UX Writing & Microcopy: Traduções de termos nas interfaces

Utilizando a cultura para melhorar a experiência do usuário

Usamos diversos meios para nos comunicarmos uns com os outros, mesmo que duas pessoas não sejam do mesmo país e não compartilhem uma mesma cultura, elas ainda podem se comunicar se souberem um idioma em comum. Sites e aplicativos também se comportam dessa forma. Muitos sites possuem configurações onde o usuário pode mudar o idioma que está sendo mostrado para ele, e alguns aplicativos também já disponibilizam essa opção dependendo da sua localidade. Isso vem possibilitando que os produtos alcancem ainda mais pessoas e proporcionem uma experiência mais adequada para elas.

Mas essa troca de idioma envolve mais do que somente a tradução dos termos, é preciso também levar em consideração a cultura e como esses termos são usados entre a comunidade. Quando o usuário tenta encontrar uma função, ou tenta entender o que um botão está dizendo pela label mas não consegue, pode ser que ele não esteja familiarizado com os termos que estão sendo passados para ele.

Interfaces seguem fluxos nos quais existem uma troca de informações com o usuário na maior parte do tempo. Seja para realizar uma tarefa ou analisar um gráfico, o usuário precisa compreender o que está sendo transmitido pela página.

Por esse motivo, palavras e frases em sites e aplicativos tem um papel fundamental: guiar o usuário! Dizer a ele o que é possível ser feito, onde ele está e para onde ele pode ir de uma maneira que ele compreenda. Isso ajuda a proporcionar uma boa experiência quando novos usuários começam a utilizar o produto, como se ele fosse desenvolvido no idioma de cada um deles originalmente.

Existem algumas dicas que podem ser seguidas para tradução de termos focada na narrativa e na experiência do usuário.

1. Conhecer seu usuário e a cultura na qual ele está inserido

Saber como o usuário utiliza produtos semelhantes ao seu é bem importante, mas também devemos saber qual a cultura do local onde ele vive. Você está desenvolvendo uma narrativa para a interação entre o usuário e seu produto, a interação pode ser prejudicada se o usuário não entende o que o produto quer dizer.

Termos e sentidos podem mudar bastante dependendo do idioma e fatores culturais também dependendo da localidade. Palavras que no idioma original do seu produto podem parecer adequadas, em outros podem significar algo totalmente diferente.

Um exemplo disso seria a palavra “Delete” do Inglês, que também pode ser traduzido para o Português com as palavras “Apagar” e “Excluir”. Em interfaces, elas são usadas para ações semelhantes mas passam sentimentos diferentes para o usuário. Apagar uma conversa, por exemplo, pode ser uma ação menos drástica do que excluir, pois você sabe que a conversa em si não será perdida totalmente. Enquanto o termo “excluir”, é algo que pode gerar medo, pois você está acostumado a ver seu uso em ações que são mais radicais e não podem ser revertidas.

2. Realizar Pesquisas Etnográficas

Etnografia é o estudo de pessoas e culturas. Ela surgiu no final do século XIX pela necessidade de pesquisadores entenderem de forma mais adequada e aprofundada as comunidades e grupos sociais. Os pesquisadores desta época chegaram à conclusão de que é preciso o contato real em campo para poder descrever melhor a cultura de um povo. Então, sempre que possível, você deve realizar pesquisas qualitativas desse tipo para se colocar no lugar do seu usuário e entender um pouco mais sobre comportamentos, costumes, crenças, entre outras coisas compartilhadas dentro daquela comunidade na qual ele está inserido.

3. Entender o que as palavras querem transmitir!

Ao pensar nos textos usados no idioma original do produto, procure entender exatamente o que você quer que a interface diga para o usuário com essas palavras. Isso facilita na hora de traduzir para um novo idioma, pois sabendo a informação que vai ser passada, você pode procurar pelos termos cujo sentido mais se encaixa no contexto original. Por exemplo, se em um fluxo do seu produto você precisa que o usuário selecione um item da interface para prosseguir, tenha essa ação em mente(o ato de selecionar algo) antes de escolher as palavras para isso.

4. Simplicidade é a chave!

Mantenha as frases simples para que comuniquem exatamente o que pode ou deve ser feito. Frases muito complexas podem ser mal interpretadas dependendo do contexto. Quando você está escrevendo, tente utilizar palavras que tenham um significado específico em seu contexto, mas que sejam universais o suficiente para serem compreendidas. Podemos ter como exemplo uma instrução para um botão em dispositivos móveis, em vez de usar o termo “pressione o botão”, você pode utilizar “toque” para se referir a ação.

