Usabilidade e os Princípios de Rams

Já imaginou um mundo onde você não precisaria ensinar sua tia a usar aquele site complexo? Ele poderia bem existir, caso as produções digitais seguissem os princípios do designer alemão Dieter Rams.

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Na postagem anterior tratamos da relação entre Utilidade e Estética no processo criativo do Design. Para nos aprofundar neste tema — que torna produtos e serviços digitais apaixonantes — apresento o poderoso e conciso pensamento de um expoente do Design alemão, Herr (ou Sr.) Dieter Rams.

Nascido em 1932 (Wiesbaden, Alemanha), Rams é um grande influenciador da produção digital, ainda que toda sua vida se volte a projetos industrias. Com seu lema “Menos, mas melhor”, projetou produtos eletrônicos, ferramentas, móveis e é um grande seguidor da doutrina arquitetônica Funcionalista.

Se você é apaixonado por projetos ‘no estilo Apple’, por exemplo, entenderá rapidamente por que a filosofia deste homem inspirou e norteou grande parte do mundo digital que aplaudimos hoje em dia.

Por um tempo até se questionou a Apple e seu Head Of Design Jony Ive sobre possíveis plágios (e a imagem ao lado diz muito sobre essa história toda).

Mas tempos atrás o próprio Dieter Rams se pronunciou inocentando o ‘pessoal da maçã’e parabenizou-os pelo sucesso ao popularizar e propagar seu pensamento.

Os 10 Princípios de Design de Dieter Rams

O bom Design é inovador

Inovador, neste caso, não quer dizer que você tem que fazer algo novíssimo a cada trabalho. Lembre-se que projetar coisas não é exatamente uma forma de expressão e sim uma maneira de solucionar problemas. A inovação deste princípio tem a ver com a busca pelo novo e pela atualização do conhecimento — implementando novidades a cada projeto. Sites cada vez mais poderosos em suas versões responsivas são um bom exemplo desta inovação.

O bom Design torna o produto em algo útil

Este princípio parece fácil, embora seja um dos menos seguidos. Pense na utilidade do que está criando. Seu produto precisa servir ao usuário cumprindo papéis estéticos e psicológicos. Mas mantenha seu lado estético ‘na coleira’.
Quer um exemplo para sua realidade? Se em sua produção utilizou algo belo mas sem utilidade real, que tal suprimir isso e caprichar no visual de um elemento mais útil e importante? Sim, remover elementos é muito mais difícil do que adicioná-los. Mas você consegue.

O bom Design tem poder estético

E agora, como fico eu, ‘Cavaleiro da Usabilidade?’ — você deve pensar neste ponto. Mas sem razão, devo dizer. Apesar de usual e útil, também defendo que o Design precisa ser esteticamente correto (ou bonito!) para satisfazer justamente aquele papel psicológico apresentado anteriormente. Produtos úteis e belos são impactantes e nos fazem ter dificuldade de deixá-los. Tipo aquele site que você adora e tem dificuldade de deixar (ainda deve estar aberto em alguma aba por aí, é só procurar bem).

Uma dica relevante: Procure estudar as cores e seus significados. Depois mergulhe em tipografia e — caso precise de imagens — tente utilizar as melhores possíveis. Senão for o caso, que tal tentar solucionar com cores, tipografia e ilustrações?

O bom Design torna o produto compreensível

Este princípio envolve uma mistura de Design e Arquitetura de Informação. E é um grande convite para você conhecer mais sobre isso. Aqui vai um grande começo.

Produtos compreensíveis são auto-explicativos e transformam as pessoas em usuários independentes.

Lembra da tia da chamada deste texto? Se ela não tivesse dificuldades em encontrar o elemento de busca para receita desejada ou o perfil com as fotos do bebê daquela amiga, você não seria necessário. Que tal trabalhar para que as tias do futuro não precisem de sua ajuda?

O bom Design é desobstrutivo

O usuário acessa ou utiliza seu produto por um motivo. E convenhamos, você precisa descobrir o que vende e qual sua oferta desejada, certo? Portanto não obstrua a navegação. Projete as coisas para que o usuário faça logo o que ele veio fazer em seu site, plataforma ou sistema — e não o obstrua!

