Não me lembro de parar para pensar no que queria ser quando crescer antes de você tentar me explicar como aquele romance de capa amarela havia te motivado a decidir sua profissão aos nossos dez anos.

Muitos anos depois, em um passeio matinal aos sebos da cidade, quando eu encontrasse aquele livrinho amarelo na estante de escritores catarinenses do Sebo Odete, iria recordar da sua decisão. Não tínhamos nem largado direito as bonecas, mas você estava convencida de que seria escritora.

Nessa época passávamos horas no seu quarto vestindo e penteando suas bonecas e criando histórias de vida para elas. Mas para variar na passividade da infância feminina, também brincávamos de ser secretárias, nunca chefas. Passávamos a tarde atendendo telefones, resolvendo problemas imaginários e montando a agenda de um chefe de mentirinha. Todo começo de tarde, lá estava eu correndo morro à cima para chegar à sua casa, a última da rua, e chamando seu nome aos berros, em frente ao portão. Até aquela manhã, quando te chamei tantas vezes que sua mãe gritou pela janela “mas que guria escandalosa”. Naquele dia você não estava em casa, e acabei acordando sua mãe da soneca vespertina. A partir dali me restringi a chamar três vezes seu nome e se não obtivesse resposta corria para casa.

Além dos dias que você ia visitar seus primos ou sua madrinha, havia só mais uma ocasião em que não podíamos brincar: os dias de limpeza. Sim, você deve lembrar-se da sua mãe te chamando com cotonetes nas mãos pronta para limpar seus ouvidos. Presenciei a cena uma vez comemorando que aquilo nunca iria acontecer comigo. Você manteve um olhar perdido, e a boca torta por todo o procedimento. E em meio as suas reclamações, sua mãe perguntou buscando apoio “né que a tua mãe faz isso também?” Na verdade não fazia não.

Chegava a ser comum sua mãe comparar os métodos de criação das nossas famílias. Todas às vezes eu segurava na boca uma resposta um bocado malcriada, prova de que a minha educação não foi tão falha assim como ela imaginava. Lembro que um dia de férias tínhamos combinado que após o almoço eu correria para sua casa para continuar a montar a casinha das bonecas no seu quarto. Era verão, e eu devia ter uns oito anos, pois ainda tenho guardado o conjuntinho xadrez que usava naquele dia. Sua mãe logo que me viu perguntou “mas a sua mãe não pede para você escovar os dentes não?” Um fiapo de manga madura, doce e suculenta que eu havia comido após o almoço reluzia na bochecha negra. Eu respondi “olha dessa vez ela não pediu”, mas na verdade ela nunca pedia. Era impressionante o fato de que eu e minha irmã tenhamos vivido a infância sem cáries. Você frequentava pouco a minha casa, acredito que por isso não precisou ouvir coisas inconvenientes sobre o seu jeito de vestir e seus costumes à mesa.

Em frente aquela estante do sebo o universo me deu a oportunidade de finalmente saber sobre o que o livro amarelo tratava. Há 15 anos, enquanto você tentava me explicar sobre o que era aquele romance tão inspirador, eu pensava em decidir logo o que queria ser quando crescer. Sabia que depois daquela ladainha toda viria a pergunta “e você já sabe o que vais ser quando crescer?” Na verdade eu não queria ser nada ainda, só havia saído de casa para brincar. Mas não podia correr o risco de presenciar seu olhar decepcionado quando eu dissesse “não sei’”.

Entre as tarefas de prestar atenção no que você falava e escolher uma profissão eu não consegui ter sucesso em nenhuma das duas, recorri a: responder qualquer coisa. Fazia muito isso quando você colocava na cabeça que precisava provar seu guarda-roupa inteiro para que eu a avaliasse. O tipo de coisa que eu odeio fazer até hoje. Eram três tipos de resposta. Na primeira prova eu dizia “você está linda” (rezando para você acreditar e desistir logo daquilo), na segunda eu respondia um “está legal” não muito convincente, já na terceira eu torcia o nariz para dizer “não gostei”. Depois eu repetia as respostas na mesma ordem.

Claro que essa técnica era muito suscetível ao erro, pois se o objetivo era te agradar, na maioria das vezes eu não conseguia e você travava uma batalha para me explicar que apesar da minha reprovação, a saia rosa combinava com a blusa branca. Então com o livro na mão pude finalmente ler a contracapa e saber sobre o que era. Não demorou muito para você descobrir que detestava ler e escrever, mas agora sabendo do enredo que te inspirou tanto não admiro que você tenha desistido de ser escritora, a história não poderia ser pior: uma breve autobiografia mal escrita de uma pessoa que sentia pena de si própria.

