Realista

Um homem se levanta da cama junto com o sol despontando na janela. Percebe sonolento, meio zonzo, o celular jogado no chão ao lado da cama. A tela bloqueada exibe 17 chamadas perdidas. 
Ainda meio bêbado, tenta levantar-se em consciência como fez com o corpo. Não consegue; Pega o aparelhinho, o vidro está trincado / abre as chamadas e de repente está desperto, catatônico. Pai, diz o visor. O pai morto, diz o visor. 
Sente uma onda de calor tomando o corpo; sai de casa, descendo as escadas do prédio às pressas, de pijama, descalço. Encontra Marcelo no caminho, que não o reconhece por conta de uma semicegueira que adquirira há pouco tempo.
“Meu amigo, meu amigo”, grita esbaforido, “o pai que estava morto me ligou noite passada!” 
Marcelo, que também estava meio surdo, sai correndo em desespero por entre os carros no trânsito veloz da rua, dizendo “Escondam as crianças! Os milicos voltaram!”

André Crespo — São Paulo

[escrito com Letícia Paes e MEDEIROS, Lennon. num guardanapo do subway, linha-a-linha, sem combinações prévias.]