria da Cannabis, e se você pretende entrar nela, esteja pronto para encontrar soluções criativas para gerenciar o seu dinheiro. Fonte: therooster.com

Caso você não saiba, para poder receber valores do exterior, você deve comprovar a origem dos mesmos, além de justificar o recebimento através de um contrato de trabalho ou prestação de serviços. Todas as consultorias que presto atualmente são no exterior, o que obviamente faz com que minha remuneração seja enviada a partir de outros países. Lembro bem da primeira vez que entrei em contato com minha gerente de conta para explicar que precisava receber um valor do exterior. Ela prontamente me deu todo o checklist necessário e eu logo enviei tudo, contrato de prestação de serviço, identificação da empresa que estava pagando e tudo mais. Rapidamente já veio a primeira pergunta: “Senhor Lorenzo, no seu contrato cita ‘consultoria em projetos de produção de Cannabis medicinal…. está correto isso?”. Já acostumado com esse tipo de situação, prontamente explico tudo nos mínimos detalhes para deixar os envolvidos seguros de que esses pagamentos não são provenientes de nenhum cartel de tráfico internacional, mas de empresas totalmente complacentes com as legislações de seus países e totalmente financiadas por capital proveniente de operações legalizadas, mas isso não tira o fato de que sempre é engraçado ver a surpresa das pessoas, e normalmente ainda me leva a responder que sim, existe uma indústria legalizada e tem muita coisa acontecendo fora do Brasil.

Tudo isso me faz ver, cada vez mais, que existe um abismo de diferença entre a indústria da Cannabis, seja medicinal, recreativa ou cânhamo industrial, e a realidade de muitos países que ainda sofrem as mazelas de décadas de proibição e militarização do combate ao tráfico de drogas.

A diferença clara entre experiência do usuário no Brasil e nos Estados Unidos. Fonte: Fabrício Pamplona.

Para você que sonha em trabalhar um dia na indústria da Cannabis, o aspecto mais relevante pra levar deste texto é que esta indústria é altamente multi-disciplinar. Ter um conhecimento generalizado de diversos conteúdos e aspectos de uma operação muitas vezes pode ser mais útil para um potencial empregador do que você ser expert em uma única área.

Uma boa dose de oratória, retórica, eloquência e storytelling também não fazem mal a ninguém, claro que isso são habilidades valorizadas em qualquer business, mas sinto que para trabalhar na Cannabis, são extremamente necessários, pois muitas vezes é necessário falar com agentes de governo, parceiros de pesquisa, fornecedores, clientes e investidores, e tudo isso fica muito mais fácil se você se sentir confortável em levar uma conversa de alto nível recheada de detalhes técnicos. Em outras palavras, você tem que se virar e ter jogo de cintura pra desenrolar com os caras.

Disponibilidade para viajar e passar um bom tempo fora de casa também é importante, principalmente se você cair em um nicho de mercado parecido com o meu, com projetos em várias partes do mundo, ai viajar é uma absoluta necessidade, se prepare para passar 1/3 do ano longe de casa. Realmente espero que essa realidade mude quando a indústria começar aqui no Brasil e pudermos atuar em um mercado próximo de casa.

Por fim, não preciso nem comentar que falar outras línguas é absolutamente necessário. Inglês sempre em primeiro lugar pois grande parte do que está acontecendo vem do Canadá e Estados Unidos, mas também pessoas de outros países via de regra usam o inglês quando estão agindo em mercados internacionais. Recentemente com novos projetos na América do Sul, também estou desenvolvendo meu espanhol, que é mais um Portunhol falado com confiança. Como me disse um taxista uma vez em Montevideo “Usted habla bien el español. No español por que las palabras son en portugués, pero el sotaque és bueno”. Na hora foi muito engraçado.


Espero que este texto tenha passado uma boa ideia do que é um dia na vida de alguém que trabalha diretamente na indústria da Cannabis medicinal e industrial, e também que possa ajudar você que sempre sonhou em fazer parte deste mundo tão interessante, e talvez dar aquele empurrãozinho que faltava para criar coragem e se lançar em uma indústria emergente e que oferece tantas oportunidades incríveis.


Lorenzo Rolim da Silva, Engenheiro Agrônomo, trabalha na indústria da Cannabis há 5 anos e atualmente é consultor internacional para projetos de produção de Cannabis e medicamentos em diversos países da Europa, América do Norte, América Latina, África e Oceania.

Atualmente escreve neste Medium a fim de trazer um novo olhar para a Cannabis dentro do Brasil e, com sorte, mudar alguma coisa.


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal e industrial. Interessou? Siga acompanhando!


Esse conteúdo é parte da publicação “Tudo Sobre Cannabis

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