Interface Writing amigável para maximizar a experiência de uso de um produto

Não sou nenhum especialista em Interface Writing, mas o básico que você precisa saber pra não ficar completamente perdido nos próximos paragráfos é que ela abrange todos aqueles textos em botões, navegações, tours pela interface, modals de mensagens de erro e diversos tipos de informação instrucional espalhados pela interface.

Essa reflexão começou após eu ter lido alguns parágrafos do livro O Poder do Hábito que relatava uma experiência feita pelo professor Mark Muraven, Ph.D em Psicologia Experimental, para medir a força de vontade das pessoas.

Para a experiência, Mark colocou graduandos em uma sala com um prato de cookies quentes que recém haviam saído do forno e instruiu que ignorassem os cookies. Porém, metade dos participantes foram tratados com gentileza por uma pesquisadora, recebendo instruções como: "Pedimos que vocês por favor não comam os cookies. Tudo bem?", e seguia explicando que o propósito da pesquisa era medir a capacidade deles resistirem a tentação. Ela os agradecia por terem cedido seu tempo para a pesquisa e salientava que se eles tivessem alguma sugestão de como melhorar a pesquisa que não exitassem em expor suas ideias.

Cookies quentinhos. :G

Já a outra metade do grupo foi tratada com certa rispidez e não ganhou a mesma paparicação que o primeiro grupo. Eles simplesmente receberam ordens do tipo "Vocês não podem comer os cookies" e "Vamos começar agora". A pesquisadora não explicou o objetivo da pesquisa, nem agradeceu pelo tempo cedido e não demonstrou nenhum interesse pelo feedback que eles poderiam trazer.

Se você acha que o segundo grupo não resistiu a tentação por causa do tratamento ríspido, se enganou. Ambos os grupos resistiram durante os cinco minutos após a pesquisadora ter deixado a sala. O teste verdadeiro, na realidade, era outro. A pesquisadora voltou a sala e pediu que cada estudante olhasse para uma tela de computador que estava programado para exibir números na tela, um por vez, num intervalo de quinhentos milisegundos cada. Toda vez que eles vissem um "6" seguido de um "4" eles deveriam apertar a barra de espaço.

O propósito desse teste era medir a força de vontade dos dois grupos depois de terem resistido aos cookies e ver qual deles conseguia manter o foco e prestar atenção em uma sequência monótona de números piscando.

Os estudantes que foram tratados com gentiliza se saíram muito melhores no teste do computador e conseguiram manter o foco por 12 minutos, apresentando força de vontade de sobra. Já o segundo grupo, tratado com rispidez, tiveram um resultado péssimo. Por várias vezes esqueciam de apertar a barra e diziam que estavam cansados e por isso não conseguiam se concentrar.

Depois de analisar os resultados, o professor descobriu que a diferença principal na demonstração de força de vontade dos dois grupos era a sensação de controle que possuíam sobre sua experiência. Em outras palavras, quando as pessoas acham que estão fazendo algo por motivos pessoais, sentindo que foi uma escolha ou que aquilo pode ajudar os outros, torna-se muito menos cansativo. Por outro lado, se as pessoas sentem que não possuem nenhuma autonomia naquilo que estão fazendo, cumprindo apenas ordens, sua força de vontade acaba muito mais rápido. Afinal, ambos os grupos conseguiram resistir a tentação de não comer os cookies, mas apenas os estudantes que foram tratados como pessoas e não como engrenagens mantiverem um estoque de força de vontade para realizar outra tarefa que necessitava de mais esforço.

E o que isso tem a ver com UI?

Trazendo isso para o contexto de User Interface, podemos traçar um paralelo entre o tratamento dado aos participantes da pesquisa com a maneira como escrevemos instruções de uso, rótulos de botões e demais mensagens de texto para auxiliar o usuário na utilização da interface de um produto.

Da mesma forma que os participantes da pesquisa, os usuários que estão em contato com qualquer tipo de interface necessitam de um tratamento mais humano, afinal, nosso objetivo é — e sempre será — projetar para pessoas. Ou vai dizer que você não fica feliz quando vê uma mensagem de boas vindas que parece ter sido escrita especialmente pra você ao invés de uma mensagem padrão de sistema?

Fala Enjoei, tudo certo?

Tome come exemplo a Inteface Writing do site Enjoei. Ela tem todo um estilo de comunicação que faz você se sentir um amigão do sistema ao invés de somente mais um usuário no banco de dados.

Navegar pelas páginas de um produto que se preocupa com cada detalhe dos textos para tornar a experiência mais humana e te fornecer autonomia para fazer o que é preciso ser feito é como tomar mais uma dose de motivação para continuar utilizando o produto.

É uma questão de empatia, sabe? Tanto se fala nela hoje em dia mas parece que muitos produtos digitais ainda não conseguem se conectar a nível emocional com seus usuários. E talvez o motivo dessa falta de conexão esteja na maneira como os textos da interface são escritos.

Olhe para a imagem abaixo. Quantos produtos se preocupam em escrever textos desse tipo numa página como essa?

E o que você ganha quando pensa em uma Interface Writing amigável? Você ganha a fidelidade do cliente. Um usuário que provavelmente voltará porque se sentiu a vontade com o tratamento que recebeu. Eu, por exemplo, quando quero vender alguma coisa penso logo em colocar na minha lojinha do Enjoei. Mas porque eu penso neles primeiro sabendo que talvez tenha alternativas até melhores? A resposta é simples: porque eles souberam como reter um usuário. E fizeram isso com textos amigáveis aliados a um "chuchuzinho de website", como eles mesmos se descrevem (e que eu assino embaixo!).

Um detalhe muito importante: uma interface com textos amigáveis não significa que você deve ir preenchendo tudo com gírias de Internet e palavras descoladas. Cada caso é um caso. O público alvo do seu produto pode não ser o mesmo do Enjoei, então adeque sua comunicação para esse tipo de público. O que realmente vai fazer a diferença é se você vai tratá-lo como um ser humano ou como uma engrenagem.

Então não negligencie aquele rótulo de botão que talvez ficará meio escondido em uma página qualquer. Talvez esse botão fará o dia de um usuário mais feliz. E usuários felizes gastam mais, certo?