Nossos dias aqui na Terra estão contados afinal, e todos querem aproveitar o tempo que resta da melhor forma possível. E não é pendurado na internet, com toda certeza.

O bom Design é honesto

A honestidade tratada neste princípio diz respeito a cumprir o que se promete e não prometer mais do que se possui. Em um site, o conteúdo e forma não devem enganar o usuário levando-o à decepção posteriormente. Certifique-se de ‘vender’ seu produto ou serviço da melhor forma possível mas não minta sob nenhuma hipótese.

No quesito estrutural, links devem funcionar e levar o usuário justamente ao ponto que ele deseja ao clicar no botão, por exemplo.

Um grande exemplo de desonestidade e mau Design: há algum tempo se falou muito sobre a prática desleal adotada por uma famosa companhia de viagens aéreas. Ao acessar o formulário de compra, o usuário não notava o campo ‘Seguro Opcional’ pré-selecionado, discretamente. Na maioria das vezes a compra era finalizada e o usuário pagava mais do que devia pois não via isso.

O bom Design é duradouro

Cuidado com a Moda, aquela linha de tendências cool que todos estão usando. Projete o melhor produto para sua necessidade e não para aparecer bem nas plataformas onde um designer se mostra para o outro.

Se seu produto ou serviço tem pouco a ver com aquela linda imagem no topo (que explode no navegador de um canto a outro), para que usá-la? Só pra entrar na Moda? Remova-a e foque em caprichar na divulgação da mensagem essencial. Siga em frente, as modas, em geral, passam. Bons projeto, pelo contrário, continuam bons com o passar dos anos, ainda que a tecnologia os torne obsoletos.

O bom Design cuida até dos últimos detalhes

Outro princípio importante, geralmente esquecido. Vá até os últimos detalhes quando estiver produzindo algo. Não tenha pressa em considerar algo pronto, ainda que os prazos sejam cada vez menores.

Um exemplo corriqueiro envolve formulários. A maioria de nós capricha na forma dos campos e no modo deles se comportarem enquanto ativos. O usuário se envolve, utiliza e pá! Surge uma mensagem de execução ou de erro padrão, sem qualquer cuidado. Ah, mas é um detalhezinho… Vá até os últimos detalhes!

Não é preciso ‘reinventar a roda’ mas é imprescindível que se cuide das coisas pequenas. Lembre-se de padronizar de uma forma interessante e você vai se desgastar menos.

O bom Design é ecologicamente correto

Este princípio, no geral, dizia respeito aos produtos que Dieter Rams projeta. Mas você se engana ao pensar que não há utilidade nele para o Design de Interfaces. É claro que, para uma produção digital, não conseguimos pensar em utilizar elementos recicláveis ou menos poluentes mas e se pensarmos no ‘meio ambiente digital’?

Algumas questões podem apresentar a este universo o sentido do termo ’ecologiamente correto’:

Seu site demora quanto para carregar? Consome quanto da banda do usuário? O tempo de navegação até encontrar a atividade desejada consome quanta energia?

Pense nestas questões simplificando a vida do usuário enquanto ele navega. Simplifique seus documentos HTML/CSS com estilos e padronização e compacte toda e qualquer imagem que utilizar. Como, olha aqui! Todos só tem a agradecer.

O bom Design envolve menos Design possível

E finalmente SIM, dê um chute na bunda do seu ego!

Quanto menos elementos você usar, melhor. Retire tudo que não é imprescindível, esmere-se em trabalhar com o essencial. Uma tarefa fácil não será obviamente, jovem Padawan. Mas somente este caminho o levará a ser um bom designer de verdade!

Você pode conhecer um pouco mais de Herr Ram neste post (inglês) e no vídeo abaixo:

Agradeço seus minutos de leitura. Se curtiu espalhe a palavra ou me mande um tweet de apoio ou questionamento, vai ajudar me motivando a escrever.

Este é a segunda semana de meu projeto Growth Month, iniciativa que será abordada em um post futuro. Tenha um maravilhoso fim de semana!