O que eu respondi não lembro, mas tenho a certeza que não te comoveu, pois não houve tentativas de arrancar mais explicações sobre a escolha, o que poderia ter te decepcionado, pois nas horas de pressão, até hoje, eu sempre respondo “não sei”. Mas fui para a casa com uma grande questão na cabeça, precisava saber o que seria quando crescer. Então aos nossos dez anos, eu me preocupava com a escolha da minha profissão. Mas na verdade a maioria das crianças submissas de dez anos preocupa-se em serem aceitas, e naquele momento ser aceita significava escolher uma profissão e ter habilidade com bola.

É porque quando não estávamos em sua casa a rua chamava. A década de 1990 foi fértil na Rua Maria Severiano, onde crescemos. Conhecíamos desde sempre as pessoas que costumávamos brincar de pique esconde e futebol (foi possível formar quase uma equipe inteira na década seguinte). Mas eu e você nos conhecíamos “da barriga da nossa mãe”.

Há certo saudosismo sobre as relações que vieram do berço. Como se a inexistência de escolha das partes interessadas fosse a garantia de que aquela conexão imposta duraria para sempre. Até hoje tentamos legitimar nossa amizade afirmando que “nos conhecemos da barrida da nossa mãe”. Mas a verdade é que não passávamos de dois fetos mais leves que uma banana quando nossas mães resolveram trocar figurinhas sobre gravidez. Não que elas soubessem, mas você, como feto três meses mais velho, já estava aprendendo a urinar parte do líquido amniótico que engolia, algo bem impressionante, eu acho, enquanto os meus dedos ainda eram colados por membranas que nem um girino.

Um ano antes de nós havia nascido Bea. Nutrimos uma espécie de respeito/medo dela. Afinal ela era a mais velha. Fazíamos tudo que ela pedia. A única maneira de podermos mandar ao lado dela era na brincadeira O mestre mandou. Nem preciso confessar que era a brincadeira que eu mais gostava, pela frequência que pedia para brincar de O mestre mandou você deve ter percebido. Apesar das minhas ordens não passarem de “O mestre mandou pegar uma pedra branca” e “O mestre mandou pegar um caco de vidro”, era gostoso de ver toda aquela gurizada que me odiava, fazendo tudo que eu mandava.

Foi na escola que você descobriu que não seria escritora. Você odiava ir à aula, ou estudar em casa. Mas eu te entendo, aquele lugar sugava a esperança das crianças. As paredes eram feias, a biblioteca desinteressante, os professores desanimados. Tudo bem que alguns dos melhores escritores que já li odiavam ir à escola, mas duvido que eles precisaram frequentar um colégio parecido com o nosso.

Nos primeiros anos da escola não tínhamos muito contato. Como sempre fui uma pessoa matutina, adorava acordar cedo para ir à aula, já você fez os primeiros anos a tarde. Quando mudou para manhã tinha algumas amigas, mas eu nenhuma. Nos corredores cinzas do Colégio Municipal Madureira, aprendi a não cruzar o olhar com você, para não ser ignorada. Mesmo quando estudamos na mesma sala, acho que por dois anos, você fazia questão de sentar do outro lado da sala.

Durante a adolescência, nossas diferenças só afloraram. Você tinha amigos, pois era fácil gostar de você. Quando éramos obrigados a correr naquela quadra de cimento, gostava de observar seus cabelos dourados em movimento, que chegavam até a brilhar se fosse um dia de sol. Já eu era estranhíssima para o padrões. No começo dos anos 2000, não era moda ter cabelo crespo e a pele escura. Por volta dos 12 anos mudei de escola, e nos afastamos ainda mais. Foi mais ou menos quando a Bea decidiu que estava muito velha para ser nossa amiga — os garotos que moravam duas ruas à esquerda da nossa achavam que ela estava perto dos 18 quando tinha 15, isso porque ela mentia a idade — e bem na época que Amanda mudou para a nossa rua. A troca perfeita. Ela era mais velha e também gostava de mandar na gente. Então Amanda foi bem vinda, mas secretamente eu a detestava. Primeiramente porque nos dias de chuva ela esperava eu passar embaixo de uma árvore e puxava os galhos encharcados de água para que eu ficasse molhada e puta da vida, e depois porque definitivamente foi para ela que perdi você. Se é que eu ainda a tinha.

É engraçado pensar nisso agora por que hoje vocês não estão mais se falando, tiveram uma briga qualquer e, também por que quando encontro alguma de vocês na rua há um constrangimento mútuo de uns cinco minutos, em que fingimos estar interessadas sobre a vida de cada uma. Mas faz tempo que não temos esses tipos de encontro. Por isso pensei em escrever esta carta para você. Talvez você possa lê-la daqui a um mês, quando a eu estiver lançando minha próxima coletânea de contos.

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