Uma outra visão do setor público

Imagine colocar gente capacitada e engajada para mudar a situação atual de órgãos públicos. Isso que a ONG Vetor Brasil faz.

É evidente que o setor público no Brasil não é eficiente. Se quiser um exemplo disso próximo da nossa realidade, basta lançar um olhar mais profundo sobre a UFRJ para constatar seus problemas: máquina engessada, gestão desorganizada e excesso de burocracia, entre outros. Esse estado deplorável do setor público no país é reflexo de uma má gestão, que aproveita mal os recursos do Estado. Como consequência, o desenvolvimento de áreas essenciais, tais como educação e saúde, é negativamente afetado.

Agora, imagine colocar gente verdadeiramente capacitada e engajada para mudar a situação atual de órgãos públicos. Mais do que isso, pense em dar autonomia para essas pessoas realizarem mudanças concretas e impactantes.

Foi com essa ideia de alavancar transformações no setor público brasileiroque, em 2009, foi fundada a ONG Vetor Brasil. O objetivo principal dessa instituição sem fins lucrativos é selecionar jovens talentos para auxiliarem esferas do governo brasileiro e desenvolverem projetos inovadores, principalmente nas áreas de educação e gestão financeira.

O projeto é desenvolvido cuidadosamente para que a experiência seja enriquecedora tanto para o jovem quanto para o governo. Primeiramente, há uma seleção de trainees com forte perfil analítico e habilidades específicas e interpessoais. Em seguida, há o desafio de alocar o trainee em uma esfera do governo que permita que seu potencial seja amplamente explorado. Isso porque muitos funcionários públicos de carreira são resistentes a mudanças e o interesse político frequentemente se sobressai. É imprescindível, portanto, a escolha de um espaço cujos líderes estejam abertos para a mudança e interessados no desenvolvimento. Por fim, com a mentoria de especialistas de gestão pública e de consultoria estratégica, inclusive de consultores experientes de grandes firmas, como Bain e McKinsey, os recém-formados da ONG têm todo o apoio necessário para alcançarem bons resultados.

De fato, esse cuidado minucioso tem trazido resultados incríveis. Cases de sucesso não faltam. Vamos analisar alguns desses cases e seus impactos, todos geridos e planejados por trainees da ONG Vetor Brasil:

Governo do município de Araguaçu: No cargo de secretário de desenvolvimento econômico dessa pequena cidade de 9 mil habitantes no Tocantins, um dos fundadores da Vetor conseguiu resultados incríveis. Em um ano, quadriplicou a arrecadação do município, montou uma escola rural em tempo integral e criou um site que mapeia problemas urbanos.

Governo do estado de Goiás: Em um cargo de impacto na Secretaria de Educação de Goiás, um dos trainees da Vetor participou do processo que levou o estado ao primeiro lugar em indicadores de qualidade do ensino médio.

Governo do estado de São Paulo: Em um cargo na Secretaria de Planejamento de São Paulo, um dos trainees da Vetor foi responsável pelo monitoramento das obras do estado. A importância era tanta que os dados levantados por ele chegavam nas mãos do governador.

Governo do município de Salvador: Em um cargo na Secretaria de Turismo de Salvador, um dos trainees participou do projeto de tornar o carnaval de Salvador superavitário.

Trainees de 2015 da Vetor Brasil

Conclusões:

Diante de tantos resultados positivos comprovados com números e estatísticas, é possível perceber que a relação é benéfica para ambas as partes. O governo consegue concretizar medidas transformadoras e o trainee tem uma possibilidade de aprendizado inquestionável, além da oportunidade de impactar positivamente a sociedade. Muitos dos gestores públicos que chefiam esses trainees têm se esforçado muito para mantê-los no cargo, por reconhecerem o benefício por eles causado.

Ainda assim, a ONG tem muitos problemas a serem enfrentados. A remuneração oferecida pelo programa é consideravelmente mais baixa que a de empresas privadas, diminuindo a competitividade financeira de sua proposta. Há também, na carreira, raras promoções e, por consequência, um plano de crescimento profissional pouco acelerado.

Fica, ao menos, a certeza de que o primeiro passo foi dado. Mais que bons resultados, essa iniciativa pode trazer uma mudança de cultura ao povo brasileiro. A incorporação do pensamento meritocrático e a valorização da qualidade e competência do profissional precisam se sobrepor à influência das indicações políticas e do tempo de casa. Fica, também, a torcida para que outras iniciativas venham e que o sonho distante de um serviço público eficiente e organizado fique mais próximo da realidade.

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