5. Lembre-se do tamanho das palavras na interface!

Idiomas diferentes exigem uma quantidade diferente de espaço na tela para exibir as mesmas informações e a quantidade de caracteres que o usuário vai digitar nos campos de texto também é diferente. Você está escrevendo para várias jornadas, e em algumas delas, as palavras e frases de uma mesma tela podem mudar.

Empty States

Isso acontece bastante com os chamados “empty states”, por serem interfaces que precisam de dados do usuário ou uma primeira interação dele com o produto para poder mostrar algo relevante. Esse estilo de interface é usada, por exemplo, em listas de tarefas, históricos do usuário, lista de mensagens, entre outros diversos tipos. Elas mostram em poucas palavras que ainda não há dados para serem visualizados. Por esse motivo, podem possibilitar um engajamento maior se as frases apresentadas forem relacionadas a cultura do usuário e seu idioma, podendo utilizar termos menos formais dependendo do estilo e tom do produto.

Botões

Os botões são elementos de bastante importância para o fluxo de interação, possibilitando uma boa experiência conforme o usuário vai interagindo com o seu produto. Em todos os idiomas, os textos em botões tem uma informação a transmitir: “o que pode ser feito?” ou “para onde eu vou se eu apertar aqui?”. Ao pensar nos termos de instrução para botões, deixe claro o que o usuário pode fazer ao apertá-lo.

Menus

Termos em menus seguem a mesma regra de entender o conceito que você deseja passar através das palavras. Podemos pegar como exemplo menus de landing pages. Nesses menus, normalmente são utilizados termos mais abrangentes como: “Inicio”, “Sobre” e “Contato”. Por serem palavras de um contexto geral, elas se tornam mais fáceis de serem traduzidas para outros idiomas. Já menus que utilizam categorias, precisam de um pouco mais de cuidado ao serem traduzidos pois envolvem aspectos culturais do lugar. Para isso, é preciso saber como as pessoas se referem à palavra em questão em um diálogo natural.

Menus do usuário são um pouco mais complexos. Você pode utilizar palavras que indiquem para onde o usuário vai ao selecionar o item, se referindo a localidade, ou que digam a ele o que ele pode fazer, se referindo as ações. Mas é preciso ter cuidado para não misturar os termos e acabar se confundindo. Independente do estilo escolhido, procure utilizar termos que indiquem exatamente onde ele está indo ou o que pode ser feito sem utilizar abreviações ou palavras menos usadas do idioma no dia a dia.

Gráficos

Gráficos podem envolver informações mais complexas para serem mostradas ao usuário, como por exemplo: medidas de temperatura, formato de data e hora, moeda específica do país e muitas outras. Para tradução de termos desse tipo, além de realizar pesquisas sobre trabalhos semelhantes, é sempre bom procurar ajuda de especialistas na área que você deseja utilizar os dados. Isso permite um entendimento maior do que vai ser mostrado e de como o local já utiliza esses termos para aquele conteúdo específico.

Para todos os tipos de dados, procure considerar o espaço que será utilizado para as informações e que ele pode variar. Você pode testar e deixar um tamanho a mais quando estiver desenvolvendo os termos no idioma original, para ajudar na visualização e não comprometer o design.

6. Branding e tom do produto

O seu produto tem um tom e estilo próprio, isso deve sempre ser levado em conta na hora de realizar a tradução dos termos para que ele seja reconhecível em outros países. Durante esse processo, procure termos que se encaixem com a sua marca, desenvolva uma conversa entre o produto e seu usuário para que você possa perceber se os termos estão adequados para a interação ou podem melhorar.

Muitas vezes, esses aspectos que caracterizam a marca não são levados em consideração quando traduzidos para outras culturas, e isso pode gerar uma inconsistência entre os termos do seu produto de um idioma para o outro. A qualidade da tradução também diz muito sobre a sua marca, ao desenvolver um produto onde, em seu idioma original, os termos são perfeitamente utilizados mas quando modificam a configuração os usuários encontram termos de sentidos totalmente diferentes, pode passar uma impressão negativa e gerar uma quebra de confiança.

Conclusão

Ter um certo cuidado com as traduções dos termos mostra não só uma boa usabilidade, mas também que a marca se preocupa com seus usuários e suas culturas, estejam eles nos mais diversos lugares do mundo e falando idiomas diferentes. Não é simplesmente uma tradução, é a internacionalização do seu produto!