Escrever uma história de amor bonita é a coisa mais difícil que existe

Plinio Zunica
Jul 24, 2017 · 2 min read

Não sei se é só falha minha ou se é uma dessas verdades universais que a gente descobre batendo o nariz que nem numa porta de vidro sem sinalização, mas o caso é que escrever uma história de amor bonita é a coisa mais difícil que existe.

Não é o caso de escrever uma história de amor melosa ou uma tragédia passional, que isso é mamão com açúcar, eu vomito pilhas dessas em pedaços de guardanapo toda vez que tomo um fora ou dois conhaques ouvindo Fagner. Mas uma história de amor sem os clichés das histórias de amor, que dispense grandes reviravoltas, mocinha e bandido ou uma lição de moral chinfrim, uma história de amor que seja simplesmente só bonita, é um horror de se fazer.

Não é que eu não tenha tido histórias de amor, e muito menos que não fossem bonitas. Até que amei bastante, e pensar nesses amores sempre me faz sorrir sozinho, principalmente quando esbarro em bilhetes guardados no meio de um livro, ou nos domingos de sol, enquanto tomo um café mais demorado. Mas é que é realmente difícil escrever uma história de amor sem tropeçar numa pilha de ‘mas’ e ‘poréns’ espalhados pelo chão.

Já escrevi de tudo. Crônica, artigo acadêmico, textão, diálogo teatral, narrativa epistolar, fábula, conto, microconto, nanoconto, história de vingança, dor, violência e todas essas formas de amor escangalhado. Tem tudo, menos uma história de amor só bonita.

Não foi falta de vontade. Parece um pouco besta, eu sei, falar de amor sem conflito, plano, besta, água com açúcar, eu sei, é brega e até meio ingênuo.

É ridículo, eu sei.

O problema é que eu não tenho dificuldade de pensar em histórias de monstros marinhos e viagens à outra dimensão tanto quanto nos mais surreais sofrimentos diários dos amigos e dos jornais. É fácil pensar no absurdo, no fantástico, horrorível, no humano. Mas se eu não consigo imaginar de uma história de amor sem pedras e lágrimas, e se não consigo sequer me lembrar de ter visto ou lido algo assim que não fosse propaganda de margarina ou de modelos de servidão romantizada, então talvez um amor simplesmente amável esteja pra além do impossível. Afinal, o inexistente é, no máximo, algo ainda a ser criado, enquanto que o inimaginável é inexistível.

Eu só queria poder abrir um parênteses no final, um P.S. ou nota de esclarecimento garantindo que nenhum personagem foi morto ou maltratado na feitura daquela história. Mas e o autor, como é que fica?

No fim, acho que não sofrer é a coisa mais sofrida numa história de amor bonita.

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